A FILOSOFIA DE SÓCRATES:

By Acervo Filosófico

Por: Juliana Vannucchi (colaboração de Pedro Bracciali)

Aspectos biográficos:

Sócrates é uma das figuras mais célebres e conhecidas da nossa história. Foi um dos mais notáveis pensadores já existentes e seu legado filosófico permanece sendo amplamente pesquisado, estudado e debatido nos quatro cantos do mundo, além de ter exercido grande influência na construção da cultura ocidental.

Nasceu na cidade de Atenas, em 479 a.C. Sua mãe chamava-se Fenareta e era parteira. Seu pai se chamava Sofrônico e trabalhava como escultor. Pelo que sabemos, era um homem baixo, desengonçado, com olhos esbugalhados e nariz achatado. Apesar de ser pouco atraente, foi casado (segundo Diógenes Laércio, duas vezes) e teve três filhos. Conta-se que sua mulher, Xantipa, com a qual teve um filho chamado Lâmprocles, era uma pessoa rabugenta.

Não registrou sua filosofia e não fundou nenhuma escola. O que hoje se sabe a seu respeito é o que foi transmitido por alguns testemunhos de sua época, dentre os quais três são as principais fontes, que o teriam conhecido pessoalmente: Platão, Aristófanes e Xenofonte. No entanto, a abordagem por eles feita a respeito de Sócrates diverge em alguns pontos e isso gera um certo problema na construção histórica de sua figura. Segundo Cury: “Durante muito tempo, e até hoje, os historiadores da filosofia se perguntam qual seria o verdadeiro Sócrates ou, ao menos, qual seria aquele mais próximo do Sócrates histórico. Muitos consideram Sócrates um enigma insolúvel e sustentam que jamais o conheceremos”. (2006, p.15).

Sócrates vivia na pobreza e não se importava nem com sua aparência e nem com bens materiais. Conforme citação de Xenofonte: “Não possui escravos, seus alimentos e suas bebidas não são requintados, suas vestes se resumem a um manto grosseiro tanto no verão como no inverno, não possui calçados ou túnica” (2006, p.18). Houve um período de sua vida em que tentou seguir o mesmo caminho profissional de seu pai, mas não prosperou como escultor. Durante a juventude, chegou a prestar serviço militar e atuou na Guerra do Peloponeso, que foi um conflito entre as cidades de Atenas e Esparta, ocorrido de 431 a 404 a.C.. Nesse feito, obteve bastante destaque e reconhecimento por seu heroísmo. Mas como hoje sabemos, seu destino era outro: a filosofia.

Verdadeiro vencedor é aquele que durante toda a vida não cessou de praticar ações úteis ou corretas”. – Sócrates.

Além dos aspectos biográficos citados acima, é preciso dizer que Sócrates foi uma figura interessante e cujo comportamento era bastante peculiar. Desde menino, por exemplo, afirmava escutar uma voz em sua cabeça. Essa voz seria seu daímôn, que não lhe dava nenhuma ordem, mas o aconselhava em determinadas ocasiões. Certa vez, inclusive, esse misterioso gênio pessoal teria dito ao filósofo algo curioso: “Não ouse se meter em política”. É importante ressaltar que a palavra “daímôn” é de difícil entendimento devido às sobreposições de significados que ela recebeu ao longo do tempo na tradição da antiga Grécia. Na mitologia, pela narrativa do poeta Hesíodo (750 e 650 a.C.), os daímones foram homens nobres pertencentes a uma “geração de ouro” que, por determinação de Zeus, foram transformados em seres imortais e prudentes guardiões, com a incumbência de vigiar as decisões e ações dos homens mortais. Entre os pensadores gregos do período pré-socrático, o daímôn é uma referência do intelecto sem correspondência a um ente ou algo que exista concretamente, entretanto, o imaginário popular encarregou-se de atribuir-lhe uma realidade própria, aos quais cultuavam e ofereciam oferendas. Na esfera da explicação racional, os filósofos gregos pensavam o daímôn relacionado à prudência (phrónesis), atuando no momento de se fazer um juízo e auxiliando o homem na árdua tarefa das decisões.

