5 FILóSOFOS QUE ACREDITAVAM EM DEUS

By Acervo Filosófico

 Por Juliana Vannucchi e Pedro Bracciali

5 FILóSOFOS QUE ACREDITAVAM EM DEUS

Muitas pessoas, tendem, precipitadamente, a associar a Filosofia diretamente com o Ateísmo. Porém, ao longo da história, um considerável número de pensadores pareceu demonstrar que acreditava em Deus. Durante a Idade Média, a Filosofia praticamente misturou-se com a fé e, portanto, muitos foram os que dedicaram suas obras e reflexões aos problemas relacionados à Deus. Destacam-se, em tal período, filósofos como Sto. Agostinho, Pedro Abelardo, Sto. Tomás de Aquino e outros. Contudo, neste texto, nós buscamos filósofos que não estão inseridos no contexto medieval. 

Immanuel Kant – Em sua obra Crítica da Razão Pura, a divisão Dialética Transcendental ocupa-se em produzir conhecimentos nas questões clássicas da metafísica: sobre a existência de uma alma imortal, sobre o mundo como totalidade absoluta e sobre a existência de Deus. São quatro antinomias em cenário de confronto – combate – método que permite tratar conflitos com argumentos que são contrários entre si, em tese e antítese, para colocá-los em prova e verificar se o que afirmam se mantém verdadeiro: a primeira se ocupa em afirmar que o mundo tem um começo no tempo e é limitado no espaço (tese) ou ele é infinito no tempo e no espaço (antítese); a segunda, que toda a substância composta é constituída por partes simples (tese) ou não existe nada no mundo que seja simples (antítese); a terceira de que há liberdade no homem (tese) ou não há liberdade, mas tudo nele é necessidade natural (antítese); a quarta que existe no mundo um ser absolutamente necessário (tese), ou que nem no mundo, nem fora do mundo, há um ser absolutamente necessário (antítese). Kant adverte para se pôr à parte e deixa-las que entre si resolvam a questão, entretanto, ele parece tomar posição em prol das teses dogmáticas, por seus conteúdos teóricos e pelas consequências práticas; o fato de nos pensarmos livres em nossas ações representa o fundamento da moral e da religião, ao passo que os argumentos do empirismo, que se expressam nas antíteses, não apresentam interesse prático e eliminariam toda a força da moral e da religião. Kant viveu em Königsberg, de 1724 a 1804, é tido como um filósofo cético com relação à religião formal, embora preservasse a crença em Deus.

Soren Kierkgaard – Para este pensador, a vida do homem dividia-se em três estágios, que podem ser compreendidos resumidamente da seguinte forma: o primeiro, o Estético, relaciona-se ao prazer e é sucedido pelo Ético, ligado ao dever. Por fim, há último estágio, o Religioso, que culmina na fé e representa a fase de maior relevância da filosofia de Kierkegaard. Esta dimensão é a final porque é uma conduta que surge justamente quando um indivíduo não dispõe de soluções existenciais nas outras duas vias.

Esta compreensão de mundo cujo auge é a fé, foi resultado da forte influência do Cristianismo que o Kierkgaard recebeu durante a juventude, e que o acompanhou até o final de sua vida e esta interpretação do mundo tornou-o um dos primeiros filósofos existencialistas, ou seja, cujo ponto de partida filosófico era a condição humana. O aspecto ontológico de suas obras  influenciou pensadores como Jean-Paul Sartre, embora este, tenha compreendido o existencialismo sob uma perspectiva ateia, na medida em que o dinamarquês criou uma corrente de existencialismo com fundamentos cristãos. Além da importância de Kierkgaard pela contribuição com o existencialismo, o filósofo, ainda movido por influências religiosas, também foi grande crítico do pensamento de Hegel, e acreditava que o alemão havia falhado em sua tentativa de sistematizar o mundo através da razão, uma vez que esta não é capaz de compreender a emoção humana. Portanto, a influência religiosa na obra de Kierkgaard, é de grande importância, pois além de ter refletido em uma (talvez a primeira) corrente existencialista, também o moveu para uma superação da soberania do racionalismo que até então influenciava seus contemporâneos. Dessa forma, Kierkgaard tornou-se um filósofo cujo valioso legado é essencialmente relacionado à sua interpretação de mundo religiosa.

René Descartes – O método cartesiano não tem a pretensão de estabelecer um novo tipo de conhecimento, mas sinalizar para um conhecimento claro e seguro, fundamentado na razão. Ele argumenta com a passibilidade de suspender tudo o que advém dos sentidos; tudo que existe no mundo, como se não houvesse mais nada para colocar em dúvida a sua realidade; entretanto, é impossível subtrair o pensamento. O fato de pensar, é a prova da existência: “Penso, logo existo”. Estava assim fundamentada a subjetividade. Para ele, o movimento do conhecimento não se realiza a partir do exterior, mas a partir do sujeito como coisa que pensa. Colocando todo o edifício do saber na esfera da consciência, ao se deparar com a ideia inata de Deus, ele teve que dar tratamento de Sua existência, não mais a partir do mundo externo, mas a partir da própria consciência. Descartes concluiu que a realidade de certas ideias estão fora do sujeito, pela impossibilidade de reconhecimento, clareza e por não ser ele mesmo, a causa de tais ideias. Resta-lhe tão-somente conceber a ideia de Deus. Em outro sentido, negar a existência de Deus é considerar-se produto de si mesmo. O princípio de causalidade, tem a existência necessária de Deus, quando aplicada à realidade objetiva da ideia de Deus – pensamento – (3a. Meditação) e, igualmente, quando aplicado à realidade objetiva das ideias sensíveis – matéria – (6a. meditação). René Descartes viveu de 1596 a 1650, a teoria do conhecimento de Descartes teve que recorrer da tradicional metafísica (causalidade), procurando acesso ao conceito de Deus em seu pensamento: um Deus como substância infinita e a realidade do mundo explicável pela existência de duas substâncias finitas, Pensamento, res cogitans, e Matéria, res extensa.

