A ARTE PRIMITIVA:

By Acervo Filosófico

Por: Rosângela Vig

Desde os primórdios, a Arte tem sido um instrumento para o ser humano demonstrar suas reflexões sobre o mundo e levar a contemporâneos e a períodos posteriores, sua forma de pensar. O anseio de imitar os modelos da natureza, vistos como perfeitos, deram autonomia ao gênio criador que tem proporcionado, ao longo dos tempos, todo o maravilhamento, todo espanto e toda estupefação aos sentidos ante a contemplação do objeto artístico pelas veias do belo ou do sublime.

Se ao espectador cabe se encantar pela Arte, ao criador, fica a incumbência de levar sua ideia adiante, torná-la real e transmitir a essência a outra pessoa. Não era diferente com a Arte primitiva, com resquícios deixados na forma de esculturas, utensílios e outros objetos. Seus autores deixaram mais que simples pinturas em rochas, mas um legado rico e único, com informações a respeito de como viviam nossos ancestrais. No caso da pintura, tema de que se irá tratar aqui, os primeiros registros remontam antes mesmo da escrita, como as pinturas nas cavernas de Chauvet e Lascaux, na França; em Altamira, na Espanha; na região do Saara, África; e na Serra da Capivara, na cidade de Raimundo Nonato, Piauí, no Brasil, entre outras localidades no mundo. A palavra rupestre, dada a esse tipo de Arte vem do Latim, rupes e significa rocha, local dentro de cavernas, onde as pinturas eram feitas.

No Brasil, a Serra da Capivara abriga sítios arqueológicos com pinturas que chegam a datar 10.000 a.C., que correspondeu ao período Neolítico. Muitos dos cenários retratam atividades cotidianas como a caça, a pesca e a convivência dentro dos grupos, como é o exemplo das figuras 1 e 2. Nelas se percebem cenas semelhantes a estratégias de caça, as pessoas segurando armas parecem atacar animais, aqui representados em tamanho maior que os humanos. Outro modelo dessas composições era a geometria, conforme mostra a figura 3. As pessoas são representadas com adereços, algumas vestimentas são pintadas com cor diferente e adornadas com linhas paralelas, que se repetem ao lado da pintura. Nas figuras apresentadas, podem-se notar elementos expressivos nas pessoas, tanto nos movimentos como na relação entre elas. Acreditam-se que as pinturas eram uma forma de comunicação dentro dos grupos, o que revela um cunho coletivo. A simplicidade no estilo e uma preocupação maior com a representação da ideia, do que com a imitação remetem ao conceito da Arte Ingênua, modelo que serviu de inspiração a artistas modernos como Pablo Picasso. A importância dada à representação também pode ser confirmado em objetos como a Vênus de Willendorf, estatueta de 11,1 cm, de 22.000 a.C. A peça tem a aparência nítida de uma mulher, com rosto e braços indefiníveis, com seios, barriga e vulva volumosos, o que pode ser uma mulher prestes a dar à luz. O conceito de beleza feminino talvez estivesse ligado à função mais primitiva da mulher, que era ligado à fertilidade.

O que já se via na pré-história era a tentativa de construir um modelo complexo em detalhes figurativos, embora como um ensaio rudimentar. O homem já fazia Arte por prazer e por satisfação, compunha adereços em seus objetos de uso e retratava suas atividades, o que foi considerado de caráter social, uma vez que não teria praticado se não fosse útil. Em alguns períodos chegou a demonstrar preocupação com simetria em seus utensílios, esculpia estatuetas em marfim, em osso ou em pedra macia. Sobre isso Schiller afirma:

Daí vermos o gosto rude a avançar primeiro ao que é novo e surpreendente, multicor, aventuroso e bizarro, intenso e selvagem, e a fugir mais que tudo da simplicidade e do repouso. Cria figuras grotescas, aprecia as passagens bruscas, as formas opulentas, os contrastes gigantes, as luzes ofuscantes, o canto patético. Neste período só é belo para ele o que o excita, o que lhe dá matéria – o que excita com vistas à resistência espontânea, o que dá matéria a uma criação possível, pois não fosse assim não pareceria belo nem mesmo a ele. Com a forma de seus juízos ocorreu, portanto, uma notável modificação; ele não procura os objetos para que o afetem, mas para que lhe deem sobre o que agir; não aprazem por satisfazer uma carência, mas porque respondem a uma lei que, embora ainda em sussurro, fala já em seu coração. (SCHILLER, 2002, p.138)

            Essa busca por um ideal de perfeição foi adquirindo diferentes feições e conceitos desde a pré-história e em cada período a beleza foi redesenhada de modo peculiar, representando os pensamentos e os valores que foram se construindo na cultura humana. Os sentimentos gerados na percepção estética são produtores das sensações agradáveis que levam à razão e à liberdade, numa ideia de belo desvinculada da representação detalhista da realidade, mas ligada a um contentamento que gera no indivíduo quando ele se sente diante de sua criação. É excitante sua produção, ainda que as figuras apresentem traços grotescos, distanciando-se dos modelos que tomou como base no mundo que o cerca. Nesse aspecto, não se percebe apenas a interpretação da realidade, mas também uma tentativa de criar, de reproduzir, de entalhar e acima de tudo, de construir algo, com um objetivo, mesmo implícito, de se chegar a um modelo de perfeição.

            Mais do que se ter objetos sobre os quais agir ou de buscar representar uma ideia, o maior valor que se atribui à Arte é a possibilidade de levar adiante pensamentos e parte de uma história que jamais poderá ser recontada, como é o caso da Arte Primitiva. E o estético ainda caminha ao lado do ético, conforme afirma Schiller, pois o ajuizamento de belo é capaz de suscitar sensibilidade no indivíduo, proporciona-lhe a sensação de plenitude e de harmonia, abranda seu ser e traz à tona, sua natureza ética.

Fig. 1 – Tradição Nordeste – Sítio Arqueológico Toca da Entrada do Piauí

Fig. 2 – Toca da Subida da Serrinha I – Caçada da Onça

Fig. 3 – Toca do Salitre

REFERÊNCIAS:

Arte Primitiva. A Vênus de Willendorf. Viena: Museu de História Natural. (www.nhm-wien.ac.at).

Arte Rupestre. Fundação Museu do Homem Americano. Brasil, Piauí. (http://www.fumdham.org.br/pinturas.asp).

HAUSER, Arnold. História Social da Arte e da Literatura. Martins Fontes, São Paulo, 2003.

SCHILLER, Friedrich Von. A Educação Estética do homem. 4a. edição. S.Paulo: Ed. Iluminuras, 2002.

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