Não obstante os diversos significados aplicados à palavra daímôn, ele carrega sempre o sentido de algo externo que dispõe a conduta humana (éthos), mas não necessariamente a determina; seria uma disposição interior recebida dos Deuses por intermédio de um daímôn. Através de Platão, nos relatos sobre o julgamento de Sócrates, essa concepção está em conformidade com o que ele confessa a respeito de uma inspiração que lhe vem de um Deus ou de um gênio, uma voz desde a infância que se produz e, quando se faz ouvir, sempre o desvia do que intenciona fazer, mas nunca o obrigando.

Nos diálogos de Platão denominado Teeteto, Sócrates dirá que ele é filho da mais famosa e hábil parteira, e que também ele pratica essa arte, diferindo que, não só no fato de serem homens a dar à luz, mas também no de tomar conta das almas e não dos corpos dos que estão a parir. A divindade (alusão aos daímones) me incita a partejar os outros, porém me impede de conceber. Como se sabe, nenhuma parteira ajuda no parto enquanto ela própria ainda puder engravidar, pois isso é o que justamente a minha arte partilha com a das parteiras: sou incapaz de produzir saberes.

Além dessa voz que Sócrates escutava, há outras excentricidades a seu respeito: conta-se também que no inverno costumava caminhar descalço pela neve e, no verão, era capaz de passar horas debaixo do calor intenso do Mediterrâneo. Algumas fontes (como “O Banquete”, de Platão) narram episódios em que ele passava horas e horas imóvel, com o olhar fixo em algum ponto do horizonte, fazendo reflexões. Aliás, de acordo esse referido texto platônico, ele teria passado 24 horas em tal estado. A respeito desses aspectos de sua figura, Russell, na obra “História da Filosofia Ocidental”, escreve: “Sócrates sofria de crises de distração. De repente se interrompia e permanecia perdido nos seus pensamentos, às vezes durante horas. Ao mesmo tempo, era fisicamente rijo. Dos seus tempos de serviço militar, sabia-se que enfrentava bem o calor e o frio e podia passar mais tempo do que qualquer outra pessoa sem comer nem beber. Também sabemos que era corajoso nas batalhas. Correndo grande risco, certa vez salvou a vida do seu amigo, que, ferido, caíra ao chão; na guerra e na paz, Sócrates era um homem destemido e assim permaneceu na hora da morte (…). Possuía surpreendente controle de seu corpo. Raramente tomava vinho, mas, quando havia ocasião, bebia até deixar os amigos estendido sobre a mesa, sem que ele se embriagasse”. (2017, p. 65-66).

Aos setenta anos, foi acusado de corromper a juventude ateniense, introduzir novas divindades e desrespeitar os deuses locais. Russell diz que, na realidade, essa acusação possuía um fundo político, pois o filósofo tinha amigos pertencentes à aristocracia. Como consequência, foi processado, julgado e condenado à morte. No diálogo “Defesa de Sócrates”, o filósofo acusado mostra que se sente injustiçado e deixa clara a sua discórdia diante da condenação sofrida. Xenofonte, que também retratou o processo de condenação e morte de Sócrates, ressalta em seu registro o quanto o filósofo ateniense se sentiu injustiçado. Mas tanto Xenofonte quanto Platão mencionam a admirável tranquilidade de Sócrates diante da morte. Xenofonte, aliás, cita uma frase interessante e muito profunda que teria sido proferida por Sócrates quando este percebeu que algumas pessoas ali presentes choravam por sua sentença. “Que é isso! Agora é que achais de chorar? Não sabeis há muito que no instante mesmo de meu nascimento pronunciara a natureza a sentença de minha morte?”. (XENOFONTE, 1972, p. 172).

Os últimos momentos de sua vida são narrados por Platão, num diálogo intitulado Fédon, cujo final, marcado pela morte de Sócrates, possui as seguintes palavras: “Assim, morreu nosso amigo; o melhor, mais sábio e mais justo dentre todos os homens que conhecemos”.

