ANAXÁGORAS:

By Acervo Filosófico

Por: Juliana Vannucchi

Prefiro uma gota de sabedoria a toneladas de riqueza” – Anaxágoras.

Nasceu em Clazômenas, mas estabeleceu-se em Atenas, aonde viveu por cerca de 20 anos. As fontes sobre esse filósofo encontram-se em: DL II.6-15; a Suda; Platão (Fedro), Péricles 6, 16, 32; e outros em DK 59ª. Anaxágoras foi um pensador cuja tendência era voltada para o pluralismo, ou seja, o dinamismo da realidade. Diógenes Laércio é a principal fonte de dados biográficos sobre Anaxágoras. Foi através desse pensador que surgiram as primeiras palavras escritas em prosa, fato este, que dá ainda maior valoriza ainda mais o seu legado. É relevante compreender e considerar que Anaxágoras foi influenciado por Parmênides para o qual (em oposição à Heráclito) o vir-a-ser era algo impossível pois isso implica a passagem do que não se é ao que se é. De acordo com Graham (2008, p. 232) “Tanto Empédocles quanto Anaxágoras endossam com toda lisura a rejeição permanente do vir-a-ser”.

HOMEOMERIAS e NOUS:

Homeomerias:

Serão apresentados aqui dois termos básicos que compõe a Filosofia de Anaxágoras em sua busca pelo elemento primordial de formação do universo (denominado arché). Explicaremos, assim, as características de sua filosofia cosmológica centrada no que ele denominou de “homeomerias” e “nous”.

As homeomerias seriam sementes (spérmata), ou mais precisamente, minúsculas partículas inumeráveis que geram a realidade que conhecemos e que são divisíveis em partes sempre iguais. Essas homeomerias assemelham-se aos átomos por sua indivisibilidade infinita e são partes similares que existem que compõe toda a natureza. Simplício demonstrou bem esta concepção em uma passagem: Juntas estavam todas as coisas, infinitas pela multidão e pela pequenez; porquanto também a pequenez era infinita (ápeiron). Enquanto estavam juntas, nada era claramente reconhecível, em virtude da pequenez (dos elementos). E o ar e o éter dominam o todo, sendo ambos infinitos, pois eles são os maiores (elementos), em quantidade e grandeza” [Frag. 1 D] (Simplício, Física, 155, 23).

Anaxágoras, para exemplificar seu raciocínio de que essas sementes estão são partes semelhantes de várias coisas, usa o seguinte exemplo: quando comemos carne e nossos cabelos crescem A matéria que compõe nossos cabelos, portanto, advém da carne. Assim, aquilo que comemos, seja lá o que for, carrega em si uma quantidade de matéria que explica o que acontece quando ingerimos um determinado alimento – num elemento, existem outros.

Cada coisa que existe é composta por misturas ordenadas dessas sementes e a homeomeria foi movimentada por uma força inteligente (Nous) para poder originar a constituição dos elementos naturais.

Nous:

Para Anaxágoras, a totalidade do universo teria sido criada por uma inteligência eterna e divina denominada “nous”, que foi responsável por iniciar os princípios do cosmos fundamentando tudo o que existe. Essa força consistia numa mistura de elementos distintos. Conforme mencionado por Daniel W. Graham (2008, p. 244) “da mistura primordial provém o cosmos, quando a Mente (noûs) cósmica dá início a um movimento rotatório que separa umas das outras as diferentes coisas”. E o autor complementa (GRAHAM, 2008, p. 244): “Anaxágoras admitia um número infinito de diferentes substâncias como elementos básicos de seu cosmos”. É interessante notar o quanto a descrição de tal elemento assemelha-se ao átomo visto que ambos consistem em infinitamente divisíveis. O Nous, portanto, consiste numa força matriz, primária e suprema que é viva, em si e que transmite movimento à natureza. E para o filósofo, a natureza possui substâncias fixas que interagem e formam substâncias mistas, sendo que assim, “tudo está inserido em tudo” e, portanto, “qualquer coisa em tese, pode se transformar em outra coisa” (OSBOURNE, 2013, p. 92).  Ou seja, na natureza, uma substância faz-se presente na outra e pode transformá-la em algo distinto do que ela é. “Anaxágoras desenvolve uma teoria em que há uma intensa mistura de todas as coisas, a qual se parece estender ininterruptamente até o nível macroscópico”. (GRAHAM, 2008, p. 226). Uma passagem do próprio filósofo (Anaxágoras, fragmento 12) nos ajude a compreender tal pensamento:

A mente é algo infinito e autônomo, que não foi misturada com coisa alguma, mas existe só, por si e para si. Pois se não existisse por si, mas estivesse misturada com alguma outra coisa, participaria de todas as coisas, caso estivesse misturada com algumas delas. Pois em tudo quanto há, está presente uma parcela de tudo, conforme já explicitado por mim anteriormente, e as coisas com ela misturadas a impediram de controlar o que quer que fosse da maneira como o faz sendo efetivamente só e por si. Pois que ela é a mais fina de todas as coisas e a mais pura, detentora de todo o conhecimento acerca de tudo e dona da maior das forças. E tem a mente a faculdade de controlar todas aquelas coisas, tanto grandes quanto pequenas, dotadas de alma”.

O Nous, ao realizar seu movimento, gera as coisas que conhecemos. E essa ação, por sua vez, se da através das homeomerias, que são a raiz do mundo. E para Anaxágoras, essa relação e a responsável pela realidade que conhecemos.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

GRAHAM, Daniel W. In: HUSSEY, Edward. Primórdios da filosofia grega. São Paulo: Ideias & Letras, 2008. (Coleção Companios & Companios 1. Filosofia). Org. A.A.Long. Tradução de Paulo Ferreira.

HUSSEY, Edward. Primórdios da Filosofia Grega. São Paulo: Ideias & Letras, 2008. 534 p. (Coleção Companios & Companios 1. Filosofia). Org. A.A.Long. Tradução de Paulo Ferreira.

OSBORNE, Catherine. Filosofia Pré-Socrática. Porto Alegre: L&PM, 2013. 155 p. (Coleção L± Pocket Vol. 1114). Tradução de Marcio Hack.

 

 

 

 

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