A QUESTÃO DO ABSURDO NA FILOSOFIA DE ALBERT CAMUS:

By Acervo Filosófico

Por: Juliana Vannucchi

Se dedicarmos ao menos alguns instantes de nosso tempo para pensarmos a respeito do conhecimento humano e da maneira como, ao longo do tempo, o homem se relacionou com o mundo a sua volta, veremos que a humanidade, ainda que de maneiras distintas, desde os tempos remotos esforçou-se em atribuir um sentido para tudo. Essa inclinação do homem para explicar as coisas que o cercam e esclarecer dúvidas sobre a vida, gerou diferentes tipos de conhecimento, cada qual com suas particularidades, todos com seus respectivos valor. Assim, há, por exemplo, o conhecimento religioso, o científico, o filosófico, o mitológico e outros. 

Mas, o que acontece com o homem se o mundo ao qual ele tenta insistentemente atribuir sentido, simplesmente não possui em si nenhum significado? Ou então, talvez possua, mas seja inatingível para ser humano? O filósofo argelino Albert Camus fez reflexões a respeito desses questionamentos ao introduzir em sua obra a ideia de absurdo. Para compreender um pouco melhor esse termo, vejamos o que ele significa num dicionário da Língua Portuguesa (Michaelis, 1998): 1. Contrário e oposto razão, ao bom senso (…) Antônimo: sensato, lógico. Filos: O que é contrário à razão

Como é possível perceber, o absurdo consiste em algo que carece de lógica e que, portanto, não é determinado reflexivamente – a razão não dá conta daquilo que é absurdo, ela não o explica. Para Camus, a vida é absurda e  filosoficamente, isso quer dizer que a situação existencial humana é caracterizada essencialmente pela ausência de sentido e, dessa forma, não existem consistências, certezas e/ou garantias. Não há finalidade última e não há causas primeiras no mundo absurdo. Nessas circunstâncias, carente de convicções, o destino não é dado a priori, ele é arquitetado pelo indivíduo enquanto ente dotado de liberdade. Também não há figuras celestiais que possam garantir alguma coisa a posteriori – simplesmente não há certezas, há instabilidades.

(…) O absurdo, em si, é “o estado metafísico do homem consciente”. (CAMUS, 2010, p. 49).

E o que ocorre com o sujeito que se dá conta do absurdo que tange sua vida? Como reagir diante de uma existência sem significado e sem propósito? Para que continuar vivendo se não há razão, lógica ou sentido algum? O homem que escapa da ilusão de que há um sentido inerente à sua trajetória de vida e ao mundo, é sugado pelo absurdo, isto é, por um estado de espírito no qual há uma sensação de estranhamento diante de sua condição existencial e, consequentemente, é perseguido por uma carga de angústia, do tédio, de náusea. Ele indaga, então, sobre o valor da vida: “Vale a pena continuar? Para que continuar?”. É nesse momento arrebatador que surge a consideração do suicídio como um escape do mundo, como uma resposta ao inevitável absurdo no qual estamos todos inseridos e que, de repente, se torna tão terrivelmente familiar. Essas perguntas são um julgamento do valor da própria vida e o absurdo, em si, é “o estado metafísico do homem consciente.”(CAMUS, 2010, p. 49).

Camus ilustra o absurdo existencial através de um episódio da mitologia grega: Sísifo é condenado pelos deuses a cumprimos um castigo penoso, que consiste em empurrar uma rocha até o topo de uma montanha, vê-la cair montanha abaixo, buscá-la novamente e voltar ao cume. Chegando lá, a situação se repete. De novo, e de novo, incessantemente. Esse mito é uma analogia da relação absurda que existe entre o homem e o mundo, e pode ser comparado a inúmeras reflexões sobre vários ângulos de nossos cotidianos que, em certos momentos, são por nós refutados e incompreendidos e são, portanto, privados de sentido, absurdos: a rotina repetitiva absurda, o ininterrupto trabalho cotidiano, os sentimentos incompreensíveis e caóticos que nos assolam, e outros aspectos. 

Albert Camus, na Inglaterra, em 1948.

Mas e a pergunta sobre a validade da vida? É possível ter esperança em meio a esse turbilhão de caos? Há motivos para continuar vivendo numa existência sem propósito? Para Camus, o absurdo, apesar de gerar uma dose de angústia existencial representa um estado de liberdade porque leva o homem a revoltar-se e, quando ele se revolta, ele vive. Em outras palavras, a revolta é uma reação e, simultaneamente, um verdadeiro estado de reconciliação diante do sentimento do absurdo – é uma maneira do homem se conscientizar a respeito de sua relação com o mundo, e então, começar a viver plenamente. Camus, portanto, reprova o suicídio como um caminho vantajoso, pois acredita que “do sentimento do absurdo nasce a felicidade.”(CAMUS, 2010, p;124).

Camus encerra o Mito de Sísifo com a seguinte frase: “É preciso imaginar Sísifo feliz”. Isso quer dizer que devemos e podemos encontrar felicidade em meio à nossa própria tragédia, porque somos capazes de fazer isso na medida em que aceitamos a nossa condição absurda como ela é. Não basta reconhecer esse estado existencial, é preciso se revoltar contra ele, confrontá-lo e então vivê-lo de maneira plena. “Imaginar Sísifo feliz” são palavras que sugerem que o homem absurdo é capaz de encontrar algum grau de satisfação e conforto em sua própria rocha. Afinal, ela é seu mundo, é parte intrínseca de sua plenitude existencial. A rocha de Sísifo, conforme escreve Camus, é sua própria casa – é, portanto, sua vida. Sísifo é consciente de seu tormento e justamente por isso é o herói do absurdo, pois supera seu próprio destino na mesma medida em que o contempla. Sísifo não nega sua situação absurda, ele simplesmente a vive tal como ela é: “A própria luta basta para encher o coração de um homem.” (CAMUS, 2010, p. 124). 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

Michaelis. Dicionário Moderno da Língua Portuguesa. São Paulo: Melhoramentos, 1998. 

CAMUS, Albert. O Mito de Sísifo. Rio de Janeiro: BestBolso, 2010. 

 

 

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