A ARTE É UMA FORMA DE LINGUAGEM?

By Acervo Filosófico

Por Juliana Vannucchi

A ARTE É UMA FORMA DE LINGUAGEM? Introdução: Este texto pretende analisar e comparar dois elementos: a arte e a linguagem. Seguindo este referido ponto de partida, busca-se compreender reflexivamente se existe algum tipo de relação entre ambos, para que então seja possível concluir se a arte é ou não uma forma de linguagem. A base para este estudo são trechos específicos do livro “O Que é Beleza”, de João-Francisco Duarte Jr, psicólogo formado pela PUC e Mestre em Psicologia Educacional pela Unicamp. 

Arte e Linguagem:

   Uma linguagem é formada por palavras ordenadas que expressam conceitos. Em partes, é através dela que o ser humano atribui sentido e interpreta o mundo ao seu redor, usando-a de maneira articulada para estabelecer comunicação. Por comunicação, entendamos a emissão de uma determinada mensagem para um determinado receptor. Neste contexto, a mensagem precisa ter eficiência para que seja devidamente assimilada sem que haja interferência de ruídos. A partir deste breve esclarecimento, note-se que o que caracteriza essencialmente a linguagem é o fato de que ela “é fundamentalmente conceitual, linear e discursiva” (1991, p. 26).

   A arte, no entanto, não é discursiva e tampouco conceitual. Ela simplesmente “exprime sentidos a nível de sentimentos em suas formas mesmas.” (1991, p.50). Consideremos o seguinte exemplo para que possamos compreender como ocorre o conceito e seu significado na linguagem: pensemos a palavra “casa” cujo significado é moradia. Esta palavra com este mesmo significado possui um termo correspondente na língua inglesa, que é “house”, isto é, tem-se um mesmo objeto convencionado por outra palavra. Porém, em contrapartida, nota-se que a arte não carrega em si elementos que separadamente correspondam a objetos específicos com sentidos próprios: “já no caso da arte há uma convenção em torno de suas formas e elementos. A cor amarela, a linha curva, a nota de um acorde dissonante, por exemplo, não significam nada em si mesmos: não há uma convenção para que tais elementos representem alguma coisa”. (1991, p. 47). 

  Assim, podemos entender que a linguagem “comunica linearmente (um dado após o outro), construindo um discurso” (1991, p.50) enquanto a arte, por sua vez, não é criada para estabelecer comunicação lógica com o intelecto, e sim para interagir com os sentidos, não possuindo assim, nenhum aspecto linguístico. Por mais que, de alguma forma, a razão venha a ser aplicada e/ou relacionada com a experiência artística, primeiramente a obra de arte é captada pelos sentidos e apenas posteriormente pode vir a transfigurar-se em dilemas, compreensões, significados, interpretações, reflexões, postulações findados pela razão.

   Uma proposta reflexiva interessante que pode sustentar a ideia de negação da arte como forma de linguagem, é o fato de que é possível que se tenha uma experiência estética (resumidamente compreendida como interação com um objetivo artístico), sem que se saiba o que está sendo expresso pelo objeto que se apresenta proporcionando tal experiência. Por exemplo: pode-se interagir com uma música de língua estrangeira, sentir-se bem enquanto a escuta, sem que se saiba o significado de sua letra. Da mesma forma, é possível apreciar um quadro qualquer sem que haja consentimento daquilo que um artista, porventura, possa ter tentando expressar de maneira específica, pois conforme citado acima, a obra de arte se dá para os sentidos, para a percepção, e não para o intelecto (ao menos não de maneira imediata).

   Através deste raciocínio, podemos deduzir que se um artista desejasse dizer algo, ele usaria uma forma de linguagem (portanto, conceito discursivo). Ora, se não os usa “é porque está justamente nos mostrando aqui que não pode ser dito, que é inefável. O artista não diz, mostra.” (1991, p.48). Se o que é mostrado numa obra pudesse ser conceituado, usar-se-ia a linguagem que é um meio eficiente de comunicação, porém, se algo é apresentado como obra de arte é justamente porque “não pode ser expresso de nenhuma outra maneira” (1991, p.50). Exemplo disto é a impossibilidade da sinonímia como componente da arte, ou seja, quando escrevo a palavra “CASA” ou “casa” (maiúsculo e minúsculo respectivamente) ou grito ou sussurro tal palavra, não há mudança alguma em seu significado conceitual. Entretanto, por outro lado: “nos domínios da arte, uma pequena alteração em sua forma altera o sentido da obra. Substituir um amarelo por um azul, indo por um fã altera marcantemente a forma da obra e, consequentemente, o seu significado” (1991, p. 49). 

  Dessa forma, investigando e definindo as bases da linguagem e a construção artística, podemos considerar que a arte não é uma forma de linguagem, pois estes campos possuem notáveis diferenças em suas essências. Este é o ponto de vista defendido, justificado e argumentado por João Francisco Durte Jr e também por outros autores e pensadores e, ainda que haja discórdia, é no mínimo uma excelente reflexão filosófica. 

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA:

DUARTE, João-Francisco. O Que é Beleza. Editora Brasiliense, 1991.

 Category: Estética TEMAS

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