A POSSIBILIDADE DO DISCURSO FALSO NO 237A DO SOFISTA DE PLATÃO:

By Acervo Filosófico

Por Pedro Bracciali

A POSSIBILIDADE DO DISCURSO FALSO NO 237A DO SOFISTA DE PLATÃO:

O Sofista é um diálogo de Platão cujo tema central é a problemática do Não-ser, e em que há um esforço de superação da afirmativa de Parmênides de que o Não-ser é impensável e indizível. A obra é situada no período da maturidade de Platão – compreendido entre 366 a 361 a.C. – quando ele contava com mais de sessenta anos e os principais fundamentos de seu pensamento já estavam formados. O texto desenvolve-se sob a forma de diálogo lógico-discursivo de crítica à questão do Ser, refletindo também, numa crítica, a sua própria obra. É providencial a preparação que Platão faz para o tema em discussão: definir a figura do Sofista, questionando o que significa o verdadeiro saber em contraposição ao falso saber. Os personagens principais são o ‘Estrangeiro’ ou ‘Hóspede de Eleia’, do círculo de Parmênides e de Zenão, e Teeteto, um jovem filósofo.

A captura do Não-ser

Precedendo a parte central do Sofista (compreendida entre 236e e 264c), o ‘Estrangeiro’ adverte que se acha numa pesquisa extremamente difícil, frente ao fato de uma coisa aparecer e parecer isso, mas não ser: “Que modo encontrar, na realidade, para dizer ou pensar que o falso é real sem que, já ao proferi-lo, nos encontremos enredados na contradição? (236d). ”

No centro desse embaraço está a ousadia de supor “o Não-ser como ser”, pois nada de falso é possível sem esta condição. A análise desse problema leva o ‘Estrangeiro’ a concluir que é necessário então contradizer Parmênides, permitindo admitir o falso como sendo; ou seja, o Não-ser como ser.

Admitir a falsidade é contestar o grande Parmênides, que testemunhava em verso[1]: “Jamais obrigarás os não-seres a ser; Antes, afasta teu pensamento desse caminho de investigação. (237a) ”. Tal implicação resultaria em contradição; de modo que tentar pronunciar o ‘Não-ser’ é propriamente nada pronunciar no âmbito da significação, pois o ‘Não-ser’ a nada se atribui.

Aporias do Não-ser (237c – 238c)

Inconformado com essa situação sem saída, o ‘Estrangeiro’ inicia o diálogo contestando o modo contraditório de anunciar o não-ser, pois a que se aplica esse nome “não-ser”? Certamente refere-se a ‘algo’; mas uma vez que não se pode aplicá-lo ao que é, também não seria correto aplicá-lo a ‘alguma’ coisa. Nem ao menos se deveria afirmar que ‘fala’, quem tenta pronunciar o “que não é”.

Admitindo-se o número como totalidade das coisas que são, poder-se-ia igualmente aplicar ao Não-ser o que quer que seja do número – Pluralidade ou unidade? Ao se falar dos Não-seres (no plural), isso não se aplicaria à pluralidade? E ao se falar do Não-ser (no singular), isso não se referiria à unidade? Ora, referir-se ao Não-ser como uno ou múltiplo coloca em contradição os que afirmam que o não-ser por princípio não deve participar da unidade nem da pluralidade. Ademais, afirmar que o Não-ser é impronunciável, inefável e inexprimível contradiz (ao aplicar esse “é”) o próprio enunciado.

Simulacro (239d – 240c)

A argumentação do Estrangeiro em (239d) refere-se ainda ao ‘Não-ser’ como uma estátua, uma imagem sem realidade, um simulacro. Dito desse modo, a verdade é o que ‘é’; e a falsidade, portanto, é o que ‘não é’; mas a estátua de certo modo ‘é’. Isso nos força a reconhecer a condição de existência de um discurso falso na proposição que o exprime, fazendo-nos atribuir um certo ‘Não-ser’ ao que ‘é’ e um ‘ser’ ao que de nenhuma maneira é. O diálogo (240a – 240c) segue assim, na tradução de Jorge Paleikat e João Cruz Costa (PLATÃO, 1972, pg. 166):

TEETETO

– Que outra definição daríamos à imagem, estrangeiro, se não a de um segundo objeto igual, copiado do verdadeiro?

ESTRANGEIRO

– Teu “segundo objeto igual” significa um objeto verdadeiro, ou então, que queres dizer com esse “igual”?

TEETETO

– De forma alguma um verdadeiro, certamente, mas um que com ele se pareça.

ESTRANGEIRO

– Mas por verdadeiro tu entendes “um ser real”?

TEETETO

– Certamente.

ESTRANGEIRO

– Então, por não-verdadeiro tu entendes o contrário do verdadeiro?

TEETETO

– Certamente.

ESTRANGEIRO

– O que parece é, pois, para ti, um não-ser irreal; pois o afirmas não-verdadeiro.

