A FILOSOFIA DE SÓCRATES:

By Acervo Filosófico

Por: Juliana Vannucchi e Pedro Bracciali

Sócrates nasceu no subúrbio de Alopeke, em Atenas, por volta de 470-469 a.C, e tornou-se um dos principais pensadores da história da Filosofia ocidental. Sua mãe era uma notável e conhecida parteira e seu pai era escultor. O filósofo não deixou nenhum legado escrito, e o que se sabe a seu respeito, baseia-se principalmente nos registros feitos por Platão, Xenofonte e Aristófanes. 

Aos setenta anos, foi acusado de corromper a juventude ateniense e desrespeitar os deuses locais. Como consequência, foi processado, julgado e condenado à morte. Os últimos momentos de sua vida são narrados por Platão, num diálogo intitulado Fédon, cujo final, possui as seguintes palavras: “Assim, morreu nosso amigo; o melhor, mais sábio e mais justo dentre todos os homens que conhecemos“. 

Sócrates foi uma figura interessante cujo comportamento era bastante peculiar. Desde menino, por exemplo,  afirmava escutar vozes. Além disso, conta-se que no inverno costumava caminhar descalço pela neve, tal como conta-se que, no verão, passava horas debaixo do calor intenso do Mediterrâneo. Algumas fontes (como O Banquete, de Platão), narram episódios em que Sócrates passava horas e horas imóvel, com o olhar fixo em algum ponto do horizonte, fazendo reflexões. Aliás, de acordo esse referido texto platônico, ele teria passado 24 horas paralisado. 

Daimon

A palavra “daímôn” é de difícil entendimento devido às sobreposições de significados que ela recebeu ao longo do tempo na tradição da antiga Grécia. Na mitologia, pela narrativa do poeta Hesíodo (750 e 650 a.C.) os daímones foram homens nobres pertencentes a uma “geração de ouro” que, por determinação de Zeus, foram transformados em seres imortais e prudentes guardiões, com a incumbência de vigiar as decisões e ações dos homens mortais.

Entre os pensadores gregos do período pré-socrático, o daímôn é uma referência do intelecto sem correspondência a um ente ou algo que exista concretamente, entretanto, o imaginário popular encarregou-se de atribuir-lhe uma realidade própria, aos quais cultuavam e ofereciam oferendas. Na esfera da explicação racional, os filósofos gregos pensavam o daímôn relacionado à prudência (phrónesis), atuando no momento de se fazer um juízo e auxiliando o homem na árdua tarefa das decisões.

Não obstante os diversos significados aplicados à palavra daímôn, ele carrega sempre o sentido de algo externo que dispõem a conduta humana (éthos), mas não necessariamente a determina; seria uma disposição interior recebida dos Deuses por intermédio de um daímôn. Através de Platão nos relatos sobre o julgamento de Sócrates, essa concepção está em conformidade com o que ele confessa a respeito de uma inspiração que lhe vem de um Deus ou de um gênio, uma voz desde a infância que se produz e, quando se faz ouvir, sempre o desvia do que intenciona fazer, mas nunca o obrigando.

Nos diálogos de Platão denominado Teeteto, Sócrates dirá que ele é filho da mais famosa e hábil parteira, e que também ele pratica essa arte, diferindo que, não só no fato de serem homens a dar à luz, mas também no de tomar conta das almas e não dos corpos dos que estão a parir. A divindade (alusão aos daímones) me incita a partejar os outros, porém me impede de conceber. Como se sabe, nenhuma parteira ajuda no parto enquanto ela própria ainda puder engravidar, pois isso é o que justamente a minha arte partilha com a das parteiras: sou incapaz de produzir saberes.

O mais provável é que nenhum de nós saiba coisa alguma; mas alguns pensam saber, enquanto eu tenho consciência de que nada sei (…).

Conforme já mencionamos no início do vídeo, desde a infância, Sócrates afirmava que escutava uma voz misteriosa, que seria seu daímôn pessoal. Para o pensador grego, a filosofia era uma missão que lhe fora transmitida por essas vozes interiores, e seus próprios atos costumavam ser realizados conforme conselhos, orientações e inspirações desta suposta entidade que se comunicava com ele. Esse daímôn não dava nenhuma ordem para Sócrates, apenas o aconselhava em determinadas ocasiões. Certa vez, inclusive, esse misterioso gênio pessoal teria dito ao filósofo algo curioso: “não ouse se meter em política“.

Posteriormente, e até os dias de hoje, muitos autores, pensadores e historiadores discutem sobre o fato, e dividem opiniões em relação ao daímôn socrático. Para se ter uma ideia, alguns padres da Igreja, tal como Cipriano e Tertuliano, consideraram que o daímôn socrático era uma figura satânica. Por outro lado, pensadores como São Justino e Santo Agostinho, acreditavam que o filósofo grego se comunicava com uma espécie de ser angelical.

