A NÁUSEA – JEAN-PAUL SARTRE:

By Acervo Filosófico

Por Pedro Bracciali

img_4837-2

A NÁUSEA – JEAN-PAUL SARTRE: Sábado, uns garotos estavam a atirar pedrinhas ao mar para as fazer saltar de ricochete, e pretendi atirar uma como eles. Nesse momento detive-me, deixei cair a pedra e fui-me embora. … Havia qualquer coisa que vi e que me repugnou, mas já não sei se estava a olhar para o mar ou para a pedra. A pedra era chata; dum lado estava inteiramente seca, húmida e enlodada do outro. Tinha-a agarrado pelas beiras, com os dedos muito afastados, para não me sujar.

Anteontem, foi muito mais complicado. E tinha havido também uma série de coincidências, de equívocos, que não consigo explicar. …

Aconteceu-me qualquer coisa; já não posso duvidar. Qualquer coisa que veio à maneira duma doença, não como uma vulgar certeza, não como uma evidência; que se instalou sorrateiramente, pouco a pouco. A dada altura senti-me um tanto esquisito, algo incomodado, mais nada. Tomado o seu lugar, essa coisa não mexeu mais, ficou como estava, e pude assim convencer-me de que não tinha nada, que tinha sido um rebate falso. Mas eis que o mal começa a propagar-se. …

Cinco e meia. Isto está mau, muito mau: cá está ela, a porcaria da Náusea. E, desta vez, é diferente: deu-me num café. Os cafés eram até aqui o meu único refúgio, porque estão sempre cheios de gente e bem iluminados: já nem isso me resta; quando estiver encurralado no meu quarto, já não terei para onde ir. … deixei-me cair no assento, nem sequer já sabia onde estava; via as cores girarem lentamente à minha volta, tinha vontade de vomitar. E aqui está: desde então que a Náusea não me deixa; a Náusea apossou-se de mim. Paguei. Madeleine levou-me o pires. O meu copo esmaga contra o mármore uma poça de cerveja amarela, onde flutua uma bolha. O assento está desencaixado, no sítio em que me sentei, e sou obrigado, para não escorregar, a fincar as solas dos sapatos no chão, com força. …

[Cigarros: apenas captura do tempo. Momentos vividos, gastos, caídos, largados. Tempo do decidir. Ainda uma espera / mas prontidão. Partida? Parte-se!]

A Náusea não está dentro de mim: sinto-a além, na parede, … em toda a parte à minha volta. Constitui um todo com o café; sou eu que estou dentro dela.

«Madeleine, ponha-me música no gramofone, faça favor. Aquela de que eu gosto, lembra-se? O Some of these days.» …

Madeleine dá à manivela do gramofone… mais uns segundos, … começará a cantar. Parece-me isso inevitável, tão forte é a necessidade desta música: nada pode interrompê-la, nada deste tempo em que o mundo se afundou; a música cessará por si própria, no momento preciso. … no curto silêncio que segue sinto intensamente uma mudança, sinto que alguma coisa aconteceu.

Silêncio.

Some of these days

You’ll miss me honey.

O que acaba de suceder é que a Náusea desapareceu. Quando a voz se levantou, no silêncio, senti o meu corpo contrair-se, e a Náusea dissipou-se…

Texto na tradução de A.C.Martins. Inserções ao texto, [marcadas entre Colchete]

 Category: FILOSOFEI

Related articles

Leave a Reply