CINISMO – Filosofia:

By Acervo Filosófico

Por: Juliana Vannucchi

“ridendo castigant mores” (“rindo, criticam os costumes”) – Sátira latina de Lucílio e Horário.

Ele e seus seguidores, que ficavam nessa varanda, transformaram a loucura socrática de Diógenes, o Cão, numa visão de mundo que equivalia a calma, imperturbabilidade e firme indiferença”. (GARVEY. STANGROOM, 2013, p. 109).

O Cinismo foi uma corrente filosófica fundada por Antístines, discípulo de Sócrates. A palavra “cínico” tem sua origem do grego, “Kynicos”, que significa “canino”. Os cínicos eram chamados de cães pelo fato de que Antístenes transmitia seus ensinamentos no ginásio e templo de Cinosargo (Cynosarges em grego) um local fora dos domínios de Atenas, que fora construído para os “nothoi”, que eram pessoas que não possuíam cidadania ateniense. “Cynosarges” pode ser traduzido como “cão branco”, “alimento de cão” ou até mesmo “cão rápido”. Além destes fatores etimológicos, o próprio comportamento dos cínicos era semelhante ao de um cachorro, uma vez que estes filósofos rejeitavam as convenções sociais e procuravam viver da maneira mais espontânea possível, conforme fazem os cães. Portanto, tal como estes animais, conta-se que os seguidores desta corrente filosófica viviam sem pudores: dormiam nas ruas, urinavam, defecavam e até mantinham relações sexuais publicamente. Todos esses hábitos possuíam origem nos princípios éticos do Cinismo, que serão melhor explorados abaixo. 

Principais características filosóficas:                               

Os cínicos se propunham a viver de acordo com suas próprias naturezas, afastando-se assim do mundo externo que possuía alguns aspectos que lhes eram dispensáveis. Seguindo este princípio ético, buscavam desapegar-se das convenções sociais:  despreocupavam-se com reverências, etiquetas, fama, acúmulo de dinheiro e honrarias, considerando que tais elementos eram obstáculos para a vida virtuosa e inúteis para felicidade do homem: “O sábio deve tornar-se indiferente às dádivas e aos flagelos da existência, encontrando satisfação dentro da própria mente”. (BOTELHO, 2015, p. 124). Dessa forma, acreditando que aquilo que existia fora do homem era considerado algo supérfluo, dever-se-ia buscar a autossuficiência, ou seja, a satisfação de si próprio, que era um dos aspectos éticos essenciais que condicionavam o comportamento do cínico. Esta autodeterminação foi chamada de “autarquia”, e ela representava a independência individual, sendo um princípio essencial ao Cinismo, pelo qual um indivíduo poderia ter seus próprios valores. Outro aspecto importante do Cinismo é a “parrhesía”, que consiste na liberdade para se dizer aquilo que se pensa, em qualquer contexto, sem refrear, ou seja, é uma “fala franca”, uma linguagem honesta e sem pudores. Junto à parrhesía, praticavam também a anáideia que, por sua vez, significa a liberdade de ação, sendo este, outro princípio ético fundamental do Cinismo. 

Os cínicos, portanto, bastando-se de si mesmos, propunham desligar-se das necessidades supérfluas, e ter um comportamento antissocial, para que assim, fossem capazes de estar cada vez mais livres e tornarem-se cada vez mais virtuosos. 

Diógenes de Sínope, o “Cão”:

Diógenes de Sínope (400-325 a.C.), também conhecido como “o Cão”, foi o principal representante do Cinismo. A mais importante fonte a respeito de sua vida e de seus pensamentos é a obra “Vidas e Opiniões de Filósofos Eminentes”, escrita por Diógenes Laércio. Foi contemporâneo de Platão e de Aristóteles, e desencadeou certas desavenças com o primeiro, com quem parece ter sustentado notável implicância.

Nasceu em Sínope, atual região da Turquia, na Ásia Menor. Era filho de Hicésio, que trabalhava como tesoureiro. Certa vez, surgiram rumores de que Hicésio estava falsificando moedas e também havia boatos de que se filho estava participando da fraude. Como consequência das acusações (que não foram provadas), Diógenes deixou a cidade em que morava, e partiu para Atenas. Lá, vivia uma vida de miséria, mendigando pelas ruas da cidade, sempre agindo conforme os moldes éticos do cinismo, vivendo de maneira simples e livre, e desprezando quaisquer valores e opiniões sociais. Seu apelido, o “cão”, resultava de seu comportamento, que era tipicamente canino: ele vivia nas ruas, vestia-se apenas com uma túnica, alimentava-se de sobras de comida que encontrava pelos cantos de Atenas, bebia água de poças e sua moradia era um barril. O cínico adotou com orgulho este apelido que lhe atribuíram. Conta-se que ele próprio dava a seguinte explicação: “Faço festa aos que me dão alguma coisa, lato contra os que nada me dão e o morro os celerados”. 

