CINEMA, ARTE E INDÚSTRIA – Acervo Filosófico e Cinema de Buteco:

By Acervo Filosófico

Os membros do Acervo Filosófico bateram um papo com três autores do site Cinema de Buteco para discutir e refletir sobre o seguinte tema: “CINEMA, ARTE E INDÚSTRIA“.

Cinema, Arte e Indústria:

     Este breve texto visa aproximar o leitor da temática proposta para uma gravação realizada entre membros do site Acervo Filosófico em parceria com o site Cinema de Buteco. Aqui, serão transmitidos alguns tópicos resumidos e algumas referências sobre o assunto central do bate-papo que foi originalmente transmitido em março de 2017. Tanto para este texto como para inspiração da pauta, foi usado como base o livro “O Cinema, Arte e Indústria” (1979) do autor Carlos Barbáchano. O problema que tange o assunto da reflexão cujo título foi “Cinema, Arte e Indústria” é a tentativa de identificar uma possível definição sobre o que é o cinema, qual o seu significado e qual o seu objetivo. Para buscarmos possíveis soluções para este referido problema, é interessante nos distanciarmos de qualquer princípio provindo do senso comum e junto a tal postura, buscarmos indagar e destrinchar inúmeros componentes que formulam o questionamento proposto. Partamos diretamente da desconstrução da pergunta que postulamos como título de nossa reflexão: O que é o cinema? É arte? É indústria? Ou ambas as coisas simultaneamente? 

    Um caminha adequado para que possamos fazer especulações sobre a temática, é que separemos os três elementos reflexivos para que possamos tentar considerá-los individualmente. Então, comecemos: existe certa complexidade para definir objetivamente o que é arte. Para se ter uma ideia, há milênios a Filosofia tenta fazer isso e está área do saber possui um campo específico para tal investigação, chamado de “Estética” ou “Filosofia da Arte”. Ou seja, neste ponto de partida já temos um problema consideravelmente grande, que consiste na complexidade de definir a arte. Mas faremos algumas breves pontuações filosóficas que resumem quatro funções/definições sobre a arte e que podem ajudar nesta reflexão. É importante ressaltar que além do que será apresentado abaixo, há inúmeras outras problematizações, embates, discussões e teorias.

1.A arte teria função pragmática, ou seja, ela seria criada para fins específicos. Na Idade Média, por exemplo, o Catolicismo utilizou-a seu serviço. Na referida época, vitrais eram produzidos para transmitir ensinamentos, preceitos e histórias bíblicas para a população dos feudos que era analfabeta. Neste caso, em relação ao cinema, poderíamos considerar, por exemplo, filmes de cunho político e/ou social. Aqui, não se prioriza e tampouco importam os valores/aspectos estéticos da obra.

2.A arte pode ser meramente naturalista, voltando-se apenas para o objeto retratado. Aqui, o que vale é mais o conteúdo do que a forma propriamente dita. Portanto, neste caso, os aspectos técnicos são pouco relevantes, pois o que realmente importa é a transmissão de um conteúdo.

3.Para muitos pensadores, quando um objeto está subordinado a uma finalidade, ele perde seu valor artístico. Por exemplo: artesanato ou design não podem ser considerados obras de arte, pois por mais que possuam configurações artísticas, são construídos sem espontaneidade, e suas configurações são determinadas pelo fim que possuem. Portanto: arte é diferente de utilidade. Além disso, até pouco antes do século XX (quando começou o período do Modernismo), a arte estava atrelada ao conceito de belo, e este era o principal ponto de partida para produção de uma obra, sendo que por sua vez, o belo relacionava-se ao ordenamento, harmonia e equilíbrio. Até então, para ser artista, era preciso ter talento. Porém, com a eclosão das Vanguardas Europeias, este conceito tradicional que ligava a arte ao belo sofreu uma ruptura, e produção de uma obra libertou-se de conceitos postulados: um quadrado pintado numa tela branca poderia ser considerado arte.