 Voltaire –  O posicionamento de Voltaire em relação à existência de Deus  pode ser encontrado em uma de suas principais obras, intitulada Tratado de Metafísica. Neste referido livro, o filósofo estabelece reflexões sobre diversos objetos e dentre estes vários temas pautados, encontra-se Deus. Há uma tentativa de compreender se ele é real ou não e, para tal, o pensador apresenta pontos a favor e contra esta sua suposta existência. A partir da consideração de tais análises e de observações profundas sobre a natureza, Voltaire, evidentemente inclina-se para um teísmo, embora seja cautelosa fazer qualquer tipo de especulação acerca de Deus. Conforme escreve (1978, p. 67): “Toda a natureza, desde a estrela mais longínqua até um pedacinho de erva, deve estar submetida a um primeiro motor”.

A perspectiva do autor fica mais clara neste seguinte trecho: “Poder encarar a proposição Existe um Deus como a coisa mais verossímil que os homens possam pensar, e após ter visto que a proposição contrária é uma das mais absurdas, parece natural pesquisar qual a relação existente entre Deus e nós (…)”.(1978, p. 68). Partindo deste pressuposto, o filósofo discorda com os atributos divinos oferecidos pela tradição do Cristianismo e pelo Judaísmo, pois, conforme citado acima, não acredita que qualquer um desses atributos possa ser assimilado pelo ser humano. Em  Tratado de Metafísica, ele, inclusive, nega e critica as especulações do homem acerca da moral cristã, pois discorda com essas especulações por não achar possível a moral divina possa ser assimilado pelo homem.

Baruch de Spinoza – a “substância” no vocabulário de Spinoza tem um sentido muito específico: é “o que existe em si e por si é concebido, isto é, aquilo cujo conceito não carece do conceito de outra coisa do qual deva ser formado (Def.III)”. Os “atributos” correspondem o que o intelecto percebe como constituindo a essência da substância Def.IV. Os atributos não são constituídos por si, mas pela substância. São infinitos os atributos cada um dos quais é infinito. Os “modos” são as afecções da substância, quilo que existe em outra coisa, por meio da qual é também concebido Def. V. As coisas e os eventos (do universo) são os “modos”, manifestações dos infinitos atributos da substância. Em decorrências dessas definições, Spinoza conclui: Afora Deus, não existe nem pode conceber-se substância alguma, ou por outras palavras, a substância e Deus são um e o mesmo ser. Não podem existir duas ou mais substâncias com o mesmo atributo e substâncias que nada têm de comum entre si, uma não pode ser causa da outra: há uma só substância absolutamente infinita, pois se houvesse duas, uma seria limitada pela outra. Sendo infinita sua existência e sua potência, o mundo resulta em ser também eterno, ainda que nele as coisas sejam contingentes, ou seja, podem ou não existir e ter ou não, um fim. O mundo é infinito e eterno porque exprime a essência e a potência de Deus.

Longe da imagem divina forjada a semelhança do homem, o Deus de Spinoza não é transcendente ao mundo, não está separado dele: criador e criatura – Deus é imanente ao mundo, Ele está sempre em todas as coisas existentes. Baruch de Spinoza – ou Bento de Espinosa viveu de 1632 a 1677. Era judeu, mas por sua obra foi-lhe proclamado o anátena em 1656: excluído e afastado da nação de Israel; amaldiçoado e esconjurado; os dedicados a Adonai foram advertidos para ninguém poder lhe falar pessoalmente ou por escrito, conceder-lhe favor, nem estar com ele no mesmo teto, nem a certa distância, nem ler Papel algum feito ou escrito por ele.

REFERÊNCIAS

ESPINOSA, Bento de. Ética: Demonstrada à Maneira dos Geómetras (Parte I De Deus). 2. ed. Coimbra: Atlântida, 1960. Tradução, introdução e notas de Joaquim de Carvalho.

DESCARTES. Meditações sobre Filosofia Primeira. 2. ed. Campinas: Editora Unicamp, 2013. 232 p. (Coleção Multilíngues de Filosofia Unicamp). Tradução, notas prévias e revisão Fausto Castilho.

KANT, Immanuel. Crítica da Razão Pura. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2013. 680 p. Tradução Manuela Pinto dos Santos e Alexandre Fradique Morujão. Introdução de Alexandre Fradique Marujão

KIEERKGARD, Soren. Coleção Os Pensadores. Editora: Abril Cultura, 1979.

KIEERKGARD, Soren. O Conceito de Angústia. Editora: Vozes de Bolso, 2011.

VOLTAIRE. Coleção Os Pensadores. Editora: Abril Cultura, 1978.

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 Category: ESPECIAIS FILOSOFEI

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