Teofrasto (372 a.C. — 287 a.C.) narrou (REALE. ANTISERE, 2004, p.255), que, em certa ocasião: “Diógenes viu, uma vez, um rato correr daqui pra lá, sem objetivo (não buscava lugar para dormir, nem tinha medo das trevas, nem desejava algo daquilo que comumente se considera desejável) e assim cogitou um remédio para suas dificuldades”. Esta história propõe uma fonte de inspiração para o comportamento ético animalesco e tão despreocupado com normas que condicionava a vida deste cínico. Outra história nos conta que Diógenes possuía com ele poucos pertences, dentre os quais, mantinha uma tigela que usava para pegar água de poças e fontes. Certa vez, avistou uma criança tomando água com as mãos, e então, espantado, exclamou: “Que tolice, a minha! Todo esse tempo, carregando comigo uma bagagem supérflua”. Além destas histórias que mencionamos, há muitas outras outras aventuras interessantes a seu respeito. Aqui vai uma bastante conhecida: conta-se que andava durante o dia pelas ruas de Atenas com uma lamparina, indagando ironicamente: “Alguém viu o homem?”. Ou seja, qual dos indivíduos que perambulavam pelas ruas eram verdadeiramente humanos? Quais eram plenos, honestos e quais viviam em seus verdadeiros estados de natureza?: “Com evidente e provocante ironia, queria significar exatamente o seguinte: busco o homem que vive segundo sua mais autêntica essência (…)” (REALE. ANTISERE, 2004, p.254).

Os cínicos, bastando-se de si mesmos, propunham desligar-se das necessidades supérfluas.

Após viver durante alguns anos em Atenas, mudou-se para Corinto. Lá, numa determinada ocasião, recebeu a visita de ilustre conquistador Alexandre, o Grande, que encontrou Diógenes repousando em uma calçada, tomando banho de sol. Alexandre, então, perguntou: “Posso fazer algo por ti?”. A resposta que recebeu foi esta: “Afasta-te do meu sol”.

Faleceu em 323 a.C. Em sua lápide, foi escrito: “O próprio bronze envelhece com o tempo, mas tua glória, Diógenes, nem toda a eternidade destruirão; pois apenas tu ensinaste aos mortais a lição da autossuficiência na vida e a maneira mais fácil de viver”. Além disso, foi feita uma coluna com um cão no topo para simbolizar a vida e os feitos marcantes do filósofo.

Além de Diógenes, outro cínico que merece destaque foi seu discípulo Crates de Tebas, que junto com sua esposa Hiparquia de Moroneia (que se autointitulava a primeira filósofa), viveu uma vida tipicamente cínica e escreveu dois livros: “Mochila” e “Elogio à Lentilha”. Há ainda registros de outros cínicos, tais como Bíon de Boristene, Teles, Menipo de Gadara e Menedemo. 

Outro nome também notável é o de Zenão de Cítio que se tornou discípulo de Crates e, posteriormente, após reunir certo número de eguidores, começou, junto destes a trocar ensinamentos num local chamado Varanda Pintada (do grego, stoa poikile): “Ele e seus seguidores, que ficavam nessa varanda, transformaram a loucura socrática de Diógenes, o Cão, numa visão de mundo que equivalia a calma, imperturbabilidade e firme indiferença”. (GARVEY. STANGROOM, 2013, p. 109). Este teria sido o início do Estoicismo, outro escola do período helenista.

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REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA:

BOTELHO, José. A Odisséia da Filosofia. São Paulo: Abril, 2015.

GARVEY, James, STANGROOM, Jeremy. A História da Filosofia. São Paulo: Editora Octavo, 2013. Tradução de Cristina Cupertino.

REALE, Giovanni, ANTISERI, Dario. História da Filosofia: Filosofia Pagã Antiga. São Paulo: ED.PAULUS, 2004. (Coleção Filosofia, volume 1).

 

 

 

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