4.Por fim, menciono aqui o formalismo, isto é, uma perspectiva teórica na qual a forma prevalece sobre o conteúdo. Neste sentido, o foco são os elementos componentes e suas respectivas relações, que culminam na maneira como uma obra é apresentada. No caso de um filme, por exemplo, podemos pensar, no visual, no som, na montagem, fotografia, etc.

Abaixo, uma pergunta feita a Truffaut durante a realização de uma entrevista. Em seguida, considerações e exemplos sobre “Cinema, Arte e Indústria”, seguida de duas menções pertinentes referentes a dois grandes diretores de cinema:

P: “O cinema pressupõe, para a sua difusão, toda uma organização, salas, uma infra-estrutura… Isso implica uma produção regular, suscetível de assegurar rendimentos regulares. Devido a isso, poder-se-ia pretender que existe um cinema comercial que se opõe ao cinema artístico. Qual é a sua posição a esse respeito?

R: Sempre neguei esse ponto, sempre recusei a ideia de que a realização de um filme exige ou supõe mais concessões do que a literatura (…) evidentemente, na produção de filmes há a considerar a importância dos capitais investidos e também a ideia de criação coletiva.

Complemento:

– Posteriormente, Truffaut comenta que a Nouvelle Vague, embora tenha diminuído o custo de investimento para construção fílmica, ainda assim exigia aplicação financeira considerável. Se para um filme qualquer rodado em estúdio, visitava-se cerca de 200/300 milhões de francos, durante a eclosão da Nouvelle Vague, o custo era de aproximadamente 100 milhões.

Certa vez, quando perguntaram a Alfred Hitchcock “quando os cineastas escapariam às poderosas imposições comerciais que condicionam o acabamento de uma película”, o cineasta respondeu: “só no momento em que um filme não custasse mais do que esferográfica e uma folha de papel”.

– Jean-Luc Godard é reconhecido como um dos maiores diretores de cinema da história. Geralmente é associado ao “cinema artístico”, mas recentemente passou a defender a ideia de um cinema “econômico e coletivo”.

Considerações:

Não é simples desvincular o Cinema da Indústria, pois produções (ainda que sejam simples), envolvem investimento e gasto. Possivelmente, o único tipo de produção que é capaz de se afastar completamente de qualquer interferência industrial, são os filmes undergrounds. Embora muitos condenem as produções norte-americanas por sua excessiva normatização industrial (que torna a maior parte das narrativas absurdamente mecanizadas – isso não significa, necessariamente sem conteúdo), alguns dos diretores europeus mais engajados da história da Sétima Arte, e que se empenharam fortemente em combater o cinema comercial, de alguma maneira, renderam-se à indústria, já que nota-se a inserção de merchandising em suas produções fílmicas. No filme Alphaville (1965) de Jean-Luc Godard, aparece uma propaganda da Coca-Cola. Em La Notte (1961), uma das mais notáveis obras do respeitado cineasta italiano Michelangelo Antonioni,  também há várias propagandas (de marcas de carro, por exemplo). Ocorre que, certamente, Antonioni, Godard, Truffaut  e outros produtores europeus cujos filmes, geralmente são associados à arte (o típico “cinema artístico”) e ao conteudismo (há divergências, há controversas), precisam sobreviver, precisam se alimentar, alimentar seus elencos, pagar seus elencos bancar outros custos gerais de suas produções (deslocamento, gasolina, energia e outros). Assim sendo, até mesmo muitas películas que fazem parte do cinema “culto” costumam, de alguma maneira, estar estritamente atrelado à indústria. Por isso, talvez, o cinema possa ser uma espécie de “arte industrial” e, ressalte-se: a industrialização do cinema, não implica, necessariamente, em definhamento produtivo, conteúdo raso (vide Godard usando marcas em suas obras) ou má qualidade.

ESCUTE O PROGRAMA NA ÍNTEGRA ACESSANDO O LINK ABAIXO:

https://www.youtube.com/watch?v=F1nHwmUzg1M&t=2058s

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