TEETETO

– Entretanto, há algum ser.

ESTRANGEIRO

-Em todo o caso, não um ser verdadeiro, é o que dizes.

TEETETO

– Certamente não, ainda que ser por semelhança seja real.

ESTRANGEIRO

– Assim, pois, o que chamamos semelhança é realmente um não-ser irreal?

TEETETO

– Temos que em tal entrelaçamento o ser se enlaça ao não-ser de maneira a mais estranha[2].

O lugar em que o Ser e Não-ser se relacionam

O resultado que o discurso falso concebe aos não-seres como ‘sendo’ de algum modo permitirá a Platão estabelecer que a imagem tem um ‘ser de semelhança’ e, embora não sendo o verdadeiro ser (sendo falsidade e Não-ser), apresenta, entretanto, um estranho entrelaçamento. Esse lugar de enlace entre o Ser e o Não-ser é o que Platão pretende explorar.

Reformulação do Não-ser como contrariedade do Ser

Além da teoria de Parmênides, Platão identifica outras três teorias sobe o Ser: a materialista, a pluralista e a dos “amigos das formas” (248 a). Quanto a esta última, é sabido que eles fazem uma distinção: “é pelo corpo, por meio das sensações, que estamos em relação com o devir; mas é pela alma, por meio do pensamento, que estamos em comunhão com ser verdadeiro (248 b) ”. As coisas que mudam, pelo devir, são distintas do ser; o Ser mesmo não muda. Então, o problema da doutrina dos amigos das formas é que o ser, para eles, é imóvel e, sendo assim, não pode nem sofrer nem causar reação.

Entretanto, eles concordam que a alma ‘conhece’, e que o ser é ‘conhecido’. Ora, conhecer é sempre conhecer algo; e ser conhecido é ação (é o movimento que consiste em passar de ‘não-conhecido’ a ‘conhecido’). Se o ser sofre e age, ele é móvel; o que exige conceder o ser ao que é movido e ao movimento. Mas o que está em movimento é devir constante; fato este que invalida a possibilidade da permanência de estado, de modo e de objeto, porque não há repouso. Assim, pensar o ser como móvel ou como imóvel frustra a possibilidade do conhecimento. A argumentação de Platão para os idealistas, amigos da forma, conduz o diálogo para uma conclusão de que o ser, como ‘totalidade’, não se identifica nem com o movimento nem com o repouso absoluto, mas inclui os dois.

Entretanto, a proposição “o ser é movimento e repouso” não pode significar a identidade do ser com nenhum dos dois termos do predicado. Não podendo se identificar nem com o movimento, nem com o repouso, tem de ser um “terceiro termo” (250 c) que os envolve do exterior. Quando há apenas dois termos, como no caso da teoria de Parmênides, o Não-ser é uma contradição do Ser, e o terceiro termo é excluído; mas no caso de incluirmos o terceiro termo para dar sentido à negativa, já não se tratará de uma contradição, mas sim de uma alteridade. O Não-ser como ‘terceiro termo’, neste caso, significa alteridade do Ser.

Como formar um juízo que ao Ser confira movimento e repouso? Surge assim, com relação ao ser, uma “aporia” análoga à já conhecida sobre o “Não-ser”: “– Recordas” Diz o Estrangeiro, “que encontramos grande dificuldade quando alguém nos perguntou com que coisa se relaciona a expressão ‘Não-ser’?” “– Será porventura menor a dificuldade em que ora nos encontramos a propósito do Ser? (250 e)”

[1] Sugerimos a leitura complementar neste site: “O ser e Não-ser de Parmênides no DK 28 b 6 1-2”   http://acervofilosofico.com.br/o-ser-e-o-nao-ser-de-parmenides-em-dk-28-b-6-1-2/

[2] Na tradução de José Trindade Santos esta última fala de TEETETO fica assim: “Há risco de nos termos emaranhado numa certa complicação, por demais absurda, do que não é com o que é. (PLATÃO, 2011, pg. 207)A

REFERÊNCIAS

PARMÊNIDES. “Da Natureza“. 3. ed. São Paulo: Loyola, 2013. 120 p. (Leituras Filosóficas). Tradução, Notas e Comentários José Trindade Santos.

PLATÃO. Sofista. 1. ed. Lisboa: Calouste Gulbenkian, 2011. 265 p. Prefácio, Introdução e Apêndice de: Santos, Jose Trindade; Tradução de: Murachco, Henrique; Maia Jr., Juvino e Santos, Jose Trindade.

PLATÃO. Sofista: in: Platão Diálogos. São Paulo: Victor Civita, 1972. 269 p. (Os Pensado). Tradução de: Jorge Paleikat e João Cruz Costa.

VAZ, Henrique Cláudio de Lima. A Dialética das Ideias no Sofista: in: Ontologia e História. 2. ed. São Paulo: Loyola, 2001. 288 p. (Escritos de Filosofia VI).

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