A QUEDA – ALBERT CAMUS:

By Acervo Filosófico

Por: Juliana Vannucchi

“Mas aí está, não se tem certeza, nunca se tem certeza.” (CAMUS, 2017, p.56).

A Queda (originalmente, em francês “La Chute”) é uma das várias aclamadas e notáveis obras literárias escritas pelo pensador argelino Albert Camus. O livro foi originalmente publicado em 1956 e atualmente continua fazendo sucesso e sendo constantemente lançado em várias línguas.

A história do livro é contada em forma de monólogo pelo protagonista Jean-Baptiste Clamence,  o “juiz-penitente” e começa a se desenrolar num bar chamado Mexico-City, localizado em Amsterdã, na Holanda, que é o principal cenário de todo o romance. Clamence, em certa ocasião, encontra-se com um desconhecido – sobre o qual Camus não fornece detalhes ao leitor -, e começa a fazer uma confissão e um exame crítico e reflexivo sobre sua trajetória de vida. Inicialmente, o personagem conta a respeito de seu glorioso passado, no qual advogava com sucesso na cidade de Paris. Possuía um bom emprego, era vaidoso e bem sucedido, tinha amantes e bebia esporadicamente. Sabia contornar o tédio com pequenas doses de prazeres e alegrias, que também eram utilizadas por ele para disfarçar a hipocrisia pela qual conduzia sua vida social e pessoal: “Cada alegria fazia com que desejasse outra. Ia de festa em festa. Chegava a dançar noites inteiras, cada vez mais louco com os seres e com a vida”. (CAMUS, 2017, p.25). De maneira geral, seu cotidiano era, enfim,  agradável e seguro, embora ele admita com certa insistência que vivia sob mentiras e disfarces – era um homem mascarado tal como muitas outras pessoas (talvez todas?) igualmente o sejam. O personagem, comenta: “Quando deixava um cego sobre a calçada onde eu o havia ajudado a aterrissar, saudava-o. Evidentemente, esse cumprimento não lhe era destinado, ele não podia ver. A quem, pois, se dirigia? Ao público. Depois da representação, as mesuras”. (CAMUS, 2017, p.37).

Entretanto, esse conforto garantido pela hipocrisia, no qual vivia o personagem, certa vez foi subitamente interrompido por uma situação que mudaria para sempre seu estado de consciência e sua maneira de encarar o mundo ao seu redor: numa noite, uma mulher se suicidou no rio Sena. Clamence estava próximo do local, ouvia-a gritar pedindo ajuda, mas não a socorreu e seguiu em frente. Eis essa a sua queda, ou seja, um momento decisivo no qual ele fez uma escolha e traçou para si um caminho que alteraria os rumos de sua vida. Esse acontecimento o perturbou, tornou-se um tormento e desabou tudo aquilo que antes lhe parecia sólido e seguro.

                          Albert Camus, em 1958.

Através das várias meditações expostas ao longo do romance por intermédio de Clamence, Camus, de maneira geral, analisa a existência humana, mostrando especialmente a angústia, a hipocrisia e a fragilidade que a acompanham. O filósofo expõe a situação do homem em crise e que arquitetura para si um disfarce, moldado apenas para amenizar o sentimento de culpa que surge a partir de suas próprias escolhas, para mascarar seus pesares e para ser socialmente aceito. Nessa obra, encontramos um protagonista cuja decisão, em certo ponto da vida, lhe pesou para sempre, perturbando sua consciência e lançando-o num turbilhão constante e interminável de indagações. Ele então, revela seus pesares, revisa seu passado, confessa suas mentiras e expõe aquele que considera ser o seu lado mais sombrio, sujo e indigno. Se antes, era um advogado prestigiado, após sua queda, se tornou um indivíduo deslocado que viu suas seguranças desmoronaram-se diante de si. Ele passa então, a partir dessa experiência, a reconsiderar sua vida e a desconstruí-la, tornando-se juiz de si mesmo, e vive sem encontrar muito conforto e/ou solução para o que lhe incomoda. É um homem que convive com sua própria tragédia – uma tragédia, note-se, que ele próprio criou para si por meio de suas atitudes. Talvez todos nós tenhamos nossa queda (ou nossas quedas)… pois, afinal, um único instante pode ser suficiente para carregarmos conosco um arrependimento, um pesar, um sofrimento, afinal, não há como escaparmos de nossas decisões e das responsabilidades que inevitavelmente as acompanham. É válido citar que Camus, nessa obra, também faz algumas menções e meditações acerca do ato suicida, tema que prevaleceu em seu aclamado ensaio filosófico “O Mito de Sísifo”. Clamence chega a ser perturbado pela ideia de tirar a própria vida e indaga-se sobre os motivos que levam um indivíduo a cometer esse ato. Reflete: “Os homens só se convencem de nossas razões, de nossa sinceridade e da gravidade de nossos sofrimentos com a nossa morte”. (CAMUS, 2017, p.56). Mas o personagem, no final das contas, opta por outros caminhos.

A Queda é um livro relativamente curto e ainda assim, incrivelmente intenso e profundo durante todo o seu percurso. Talvez, acredito, possa servir como “cartão-postal” para o universo filosófico do ilustre Albert Camus e, certamente, é uma leitura recomendada a qualquer indivíduo. Enfim, é um livro arrebatador que tende a fazer com que o leitor se questione e talvez até se identifique com um ou mais aspectos que tangem a situação trágica na qual o protagonista do romance está inserido. É mais uma obra-prima com a qual Camus nos presenteou, e que nos convida a refletir sobre nossa natureza e existência.  

REFERÊNCIA:

Camus, Albert. A Queda. Rio de Janeiro: BestBolso, 2017.

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