AS DIFERENTES FONTES SOBRE SÓCRATES:

By Acervo Filosófico
Por: Juliana Vannucchi
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Um dos principais aspectos mencionados quando se fala em Sócrates, é o fato de que o pensador não deixou nenhum registro escrito. O que hoje se sabe a seu respeito, é o que foi transmitido por alguns testemunhos de sua época, dentre os quais três são as principais fontes, que o teriam conhecido pessoalmente:. Estes são: Platão, Aristófanes e Xenofonte. No entanto, a abordagem por eles feita a respeito de Sócrates, diverge em alguns pontos: “Durante muito tempo, e até hoje, os historiadores da filosofia se perguntam qual seria o verdadeiro Sócrates ou, ao menos, qual seria aquele mais próximo do Sócrates histórico. Muitos consideram Sócrates um enigma insolúvel e sustentam que jamais o conheceremos”. (2006, p.15). Além disso, considerando a ausência de obras autônomas e as inúmeras diferenças pelas quais o filósofo é apresentado, não há como negar que, conforme alguns asseguram, talvez Sócrates nem ao menos tenha existido. Neste texto, analisaremos algumas das principais características retratadas sobre Sócrates.
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Comecemos por Aristófanes, que representa Sócrates em “As Nuvens”, comédia datada de 423 a.C. Nesta obra, o filósofo grego é ridicularizado e tratado como um “falso sábio, como um corruptor da juventude, e como destruidor dos valores tradicionais” (2006, p.16). Além disso, é acusado de desrespeitar os deuses através de suas ações reflexivas. Sócrates é tratado praticamente como um sofista, pois de acordo com estes registros, o pensador grego vendia seu pseudo-conhecimento.

“Durante muito tempo, e até hoje, os historiadores da filosofia se perguntam qual seria o verdadeiro Sócrates ou, ao menos, qual seria aquele mais próximo do Sócrates histórico. Muitos consideram Sócrates um enigma insolúvel e sustentam que jamais o conheceremos”. (2006, p.15).

Apesar desta abordagem negativa, Aristófanes (447 a.C. ca. – 385 a.C.) apresenta alguns traços de Sócrates que se assemelham às imagens retratadas por Platão e Xenofonte. Como, por exemplo, o fato de que o filósofo se comunica através da dialética, e emprega seu método socrático, sempre interrogando seus interlocutores, causando-lhes dúvidas e instigando-os à desconstruções de suas certezas para buscas de novas verdades. Além disso, em As Nuvens, algumas características biográficas também se repetem com outros retratos feitos sobre Sócrates: ele aparece como um homem pobre, que caminha descalço e que reside num lar humilde. 
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Xenofonte (?-354 .C.), por sua vez, registrou uma imagem mais positiva de Sócrates, de quem, aliás, teria sido discípulo. O escritor mencionou o pensador grego em inúmeras obras, tais como Simpósio, Econômicas e Ditos e Feitos Memoráveis de Sócrates, sendo esta última, a principal fonte, e na qual há uma passagem interessante que trata de uma conversa entre o sofista Antifão e Sócrates. Em tal diálogo, Antifão ressalta a pobreza material do pensador grego, dizendo que este “não possui escravos, seus alimentos e suas bebidas não são requintados, suas vestes se resumem a um manto grosseiro tanto no verão como no inverno, não possui calçados ou túnica” (2006, p.18).
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O sofista, para desmoralizar ainda mais o seu oponente, comenta: “Se, pois, como todos os mestres formas os réus discípulos à tua semelhança, podes considerar-te um professor de miséria”. Sócrates retruca com sabedoria: “Fazes, creio, Antifão, tão triste ideia de minha existência, que preferirias morrer a viver como eu. Ora bem, examinemos por que achas minha vida tão penosa”. E então, o pensador segue mostrando que “a pobreza de sua vida é a riqueza dos limites conscientes da sua liberdade” (2006, p. 18) e que ele não cobra por seus ensinamentos, sendo assim, mais livre do que os sofistas que precisam vender suas palavras. Sócrates ainda complementa seu embate mencionando, respectivamente sobre sua alimentação: “quem tem apetite não tem necessidade de condimentos para comer com prazer, e quem tem sede não precisa de nada mais do que água para saborear, deliciosamente o fim da sua sede (…), além de defender que o uso de suas roupas é simples porque as vestimentas servem apenas para proteger o corpo humano diante da alternância climática das estações. Sócrates, neste mesmo diálogo, também diz que a felicidade está relacionada às necessidades, e que quanto menos multiplicidades o homem tiver, mais feliz ele poderá ser. Note-se que neste ponto, há uma semelhança entre o Sócrates de Xenofonte e de Aristófanes, pois para ambos, o filósofo grego leva um modo de vida humilde e possui vestimentas simples e despojadas. De maneira geral, Xenofonte mostra Sócrates como um homem notavelmente sábio e que está sempre levantado perguntas aos interlocutores. 
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Por fim, mencionaremos agora a obra de Platão (428/427 – 348/347 a.C.) que foi discípulo e grande admirador de Sócrates. De acordo com algumas fontes, eles teriam se conhecido quando tinham 20 e 60 anos, respectivamente, e teriam convivido juntos durante um período de dez anos. Nos legados platônicos, Sócrates geralmente assume o papel de protagonista, conduzindo com imensa sabedoria os diálogos dos quais participa. É retratado de maneira bastante positiva, como um homem virtuoso e possuidor de grande conhecimento, sendo visto por Platão como um verdadeiro herói. Além destes referidos aspectos, sua humildade é novamente destacada, assim como menciona-se o método socrático como característica marcante de seus debates. De maneira geral, nos Diálogos escritos por Platão, seu mestre costuma aparecer em locais como ginásios, praças públicas e banquetes, sempre cercado por personagens com os quais irá dialogar. Sócrates tornou-se uma verdadeira marca dos textos deste seu discípulo, e sua presença, conforme mencionado acima, é muito notável. Platão é considerado o maior e mais seguro reprodutor do pensamento e da imagem de Sócrates e, certamente, suas obras representam a fonte mais segura sobre o assunto. 
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É interessante que consideremos as diferenças entre as imagens de Sócrates. Muitos costuma conhecê-lo somente pelos escritos platônicos que, muito embora sejam as principais fontes sobre o filósofo, não são as únicas, e as outras devem ser também analisadas e validadas para que, quem sabe, possamos conceber uma possível noção e/ou conhecimento desta figura que se tornou tão importante na história da humanidade. Aos interessados, alguns outros autores que reproduziram material/mencionaram sobre Sócrates, são: Aristóteles, Diógenes Laércio, Aulotipo e Cícero. 
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REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA:
CURY, Fenanda. Sócrates. Editora: 4D, 2006.

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