COMO É SER UM MORCEGO? – THOMAS NAGEL:

By Acervo Filosófico

Por: Juliana Vannucchi

Colaboração: Eduardo Faria

What is it to be like a bat?” ou “Como é ser um morcego?” é um artigo publicado por Thomas Nagel em 1974. O texto se tornou um dos principais pontos de referência para os estudos da Filosofia da Mente e está, portanto, diretamente relacionado com o problema “mente e corpo” (embora, note-se, para alguns pensadores este não seja necessariamente o “ponto de partida” ou a questão central das reflexões filosóficas sobre a mente).

Em “Como é ser um morcego?”, Nagel, que é um dualista de propriedades, além de expor o pilar de sua teoria sobre a Filosofia da Mente, buscou dar uma resposta às teorias fisicalistas que, de acordo com o autor, seriam falhas por fornecerem apenas explicações objetivas sobre a mente, excluindo seu caráter subjetivo. É importante salientar que o fisicalismo é uma linha teórica que em essência considera que a natureza da mente é física e que, portanto a consciência pode ser explicada e compreendida através daquilo que é físico.

Para Nagel, a consciência subjetiva de um ser e as experiências que tal ser vivencia através dela, não podem ser explicadas por leis e métodos científicos, ou em outras palavras, possuir certa quantidade de informações físicas sobre a estrutura da consciência é insuficiente, pois não proporciona todo tipo de conhecimento possível a respeito da consciência. Nesse contexto, o autor destaca a diferença entre as palavras “ser” e “comportar”: imaginar ou observar hábitos da vida dos morcegos (por exemplo, em que período do dia eles comem, dormem e em que época do ano se acasalam) consiste em realizar uma análise objetiva sobre tal animal, porém, não é a mesma coisa que ter acesso às suas vidas interiores, já que isto seria um tipo de conhecimento subjetivo, pois significa ser algo (ser como um morcego e como esse mamífero se sente sendo tal como é), isto é, ter uma experiência consciente, que envolve uma perspectiva particular e inacessível: “Nós não podemos formar nada além de uma concepção esquemática de como é ser um morcego”. Por exemplo, podemos atribuir tipos gerais de experiência com base na estrutura do animal e do seu comportamento (…) Mas acreditamos também que essas experiências tenham um caráter subjetivo específico, o qual está além da nossa habilidade de concepção”. (NAGEL, p.250).

Nós não podemos formar nada além de uma concepção esquemática de como é ser um morcego“. Thomas Nagel. Fonte da imagem: https://pixabay.com/pt/lua-cheia-noite-morcegos-escurid%C3%A3o-3659314/

Nagel cita como exemplo a existência de marcianos, dizendo que mesmo que soubéssemos que tais seres são reais e pudéssemos observá-los, seríamos incapazes de compreender como é ser um marciano. Por outro lado, ainda que os alienígenas de Marte estudassem a fundo o cérebro humano e detalhassem as suas funções e propriedades, inclusive tendo capacidade para compreender mais sobre nosso cérebro do que nós próprios, ainda assim, não teriam acesso à nossa experiência subjetiva, isto é, à forma através da qual o ser humano se relaciona com este mundo que habita (como ele o percebe, o que sente, de que maneira sente, o que pensa, e etc). Conforme Nagel: (…) ele nunca estaria apto a compreender os conceitos humanos de arco-íris, de raio ou de nuvem, ou o lugar ocupado por essas coisas no mundo fenomênico”. Portanto, descrever um extraterrestre ou um morcego objetivamente, não significa que somos capazes de entender seus pontos de vista – esse subjetivismo nos é inacessível. 

Podemos entender que o fisicalismo é, portanto, capaz de obter algum tipo de conhecimento sobre o comportamento de um morcego e sobre suas estruturas e processos cerebrais, contudo, não é capaz de explicar “o que é ser como”, ou seja, ele não responde como é uma consciência subjetiva, como é viver conforme vive um morcego e isso significa que, de certa forma, é uma teoria “falha” na medida em que deixa algo de fora quando tenta dar uma resposta, sendo que assim, não é capaz de fornecer conhecimento pleno sobre a mente e tampouco uma resposta definitiva a respeito da natureza da consciência, uma vez que esta, enquanto uma singularidade encontra-se além de teorias físicas e (pelo menos até o momento) não pode ser compreendida. Nesse âmbito, o fisicalismo, quando estabelece a redução do mental ao físico, está negando a subjetividade, os estados mentais qualitativos e propondo que a ciência atual é capaz de dar conta de todos os âmbitos do ser humano.

Nagel pode ser compreendido como um monista, pois acredita que tudo se encontra no âmbito físico, reconhecendo a capacidade da ciência, mas negando que ela abranja todos os aspectos da realidade. A vertente fisicalista, que traduz a ciência na Filosofia da Mente, não tem e nunca teve meios para tratar destas questões qualitativas. A ciência não é capaz de explicar, por meios fisicalistas, estas qualidades – os qualias – e, a partir disso, Nagel diz que existem fenômenos de natureza física e outros de fenômenos de natureza mental, sendo que, respectivamente, o primeiro tipo de fenômeno, a ciência abarca em seus conhecimentos, e o segundo tipo, isto é, aqueles que são qualitativos, por sua vez, não cabem em nossa ciência atual (que é de cunho fisicalista). Os eventos qualitativos, que estão presentes nestas propriedades mentais, são do campo físico, porque não surgem do nada: surgem justamente do físico. Então não se trata de terem uma possível origem de um “outro mundo” ou outra substância.

Consultoria e revisão de Eduardo Faria:

Eduardo Faria é pesquisador bolsista ativo do CNPQ em Filosofia da Mente, com viés histórico-crítico. Possui o autor americano Thomas Nagel como foco de estudo, e atualmente está desenvolvendo a pesquisa “Relações entre fenômenos mentais e ação em Thomas Nagel”. Possui interesse nas áreas de Ontologia, Filosofia da Ação, Ética, entre outras.

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA:

NAGEL, Thomas. Como é ser um morcego? Tradução: Paulo Abrantes e Juliana Orionte. Cad. Hist. Fil. Ci., Campinas, Série 3, v. 15, n. 1, p. 245-262, jan-jun, 2005.

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