ABELARDO E HELOÍSA:

By Acervo Filosófico

Por: Juliana Vannucchi

Às vezes, os exemplos mais que as palavras excitam ou acalmam os sentimentos humanos”. – Abelardo.
Durante a Idade Média, Pedro Abelardo e Heloísa de Argenteuil protagonizaram um dos romances mais dramáticos e impressionantes da história. Abelardo foi um teólogo e filósofo cujos feitos foram notáveis, tanto na época em que viveu, quanto posteriormente, e que obteve grande destaque por suas contribuições à Filosofia, especialmente pelo vasto conhecimento sobre Lógica e pela elaboração do conceitualismo. Em 1108, começou a dar aula em Santa Genoveva, e alguns anos mais tarde, passou a lecionar em Paris, na escola da catedral, onde se tornou notavelmente prestigiado. Durante o período em que passou na capital francesa, conheceu Heloísa, de quem tornou-se professor. Ela era uma jovem intelectual que demonstrava domínio e conhecimento vasto de línguas estrangeiras, além de ter grande habilidade com a escrita. Heloísa era muito culta e inteligente e tais atributos fizeram com que se destacasse na região em que vivia. Quando se conheceram, através de Fulberto, tio dela, Abelardo tinha entre 35 e 37 anos e a jovem, cerca de 16/17. O filósofo, interessado e atraído pela jovem, através de amigos comuns, faz-se apresentar a Fulberto, oferecendo-se como pensionista em sua casa, ao preço que este estipulasse. Abelardo alegou que havia algumas razões pessoais para tal oferta e Fulberto, sem desconfiar do filósofo, aceita a ideia: “O cônego não só se sente honrado com a proposta, como também o adula para que se torne preceptor da sobrinha”. (ESTÊVÃO, 2015, p.18).

Dadas às circunstâncias, o filósofo e Heloísa começaram a se encontrar com frequência, e com o tempo, apaixonaram-se. Assim, aos poucos, os estudos passaram a ficar em segundo plano, e os dois envolviam-se cada vez mais. No livro “História das Minhas Calamidades” (Historia Calamitatum, de 1132), carta endereçada um amigo e na qual, dentre outras abordagens feitas, narra seu romance com a jovem, Abelardo escreveu: “Assim, com a desculpa do ensino, nós nos entregávamos inteiramente ao amor, e o estudo da lição nos proporcionava as secretas intimidades que o amor desejava. Enquanto os livros ficavam abertos, introduziam-se mais palavras de amor do que a respeito da lição, e havia mais beijos do que sentenças (…)”. (ABELARDO, 1973, p.258).

Abelardo e Heloísa, retratados por Edmund Leighton (1853-1922).A relação “secreta” que o casal alimentou e à qual se entregou com tanta paixão, aos poucos, foi sendo percebida por algumas pessoas e, claro, não demorou muito para que Fulberto descobrisse o escandaloso romance em que sua amada sobrinha estava envolvida. Sobre isso, Abelardo (1973, p.258) registrou: “(…) fato tão patente não poderia enganar senão a poucos ou a ninguém, creio, a não ser àquele para cuja vergonha isso concordaria principalmente, a saber, o próprio tio da mocinha”. O filósofo prossegue em suas confissões: “Oh! que dor imensa a do tio ao tomar conhecimento de todo isso! Quanta dor, também, na separação dos próprios amantes!”. (ABELARDO, 1973, p.259). O clérigo, de fato, sentiu-se profundamente frustrado e traído com essa sua situação.

Abelardo e Heloísa, retratados por Edmund Leighton (1853-1922).

Dentro de um período de tempo, a jovem Heloísa engravidou e então ela e o amante combinaram uma fuga num dia em que seu tio não estivesse em casa. Assim, ambos sob disfarces (ela de monja e ele de padre), partiram. Heloísa se instalou em Palais, terra natal de Abelardo e lá ficou morando junto à irmã dele, até o nascimento do filho Astrolábio. Por sua vez, Abelardo voltou a Paris e encontrou-se com Fulberto, que estava furioso pelo escândalo envolvendo sua sobrinha. O filósofo então propõe ao tio da moça a opção do casamento, contanto que ninguém soubesse da união. Entretanto, essa proposta foi prontamente negada por Heloísa: “Ao lado de muitas citações de autores antigos, Heloísa também lembra prosaicamente que ninguém consegue se concentrar no meio da bagunça de crianças e criadas, premido por todas as solicitações cotidianas do lar. Os ricos estão livres disso nas vastas salas de seus palácios, mas os filósofos não são ricos, insiste ela (…) Filosofia não é apenas conhecimento, conhecimento da verdade, mas é sobretudo um modo de vida, de vida virtuosa, religiosa”. (ABELARDO, 1973, p.21). É claro que possivelmente houve outros motivos para que  Heloísa negasse o casamento, mas através do trecho acima exposto, podemos ter uma ideia do que ela pensava a respeito da situação. Entretanto, apesar de sua negação inicial, certa noite acabam casando-se escondidos, na cidade de Paris, diante de poucos conhecidos.

Após a união, o desfecho da história do casal tomou um rumo bastante trágico, marcado por um abominável ato de crueldade. Vejamos pelas palavras do próprio Pedro Abelardo, o que aconteceu: “Certa noite, enquanto eu repousava e dormia num quarto retirado da minha residência, tendo corrompido com dinheiro o meu servidor, puniram-me com a vingança mais cruel e vergonhosa, e de que o mundo tomou conhecimento com o maior espanto, isto é, cortaram aquelas partes do meu corpo com as quais eu havia perpetrado a façanha que eles lamentavam”. (ABELARDO, 1973, p.265). Abelardo foi abordado e castrado.

Depois do acontecido, Abelardo instalou-se no mosteiro de Saint Denis, local em que se tornou padre. Heloísa, por sua vez, passou a viver no convento de Argenteuil. Os dois continuaram se correspondendo através de cartas, cujo conteúdo, inicialmente consistia em declarações e menções amorosas e, posteriormente, passou a abordar variados temas filosóficos. Aliás, no (excelente e recomendado) livro “A Verdade Sobre Abelardo, Heloísa e Astrolábio”, há algumas observações muito interessantes sobre a continuidade das reflexões e práticas filosóficas de Heloísa, que indicam o quanto sua capacidade intelectual realmente estava à frente da tradição e dos limites morais de seu tempo: “Heloísa, questionadora desde que passou a se entender por gente, nunca aceitou a desigualdade e procurou apoiar sempre as mulheres por todas as formas possíveis, tanto teórica, quanto prática”. (MARQUES, 2016, p. 60). O autor ainda destaca que a pensadora não entendia a sexualidade e as práticas sexuais como um pecado, mas sim como algo natural. Além disso, de maneira geral, podemos dizer que sua filosofia foi bastante influenciada por Platão e Aristóteles e ela nutria interesse por práticas e reflexões filosóficas que estivessem voltadas à aquisição da felicidade e da serenidade no cotidiano. Atualmente, os restos mortais do casal se encontram no cemitério Père Lachaise, em Paris (foram levados para o local em 1817).

REFERÊNCIAS:

ABELARDO, Pedro. Histórias das Minhas Calamidades. In: Os Pensadores. Sto. Anselmo e Abelardo. São Paulo: Abril Cultural, 1973.

ESTEVÊVÃO, José C. Abelardo e Heloísa. São Paulo: Paulus, 2015.

MARQUES, Luiz Guilherme. A Verdade Sobre Abelardo, Heloísa e Astrolábio. São Paulo: Letras e Pensamentos,

2016.
http://pressibus.org/gen/heloise/index.html

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