Além disso, há quem pense que Sócrates possuía alguma patologia e que essas vozes, portanto, provinham de estados psicológicos. Outros ainda acreditam que as vozes eram inventadas. Enfim, este fato se tornou mais um enigma acerca da vida do filósofo.

Só sei que nada sei“: 

Certa vez, Querefonte, grande amigo se Sócrates foi fazer uma consulta num oráculo que se situava no Templo de Apolo, em Delfos. Na Grécia Antiga, essa atividade era muito habitual e funcionava da seguinte maneira: “No interior do santuário, uma sacerdotisa – que respondia pelo título de Pitonisa – recebia os fiéis no sétimo dia de cada mês (…) Acredita-se que a sacerdotisa encarnasse o deus Apolo (…)”. (BOTELHO, 2015, p. 60). 

Querefonte, na ocasião, apenas por brincadeira, perguntou: “Ó, Apolo, quem no mundo é mais sábio que meu amigo Sócrates?”. A resposta foi simples: “Ninguém é mais sábio do que Sócrates”. Quando o próprio Sócrates soube desse fato, ficou bastante intrigado, pois ele sempre dizia que nada sabia. Mas certa vez, conforme é contato na Apologia (escrita por Platão), o pensador finalmente compreendeu a razão pela qual ele seria o homem mais sábio. Neste texto, inconformado com a resposta dada pelo oráculo e visando compreender tal situação, Sócrates decidiu conversar com um político que todos consideravam que era profundamente sábio. Mas após estabelecer um diálogo com o referido cavalheiro, percebeu que o sujeito não possuía nenhuma sabedoria. Vejamos um trecho da obra Apologia no qual, após o encontro, Sócrates finalmente entende o que o oráculo disse: “(…) Então, fui embora; mas levei comigo essa reflexão: por mais ignorante que eu seja, ao menos, sou mais sábio do que esse homem. O mais provável é que nenhum de nós saiba coisa alguma; mas alguns pensam saber, enquanto eu tenho consciência de que nada sei (…).  Dessa forma, Sócrates concluiu que o reconhecimento da ignorância é o primeiro passo para a aquisição da sabedoria. A partir de então,  se propôs a tentar despertar a mente de outras pessoas, tentando fazer com elas se conscientizassem de suas ignorâncias. 

Método Socrático e Maiêutica:

Sócrates costumava caminhar pelas ruas e praças públicas de Atenas, abordando pessoas diferentes, e fazendo a elas uma série de perguntas. Essas indagações visavam conduzir os interlocutores ao reconhecimento de suas ignorâncias, através de uma desconstrução das opiniões que as pessoas acreditavam erroneamente que eram fatos verdadeiros. Assim, com os questionamentos em série feitos por Sócrates, os interlocutores podiam repensar seus valores e ideias, e procurar arquitetar um conhecimento novo, sólido, justificado, verdadeiro e conceitual, diferenciado da mera e falsa opinião que antes nutriam. Este tipo de diálogo era desenvolvido dialeticamente, isto é, através de uma contradição de ideias que era discutidas para que se chegasse a uma verdade concreta. A dialética foi, portanto, um instrumento filosófico utilizado por Sócrates.

Geralmente, Sócrates iniciava tais diálogos fazendo perguntas simples em torno de temáticas comuns, como, por exemplo, “o que é o amor?”, “o que é o medo”, “o que é educação”, etc. Então, analisava detalhadamente cada resposta que recebia, para em seguida esmiuçá-las formulando novas refutações em cima dos conceitos e palavras que os interlocutores empregavam em suas respostas. Esse procedimento mostrava (e certamente ainda é capaz de mostrar), que muitas vezes as pessoas não sabem ao certo sobre o que ou que estão falando. Por isso, habitualmente, nossos posicionamentos, ideias e certezas, devem ser analisados, repensados e colocados em dúvida. Um fato curioso é que Sócrates nem sempre possuía respostas para as perguntas que fazia. Conforme Botelho (2015, p.63) menciona, o filósofo “partia do princípio de que a verdade absoluta não é monopólio de nenhum dos interlocutores; mas, contrapondo-se as aparentes verdades individuais, podia-se abrir caminho para uma visão mais clara e sólida das coisas”. 

A Maiêutica consiste em um “parto de ideias”, ou seja, depois que o interlocutor passava pelo processo de perceber a demolição daquilo que antes considerava como uma certeza, ele poderia através da reflexão, conhecer e edificar novos pensamentos, novas perspectivas e novas compreensões. Essa técnica socrática parece ter sido inspirada na profissão da mãe filósofo que, conforme citado no início deste texto, era parteira.  As verdades já estariam na alma (razão) das pessoas, mas seria através do método socrático que elas poderiam “nascer”.

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INDICAÇÃO COMPLEMENTAR:

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA:

BOTELHO, José. A Odisséia da Filosofia. São Paulo: Abril, 2015.

XENOFONTES, Apologia de Sócrates. In: Os Pensadores – Sócrates. Editora: Abril Cultural, 1972.

 

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