AMOR À FILOSOFIA:

By Acervo Filosófico

Por: João Arruda

Na investigação que Heidegger faz sobre a origem da obra de arte, ele distancia a obra de arte do apetrecho e da mera coisa; esta se distancia do apetrecho por não ter serventia e por não ser fabricada por mãos humanas, enquanto aquele, por sua vez, se distancia da obra de arte por não ter um valor estético, mas se aproxima pela característica de ser manufatura. Heidegger tenta fazer uma descrição de apetrecho a partir de uma representação pictórica: um quadro de Van Gogh no qual está pintado um par de sapatos. Abre-se desta representação uma gama de intelecções e descrições a respeito de um par de sapatos. Fixando-se apenas numa observação ordinária, percebemos a serventia desse apetrecho, que é calçar os pés. No entanto, ao olhar mais minuciosamente e deixar-se ser embebido e levado pela contemplação da obra, percebemos que “por esse apetrecho passa o calado temor pela segurança do pão, a silenciosa alegria de vencer uma vez mais a miséria, a angústia do nascimento iminente e o tremor ante a ameaça de morte.” (HEIDEGGER, 1977, p. 25). Estas e muitas outras intelecções que se abrem a partir da obra, fazem Heidegger concluir que o ser-apetrecho do apetrecho reside, sem dúvida, na sua serventia. Usando a obra de arte como uma representação parada de um apetrecho para investigar o ser-apetrecho, percebe-se uma característica essencial da obra de arte, e Heidegger fala dela assim: “Com a proximidade da obra, estivemos de repente num outro lugar que não aquele em que habitualmente costumamos estar” (HEIDEGGER, 1977, p. 27). E o que aconteceu aí não foi que a obra nos deu uma melhor presentificação intuitiva do que é apetrecho, mas “antes sucede que só através da obra, e só nela, o ser-apetrecho do apetrecho vem expressamente à luz.” (HEIDEGGER, 1977, p. 28).

Essa característica essencial tem sua nuance no momento em que ela abre à sua maneira o ser do ente, no momento em que ela desvela o oculto, no momento em que ela aguça a nossa imaginação e faz-nos perceber os pormenores da realidade. Neste sentido, a obra de arte faz surgir no humano uma consciência filosófica e o incita à reflexão. A esta característica Heidegger chama abertura de mundo: “Ser obra quer dizer: instalar um mundo” (HEIDEGGER, 1977, p. 35). Entendo que mundo, neste caso, se assemelha à cosmovisão. Por essa instalação de mundo, a obra de arte sugere, por meio de uma comunicação não-verbal, um símbolo do qual será uma matriz de intelecções infindáveis.

Quem é que nunca teve essa experiência? Quem é que, ao ouvir uma música, ler um poema, ver um quadro, não se percebeu com o olhar aguçado, não se sentiu como se um véu tivesse se aberto e revelado algo da unidade do real? Dessa experiência, fala Luis Lavelle: “Há na vida momentos privilegiados nos quais parece que o universo se ilumina, que nossa vida nos revela sua significação, que nós queremos o destino mesmo que nos coube, como se nós próprios os tivéssemos escolhido. Depois o universo volta a fechar-se (…)” E esse é uma das características essenciais da obra de arte, e de dela relatarei um caso.

Quem é que, ao ouvir uma música, ler um poema, ver um quadro, não se percebeu com o olhar aguçado, não se sentiu como se um véu tivesse se aberto e revelado algo da unidade do real?

Após ter assistido uma aula online sobre o projeto Socrático, e refletido sobre a definição Pitagórica de filosofia, a saber, o amor à sabedoria, me veio de chofre todos esses detalhes numa ocasião posterior quando eu li um poema de Camões. Toda aquela aula vista anteriormente veio sem nenhum esforço, como se algo dentro de mim tivesse feito a associação sem eu perceber e me jogado à consciência.

