COMO TIRAR PROVEITO DOS INIMIGOS – PLUTARCO:

By Acervo Filosófico

Por: Juliana Vannucchi

No primeiro semestre de 2019, um dos livros que li e que me agradou bastante foi Como Tirar Proveito Dos Ses Inimigos, de Plutarco. Foi o primeiro contato que tive com uma obra de autoria deste notável pensador grego e consegui extrair conhecimentos bem proveitosos dessa leitura.

Este incrível texto de Plutarco, segundo o próprio autor, foi inspirado numa frase de Xonofonte e foi dedicado a um amigo chamado Cneu Cornélio Pulcro. A edição que li tem uma linguagem relativamente simples e um conteúdo imensamente valioso, que pode ser aplicado de forma prática no cotidiano de qualquer indivíduo. A única dificuldade que encontrei na leitura foram as inúmeras menções a certas figuras históricas e mitológicas sobre as quais constam inúmeras notas de rodapé, presentes em praticamente todas as páginas, sendo estas muito esclarecedoras. Aliás, a edição da Edipro que em que me baseei para elaborar este texto, é elogiável em vários aspectos (como no quesito visual, nas informações introdutórias, notas presentes nas páginas, etc) e eu definitivamente a recomendo (para mais informações, veja a “referência” ao final deste texto). Agora, deixemos essas observações sobre a forma do livro de lado, e adentremos no conteúdo que Plutarco nos oferece. Abaixo, vou pontuar alguns dos trechos e aspectos que mais me instigaram e que acho digno de serem partilhados, mas é claro que o livro, em sua totalidade, carrega vários outros trechos interessantes e por isso, com certeza merece ser lido integralmente.

Logo nas primeiras páginas, Xenofonte é mencionado por ter, certa vez, dito que aqueles que são inteligentes, tiram proveito de seus inimigos e a partir desse ponto de partida que, conforme já dito, inspirou o livro em questão, Plutarco inaugura suas reflexões. Inicialmente, cita os antigos que, embora tivessem os animais selvagens como inimigos naturais, sabiam tirar proveito deles, utilizando-os para a própria sobrevivência, na medida em que suas peles eram usadas como vestimentas e suas carnes para alimentação.  Nesse sentido, também comenta os seguintes exemplos: “O agricultor não pode transformar todo tipo de árvore em um cultivo frutífero, nem o caçador pode domesticar todo tipo de animal selvagem; procuram, conforme outras necessidades, tirar proveito, aquele das árvores que não davam frutos e este dos animais que eram selvagens”. (PLUTARCO, 2015, p.31). É justamente esse tipo de proveito que deve-se tirar daqueles que considerados que sejam os mais nocivos homens que participam de nossas vidas, ou seja, é possível extrair aspectos positivos e ensinamentos de nossos inimigos e, conforme veremos, a partir deles, podemos inclusive nos tornar pessoas melhores.

Plutarco, um dos mais notáveis pensadores gregos.

Seguindo suas meditações, Plutarco então, afirma que em relação aos inimigos, coisas que parecem ser desvantagens podem, na verdade, ser deveras vantajosas. Discorre a respeito dos inimigos, dizendo que são observadores e sempre se voltam para coisas negativas que possuímos e nesse ponto, compara o inimigo com um abutre que é guiado sempre pelo odor da carniça. Eles buscam atacar nossos pontos fracos, mas surpreendentemente, essa intenção pode ser uma coisa boa na medida em que tende a nos tornar mais conhecedores de nós próprios, mais atentos em relação ao que somos e fazendo com que mudemos nossas posturas em alguns sentidos e estejamos sempre:”… tomando cuidado para viver, estando atento a si mesmo, não fazer nada com negligência, não dizer nada irrefletidamente, mas sempre observar, tal como em um regime cuidadoso, uma vida não exposta aos ataques… (PLUTARCO, 2015, p.40). Somado a tais cuidados e atenção que passamos a ter com nossos atos ao considerarmos a presença do inimigo, também podemos nos atentar às ofensas que ele profere a nosso respeito e nos perguntarmos se ele, de fato, não estaria encontrando em nós alguns traços indignos e ruins que devemos melhorar, isto é, o inimigo pode, de certa forma, “cooperar” para que nos tornemos pessoas melhores. 

Um outro ponto que achei bem interessante é quando o filósofo diz que não devemos ser médicos dos outros quando nós mesmos estamos cobertos de chagas, ou seja, ao invés de nos propormos a sempre criticar e reprovar determinadas falhas e fraquezas de outrem (tal como observamos os inimigos fazerem à exaustão), devemos antes meditar e buscar conhecer as nossas próprias, tendo-as sempre como foco, pois se criticamos o outro, devemos também sermos capazes de examinar a nós próprios afim de que possamos corrigir coisas internas para que nos tornemos melhores. Assim sendo, aqueles que nos censuram sem olharem a si próprios, tendem a se afastar de seus próprios erros e se tornam indivíduos estagnados, que não progridem e não melhoram: “Uma crítica lançada pela cólera ou pela inimizade cura um vício da alma, ou porque era ignorado, ou porque era negligenciado”. (PLUTARCO, 2015, p.64).

Além disso e ainda nesse mesmo contexto, os inimigos são capazes de reconhecer em nós certos aspectos negativos que muitas vezes, pessoas mais próximas com as quais convivemos não percebem… eis a “cegueira habitual” causada pelo amor, impede que vejam tais defeitos. Uma esposa ou um marido, por exemplo, quando apaixonados por seus consortes tem dificuldade de enxergar seus defeitos e, conforme mencionado, o inimigo, por sua vez, irá ter como foco a busca por tais defeitos. 

Há também um outro trecho interessante no qual Plutarco enaltece a nobreza daquele que elogia um inimigo quando este conquistou algo de maneira digna e merecedora. Reconhecer isso, engrandece o ser humano e o distancia da inveja e da rivalidade que são sentimentos prejudiciais. Por outro lado, caso nos deparemos com um inimigo que conquiste a honra e o sucesso de maneira corrupta e injusta, devemos nos alegrar porque nós, por nossa vez, permanecemos limpos e virtuosos – e, no final das contas, essa é que sempre será a verdadeira honra de qualquer homem. 

Conforme esclarecido no início do texto, o livro possui várias outras passagens interessantes e importantes. Aqui, pontuei apenas algumas delas, que foram as que mais me cativaram. Ressalto que sugiro a leitura integral do texto, mas, de qualquer forma, espero que o conteúdo que aqui selecionei, seja proveitoso e inspirador aos leitores!

REFERÊNCIA:

PLUTARCO. Como Tiras Proveito Dos Seus Inimigos. São Paulo, Edipro, 2015.

 

 

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