A VELHICE SEGUNDO SIMONE DE BEAUVOIR:

By Acervo Filosófico

Por: Juliana Vannucchi

Ao longo do tempo, a França foi o berço de muitas mentes brilhantes que nos deixaram legados incríveis nas mais diversas áreas, tais como a filosofia, a pintura, a literatura, o cinema, a ciência e outras. Dentre os mais importantes intelectuais nascidos no país, encontra-se Simone de Beauvoir, que escreveu “A Velhice” mais de uma década depois do lançamento de seu célebre (e polêmico) livro “O Segundo Sexo”. Nesta nova obra, ela se voltou para um assunto de suma importância, que geralmente é encarado como um tabu. Este ensaio se tornou uma verdadeira obra-prima que atraiu leitores do mundo todo. É muito bem estruturado e explora detalhadamente o assunto em questão. Ao longo das páginas, a escritora francesa embasa seus argumentos com aspectos históricos, mostrando, por exemplo, como diferentes culturas e povos encaram a velhice, e também com a apresentação de notáveis estatísticas. Menciona, por exemplo, que conforme dados levantados por Durkhein, o número de suicídios ocorridos na velhice é maior do que em qualquer outra idade, sendo mais elevado entre homens. Na França, mais de 50% das pessoas que tiram a própria vida são idosas.

(…)  A velhice já nos habita, constata Beauvoir (…)

Simone de Beauvoir mostra também alguns aspectos biológicos que fazem parte da velhice, mas destaca que não são apenas tais elementos que formulam uma definição acerca do que significa envelhecer, ressaltando que há uma forte questão social envolvida na definição e compreensão que se costuma ter a respeito dessa fase da vida. E mais: a condição do idoso também se relaciona com o sistema capitalista, o que, de maneira resumida, significa dizer que a pessoa de mais idade não é tida como um indivíduo saudável para a mão-de-obra. Esse fato, entretanto, nem sempre foi assim, pois conforme a própria Simone mostra, nos EUA, por exemplo, antes da eclosão e instauração definitiva do capitalismo, havia uma quantidade maior de idosos trabalhando do que houve posteriormente. Outro dado interessante que a escritora constata, é que a velhice, que já se manifesta em nós desde nossos primeiros segundos de vida, também sempre acompanhou nossa história, ainda que as abordagens a seu respeito tenham sido sempre tão diversificadas de uma civilização para a outra. Beauvoir nota que essa fase da existência representa uma degradação do organismo e ressalta  que, de uma maneira ou de outra, historicamente a velhice sempre foi mencionada pela medicina (Hipócrates, inclusive, já citava pessoas de idade em seus escritos), mas embora o tema fosse parte da medicina, nunca foi o seu foco, até que a geriatria finalmente surgiu, dando uma atenção diferenciada para essa fase da vida. Aliás, na história da medicina, curiosamente, houve um momento em que os profissionais acharam que seria importante curar a velhice e dedicaram seus esforços para isso – tentou-se, inclusive, fazer um soro rejuvenescedor. Mas apesar destas e de muitas outras estatísticas interessantes, para Beauvoir, a velhice não se trata somente de um conjunto de alterações biológicas e/ou de informações históricas. A escritora indaga e enfatiza sua reflexão na  influência que a sociedade tem em relação à condição do velho.

Na introdução do primeiro tomo da obra, a escritora francesa abre o livro com uma menção muito interessante a respeito da história do príncipe Sidharta, que durante um período de sua vida morou apenas dentro de seu palácio, cercado de riquezas e coisas bonitas. Porém, em certa ocasião, saiu desse local e contemplou espantado três desgraças que assolam a humanidade: a morte, a doença e velhice. Estas não apenas eram realidades dolorosas, mas também o destino humano. A velhice já nos habita, constata Beauvoir, ela é um destino inevitável inerente à existência humana e raramente é assumida, havendo uma grande tendência de evitar essa “realidade incômoda”, que em suas palavras: “Surge aos olhos da sociedade como uma espécie de segredo vergonhoso do qual é indecente falar”. (BEAUVOIR, 1970, p.6). Ela então, alerta que o objetivo de sua obra é quebrar essa conspiração de silêncio.

Após a introdução, Simone de Beauvoir segue tecendo reflexões profundas sobre o assunto. Um dos pontos mais interessantes e que acaba por se tornar o fio condutor do restante do livro é a concepção de que a velhice não representa a morte, o que a representa é a estagnação: “(…) a inércia é que é sinônimo da morte”. (BEAUVOIR, 1970, p. 15). A autora cita então uma definição sobre a velhice na qual consta que ela corresponde a uma “mudança desfavorável”. Porém, Simone considera que esse tipo de definição é meramente vaga e relativa, e escreve: “Não existe progresso ou regressão, a não ser relativamente a um objeto visado”. (BEAUVOIR, 1970, p.15). Ou seja, esse e outros tipos de definição parecem ser muito incertos e imprecisos, pois eles levam em conta apenas o próprio organismo e, nesse sentido, são mencionadas algumas questões interessantes de cunho biológico que nos fazem perceber o quanto é difícil definir em que consiste e em que momento se inicia o envelhecimento. Por exemplo: Por volta dos 20 anos, especialmente a partir dos 30, surge uma involução dos órgãos corporais. Mesmo os 16 anos, por exemplo, a potência sexual do homem decresce. Considerando esses aspectos, quando exatamente tem início o declínio do corpo humano? A pensadora fecha essa parte inicial de sua obra com a seguinte observação: “Definir o que representa para o homem progresso e regressão implica que estamos nos referindo a determinado fim: porém, nenhum é dado a priori, no absoluto. Cada sociedade criar os seus próprios valores: é no contexto social que a palavra declínio pode adquirir um sentido preciso”. (BEAUVOIR, 1970, p.18). Em outras palavras: a velhice não é uma fase da vida que pode ser vista somente a partir de uma perspectiva particular, pois ela, de alguma forma, sempre englobará um aspecto de cunho social e a maneira como a sociedade, em geral, encara essa parte da existência, não costuma ser positiva. A partir dessa observação, em “A Realidade Incômoda” (que é o primeiro livro), Simone de Beauvoir analisa a velhice através de um panorama biológico, histórico, psicológico e moral, que vai desde a antiguidade até o tempo em que o texto foi elaborado. Em “Velhice: As Relações Com o Mundo”, são feitas observações sobre a condição dos velhos trabalhadores em países socialistas, sobre o cuidado em relação aos idosos e são também apresentadas estatísticas sobre a sexualidade das pessoas de idade.

Essa obra de Simone de Beauvoir permanece sendo rica e profunda. Embora, é claro, muitas estatísticas tenham mudado com o passar do tempo e sejam diferente em nossos dias, as perguntas e os problemas de cunho filosófico levantados pela autora, certamente continuam sendo parte de nosso mundo e assim sendo, esse é mais um livro atemporal escrito por uma das mulheres mais brilhantes de todos os tempos. 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

BEAUVOIR, Simone. A Velhice: A Realidade Incômoda. São Paulo: Difusão Europeia do Livro, 1970.

BEAUVOIR, Simone. A Velhice: As Relações Com o Mundo. São Paulo: Difusão Europeia do Livro, 1970.

 

 

 

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