O poema começa com “transforma-se o amador na cousa amada” e este é o caminho que o filósofo fazia na filosofia grega. A definição pitagórica, absorvida por Sócrates, Platão e Aristóteles, deu-se em mote ao projeto socrático. E ao refletir nela e no primeiro verso de Camões, instalou-se um mundo em mim, que dele só consigo verbalizar um pedacinho.

Primeira coisa que discorre é que se os filósofos amam a sabedoria, ela existe por si só e fora do filósofo, e ela é amável, acima de tudo; se é amável é porque ela dá alguma notícia ao filósofo e é desejável. Essa sabedoria, para os três filósofos, não era uma sabedoria inerte, mas sim uma sabedoria inteligente, ou seja, ela não era um conjunto de conhecimentos estáticos, mas ela sim do tipo que, à medida em que o filósofo se aproxima dela, ela o vivifica e ele extrai algo dela, pois ele passa a saber algo que não sabia antes e, assim, já não é mais o mesmo. O filósofo, que não possui a sabedoria, se dirige a ela, e à medida em que ele a toca de algum modo, ele pega algo dela e incorpora em si. Sempre haverá de ser um pedaço, uma parte, pois nunca poderá tê-la por completo, senão deixaria de ser filósofo e isso para os gregos era impossível, não haveria como ter a posse total da sabedoria. E tudo isso vem compactado nessa primeira parte do soneto de Camões:

 “Transforma-se o amador na cousa amada

Por virtude do muito imaginar

Não tenho, logo, mais que desejar,

Pois em mim tenho a parte desejada”.

            (1-4)

Após essas primeiras considerações, surge a imagem da sabedoria personificada. E essa imagem guia o esforço do filósofo. Este que tem a alma ligada ao sábio, este que é matéria bruta e que conforma à medida que absorve algo do sábio. E este mundo que se me abre e instala a partir da segunda estrofe do soneto de Camões é justamente essa progressiva transformação do filósofo em sábio, mesmo que não chegue lá, pois a busca não se completa nessa vida, mas é ela que guia o esforço humano. Isto se mostra a partir da descompactação destes versos:

Se nela está minha alma transformada

Que mais deseja o corpo de alcançar? 

Em si somente pode descansar

            Pois consigo tal alma está ligada

E esta linda e pura semideia 

            Que como acidente em seu sujeito

Assim como alma minha se conforma”.

(5-11)

Uma explicação possível desta abertura de mundo que acontece na obra de arte é a própria intenção que o artista coloca na obra. Um artista, possuidor de um juízo, tenta desesperadamente o verbalizar, ou o estabilizar em uma pintura ou em escultura etc., e esse juízo condensado em linguagem se compacta; o receptor, ou seja, nós que vemos e contemplamos tais condensações, tentamos ao máximo descompactar e a partir destes símbolos criar juízos o mais parecido possível com o original; este processo é extremamente difícil, e pra entender o pouco que o artista consegue passar, o receptor precisa pegar muito mais por linguagem não-verbal, não-estabilizada, mas por pura percepção. A coerência do juízo secundário com o original nunca será total, mas será eficiente dentro de suas possibilidades, e se não o for, abre caminho a novos juízos que podem ser frutíferos ou não. O juízo original é o mundo que quer de passar, a obra de arte o meio, e o fim é o juízo secundário.

Pois então, usando dessa característica essencial da obra de arte, que, diga-se de passagem, se faz coerente, tentei mostrar uma experiência que tive a partir da abertura e instalação de mundo através da obra de arte, salvo mal estilo, e más expressões, tal intento foi feito.

REFERÊNCIAS:

CAMÕES, Luiz Vaz de. “Transforma-se o amador na cousa amada” in Lírica Completa, Vol. II: Sonetos. Lisboa, IN-CM, 1980.

HEIDEGGER, Martin. A Origem da Obra de Arte”. Disponível em: < https://marcosfabionuva.files.wordpress.com/2011/08/a-origem-da-obra-de-arte.pdf >.

 

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