Só sei que nada sei”:

Certa vez, Querefonte, grande amigo se Sócrates, foi fazer uma consulta num oráculo que se situava no Templo de Apolo, em Delfos. Na Grécia Antiga, essa atividade era muito habitual e funcionava da seguinte maneira: “No interior do santuário, uma sacerdotisa – que respondia pelo título de Pitonisa – recebia os fiéis no sétimo dia de cada mês (…) Acredita-se que a sacerdotisa encarnasse o deus Apolo (…)”. (BOTELHO, 2015, p. 60). Querefonte, na ocasião, perguntou: “Ó, Apolo, quem no mundo é mais sábio que meu amigo Sócrates?”. A resposta foi simples: “Ninguém é mais sábio do que Sócrates”. Quando o próprio Sócrates soube desse fato, ficou bastante intrigado, pois ele sempre dizia que nada sabia. Conforme cita Platão, ele se questionava: “Que quererá dizer o deus? E que sentido oculto pôs na resposta? Eu cá não tenho consciência de ser nem muito sábio nem pouco; que quererá ele, então, significar declarando-me o mais sábio?”. (PLATÃO, 1972, p. 14).

De acordo com o que é contado na Apologia (escrita por Platão), o pensador, certa vez, finalmente compreendeu o motivo pelo qual ele seria o homem mais sábio. Inconformado com a resposta dada pelo oráculo e visando compreender tal situação, Sócrates decidiu conversar com um político que todos consideravam que era profundamente sábio. Mas após estabelecer um diálogo com o referido cavalheiro, percebeu que o sujeito não possuía nenhuma sabedoria. Vejamos um trecho da obra Apologia, no qual percebemos que, após o encontro, Sócrates finalmente entende o significado do que o oráculo lhe disse: “(…) Então, fui embora; mas levei comigo essa reflexão: por mais ignorante que eu seja, ao menos, sou mais sábio do que esse homem. O mais provável é que nenhum de nós saiba coisa alguma; mas alguns pensam saber, enquanto eu tenho consciência de que nada sei (…).  Dessa forma, Sócrates concluiu que o reconhecimento da ignorância é o primeiro passo para a aquisição da sabedoria. Posteriormente, Sócrates consultou também outros políticos, além de conversar com poetas e artesãos que eram considerados sábios. Contudo, o contato com essas pessoas o levou a mesma conclusão que tivera com o primeiro homem com quem dialogou: a de que eles nada sabiam, embora pensassem saber algo. A partir de então, se propôs a tentar despertar a mente de outras pessoas, tentando fazer com elas se conscientizassem de suas ignorâncias.

O Método Socrático:

O mais provável é que nenhum de nós saiba coisa alguma; mas alguns pensam saber, enquanto eu tenho consciência de que nada sei (…)”. – Sócrates.

Foi após Sócrates compreender a mensagem do oráculo que surgiu o “método socrático”, que consistia num processo investigativo pelo qual o filósofo, caminhando em locais públicos como ginásios, praças e banquetes, dialogava com determinados indivíduos, fossem eles ricos ou pobres, jovens ou idosos, e lhes fazia uma série de perguntas a respeito de assuntos que, muitas vezes pareciam simples e certos para esses interlocutores, mas que logo acabavam sendo vistos por eles como incertos. Essas perguntas feitas pelo filósofo visavam conduzir tais interlocutores ao reconhecimento de suas ignorâncias – lembrando que esse seria o primeiro passo para a sabedoria. Assim, com os questionamentos em série feitos por Sócrates, os interlocutores podiam repensar seus valores e ideias, e procurar arquitetar um conhecimento novo, sólido, justificado, verdadeiro e conceitual, diferenciado da mera e falsa opinião que antes nutriam. Este tipo de diálogo era desenvolvido dialeticamente, isto é, através de uma contradição de ideias que eram discutidas para que se chegasse a uma verdade concreta. A dialética foi, portanto, um instrumento filosófico utilizado por Sócrates.

