A CATEGORIA DO EU EM KIERKEGAARD:

By Acervo Filosófico

Por: Juliana Vannucchi

“Um homem singular não tem, certamente, uma existência conceitual”.

O existencialismo é uma corrente filosófica que popularizou-se intensamente ao longo do século XX, tendo como principal fonte de inspiração, as obras de Jean-Paul Sartre, Albert Camus e Martin Heidegger. Entretanto, em meados do século XIX, o pensador dinamarquês Søren Kierkegaard registrou em seus livros as linhas que hoje são consideradas as raízes existencialistas, cujo elemento central é o ser humano e os reflexos e de existência, tal como sua situação no mundo, suas escolhas determinadas por pelo estado de liberdade e sua carga emotiva. Assim, devido aos traços de sua filosofia, Kierkegaard costuma ser considerado o “pai do existencialismo”.

(…) para Kierkegaard, cada indivíduo carrega em si uma série de particularidades que impedem que ele seja descrito através de sistemas ou inserido em categorizações genéricas e universais (…)

Um dos principais aspectos do pensamento do filósofo dinamarquês, é a questão do indivíduo, que é compreendido enquanto sujeito particular, dotado de subjetividade. Essa circunstância subjetiva que envolve o ser humano, levou Kierkegaard a contrapor-se a Hegel, que era um dos maiores pensadores de seu tempo – se não, o maior. Vejamos uma frase escrita pelo dinamarquês que nos ajudará a entender o que causa a oposição entre esses dois grandes filósofos citados: “Um homem singular não tem, certamente, uma existência conceitual”. Isso significa que, para Kierkegaard, cada indivíduo carrega em si uma série de particularidades que impedem que ele seja descrito através de sistemas ou inserido em categorizações genéricas e universais, enquanto que, para Hegel, a razão impera e é capaz de universalizar as coisas, de agrupá-las em conceitos e, dessa forma, de explicá-las. Nesse sentido, as filosofias desses dois pensadores se opõe e tomam rumos notavelmente distintos. Kierkegaard criticou duramente a filosofia de seu opositor: “(…) Combateu a filosofia hegeliana como um sistema que esvazia a existência humana de todo caráter concreto, dissolvendo-a em outros conceitos racionais”. (1979, p.10).

Para Kierkegaard, portanto, a “Categoria do Eu” consiste justamente no emaranhado de aspectos que compõe as particularidades de um ser humano, no qual se encontram suas emoções, sentimentos, paixões, desejos, memórias, medos e, enfim, tudo aquilo que compõe o seu eu. Essa interioridade não pode, de maneira alguma, ser reduzida em fórmulas genéricas e tampouco ser traduzida numa linguagem lógica ou explicativa que tenha como intenção justificar uma consciência subjetiva e transformar o individual em conceitual; o particular no geral; o igual no desigual. O homem, segundo nosso filósofo, em sua mais profunda intimidade é espírito e, por espírito, entenda-se o “eu”. Justamente por isso, toda vida projeta-se especialmente em no interior, dentro de si, e não fora de si. Não há predeterminações, pois não há nada previamente constituído, pelo contrário, há uma consciência que irá consistir algo. Nesse contexto, no qual percebemos os indícios de seu existencialismo, Kierkegaard considera que a realização de si próprio, isto é, a conquista e afirmação da autonomia da consciência particular, que é a essência do ser humano, é justamente o caminho que tende a livrá-lo de sua inevitável condição de desespero. A individualidade, irá se formar a partir das decisões de um indivíduo e das consequências que tais escolhas acarretam.

A interioridade, portanto, entenda-se, é a verdade, pois ela é a unicidade e apenas ela é plena. Por isso, escreveu o filósofo: “A verdade é subjetividade”, o que significa que o singular está sempre em confronto e oposição com o público e com o genérico e está, no fundo, escapando a eles: “O indivíduo kierkgaardiano, em tese, é o único, o singular que sente a vida pulsar em si, durante seu existir (p.439, 2011).

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

ARAÚJO, Fabiola Menezes. Revista Estudos Filosóficos, número 2, UFSJ – São João del-Rei, MG, 2009..

CAES, Valdinei. A Concepção de Indivíduo Segundo Kierkgaard. Seminário de Pós-graduação em Filosofia da UFSCAR, 2011.

KIERKEGAARD, Søren. In: Coleção “Os Pensadores”. Editora: Abril Cultural, 1979.

 

 

Related articles

Leave a Reply