O filósofo ateniense iniciava esses diálogos fazendo perguntas simples em torno de temáticas comuns e sobre as quais as pessoas achavam que tinham conhecimento, como, por exemplo, “o que é o amor”, “o que é o medo”, “o que é educação”, etc. Essa etapa inicial do método socrático é chamada de “ironia”. Sócrates, então, analisava detalhadamente as palavras e conceitos fornecidos nas respostas que recebia, evidenciava seus problemas, contradições e equívocos e as refutava. Novas respostas eram obtidas, e ele, então, refutava mais uma vez. Isso se repetia até que a pessoa interrogada percebia que não sabia ao certo sobre o que estava falando e via que sua “certeza” era, na realidade, uma falsa opinião. Através dessa série de perguntas, além de reconhecerem suas ignorâncias, as pessoas tendiam também a deixar de ser arrogantes. Um fato curioso é que Sócrates nem sempre possuía respostas para as perguntas que fazia. Conforme Botelho (2015, p.63) menciona, o filósofo:  “partia do princípio de que a verdade absoluta não é monopólio de nenhum dos interlocutores; mas, contrapondo-se as aparentes verdades individuais, podia-se abrir caminho para uma visão mais clara e sólida das coisas”. Isso nos faz pensar o quanto nossos próprios posicionamentos, ideias e certezas devem ser analisados, repensados e colocados em dúvida. E, claro, nos mostra o valor da discussão e da reflexão.

Após a primeira etapa do método socrático (a ironia), que surge a Maiêutica, isto é, o “parto de ideias”.  Depois que o interlocutor passava pelo processo de demolir aquilo que antes considerava como uma certeza e conscientizava-se de sua ignorância, ele poderia, através da reflexão, conhecer e edificar novos pensamentos, novas perspectivas e novas compreensões. Por isso Sócrates dizia que ajuda as pessoas a “darem à luz”, pois conduzia as pessoas na busca das verdades, que já estariam na alma (razão), mas seria através do método socrático que elas poderiam “nascer”. É importante frisar que, conforme citado por Xenofonte, Sócrates jamais recebeu nenhum tipo de pagamento por seus ensinamentos, diferentemente do que faziam os sofistas.

A Virtude (areté):

Outro ponto interessante de sua filosofia é a questão da virtude que era o mais valioso de todos os bens: Sócrates dizia que o homem que possuía conhecimento era consequentemente virtuoso e não era capaz de praticar o mal, sendo que o mal, portanto, seria causado justamente por pessoas ignorantes que desconhecessem o que é o bem e por isso, haveria uma relação entre a moral e o conhecimento. Em outras palavras: sabendo o que é o bem, não haveria razões para praticar o mal. Aquela que erra e que peca, carece de sabedoria. Além disso, o indivíduo virtuoso também era feliz, pois a felicidade se relacionava com o estado interior.

Hoje, sabemos que Sócrates foi um dos maiores filósofos que já existiram. A maioria dos escritores que o citam, o retratam como um sujeito dotado de grande sabedoria. Sua herança filosófica é muito valiosa e influenciou vários outros pensadores que o sucederam. Sócrates, dentre outras coisas, nos ensina a analisar melhor nossos pensamentos e ter uma perspectiva mais crítica da realidade que nos cerca. Ao estudarmos esse renomado filósofo, tendemos a perceber o quanto é importante mantermos sempre uma postura crítica diante do mundo e o quanto a humildade é preciosa em nossa jornada pela busca do conhecimento.

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA:

BOTELHO, José. A Odisséia da Filosofia. São Paulo: Abril, 2015.

CURY, Fenanda. Sócrates. Editora: 4D, 2006.

GARVEY, James, STANGROOM, Jeremy. A História da Filosofia. São Paulo: Editora Octavo, 2013. Tradução de Cristina Cupertino.

PLATÃO. Defesa de Sócrates. In: Os Pensadores – Sócrates. Editora: Abril Cultural, 1972.

PLATÃO. Fédon. Editora: Edipro, 2012.

PLATÃO. O Banquete: http://www.educ.fc.ul.pt/docentes/opombo/hfe/protagoras2/links/O_banquete.pdf

RUSSELL, Bertrand. História do Pensamento Ocidental. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2017.

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