COMO UMA BAD GIRL DEVE SER:

By Acervo Filosófico

Por: Juliana Vannucchi e Pedro Bracciali

PARTE 1:

Ser: o que seria o ser? Ser o que se pensa ser? “Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou? Ser o que penso? Mas penso tanta coisa! E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos! ” – Assim se descobre o poeta português no modernismo da sua poesia. A tomar pela ficção na própria obra, ele vem a descobrir verdades enquanto fumava cigarros e olhava para a Tabacaria defronte. “Sempre uma coisa defronte da outra, Sempre uma coisa tão inútil como a outra”, conclui ele tristemente. Alguns anos antes do poeta e muitos anos depois dos gregos e sua filosofia de como o mundo deveria ser, um francês confinado em seu quarto pelo mau tempo da estação, num ano qualquer do século XVII, também pensava: E se não existissem todas as coisas que a mente pode supor? E se fosse subtraído do mundo tudo que nele existe, cuja existência possa duvidar? Ali, naquele quarto sozinho, como se não houvesse mais nada para colocar em dúvida a sua realidade, nem mesmo o quarto, nem a luz, nem o calor interno do aposento, nem o frio externo, nem o corpo…, entretanto é impossível que a mente, ela mesma não exista: Pensa. “Sou, porém uma coisa verdadeira e verdadeiramente existente. Mas, qual coisa? Já disse: coisa pensante. ” Estava assim fundamentada a subjetividade. “Eu, eu sou, eu, eu existo, isto é certo. Mas por quanto tempo? Ora, enquanto penso, pois talvez pudesse ocorrer também que, se eu já não tivesse nenhum pensamento, deixasse totalmente de ser.“ Agora na contemporaneidade: importa é a Intersubjetividade. Então, e o outro, existe? Quem são todas essas pessoas? E o outro constitui-se sempre de um mistério inapreensível. Só podemos conjecturar a seu respeito, ou idealizá-lo para o bem ou para o mal. O possível, somente é possível no limite dado pela linguagem: o acesso ao mundo e ao outro é um acesso mediado linguisticamente (no mais completo sentido de que seja linguagem). Contudo, precisamos uns dos outros. Estamos constantemente sobre o olhar do outro. Um outro francês, este agora do Existencialismo, diria: “O outro é, por princípio, aquele que me olha” Ao apreender esse olhar, toma-se consciência de ser visto. A percepção cede lugar para uma modificação no próprio ser: Quando se é visto, tem-se de repente a consciência de si mesmo. “O caminho da interioridade passa pelo outro”. Mas… continua o discurso, o francês do cachimbo: um olhar alheio faz como que se revele para mim mesmo a existência do meu corpo como o que é externo! “Nossa existência como corpo no meio do mundo”, ou se preferir: “é como corpo-em-situação que eu me reconheço em minha alienação dando vantagem ao outro” Haha… fim.

PARTE 2: COMO UMA BAD GIRL DEVE SER THE CRAMPS Veja isso, pois: https://www.youtube.com/watch?v=PCYnTK9GvZc Saiu, originalmente, em 1997. Foi gravado nesse mesmo ano. (Like a Bad girl Should) é a quarta faixa do álbum Big Beat from Badsville, da banda americana de garage punk, The Cramps. Foi o sétimo álbum de estúdio do grupo. A voz forçada do vocalista despeja: Ooh é bom o seu aspecto Ooh é bom o seu cheiro Ooh é bom o seu sabor Como uma bad girl deve ser Corpos: Compreende-se – conclui o francês existencialista com seu cachimbo aquele do: “existo, logo penso, logo sou” – que apenas com o estudo da realidade dos corpos, se possa elucidar as relações concretas dos humanos, uns com os outros. Mas… a alma é mais fácil de se conhecer do que o corpo, pensava o outro filosofo francês –  este do: “penso, logo existo, logo sou” – confinado em seu quarto aquecido. E… continua a música: Ooh you look good Ooh you smell good Ooh you taste good Like a bad girl should O The Cramps tornou-se um dos maiores representantes do gênero underground. Mas a banda não se limitou a essa classificação de “grupo de garagem”, pois seus integrantes conseguiram criar uma atmosfera original em suas composições, que foi especialmente baseada em descarados e ousados apelos sexuais: Eu amo suas botas, suas roupas extravagantes Seu cabelo bufante, a sua meia-calça. Eu enfureço com sua jujuba cor-de-rosa Sua cesta do piquenique arranca meu mau humor Mas como deveria ser uma Bad girl? Essa pergunta lançada no Google retorna as respostas por elas mesmas. E elas dizem que uma garota má faz tudo o que uma garota boa jamais faria. E o que uma garota boa faz, então? Bem… esta não faz o que a outra faz, e vice-versa; assim, o ser-no-mundo de uma define o ser-no-mundo da outra, ainda que ao contrário. Garotas más, dizem ainda, fazem o que todas desejam fazer, mas não tem coragem. Mas, retornemos aos The Cramps: Erik Lee Purkhise (1946 – 2009), ou também, Lux Interior, fundou o the Cramps juntamente com sua esposa, Poison Ivy (Kristy Marlana Wallace – 1953). Em Nova York, a partir de 1975, tornaram-se parte do crescente cenário punk. Pagina oficial: www.thecramps.com Conta-se, alhures, que Lux Interior, demonstrou certa insanidade comportamental desde o início da carreira. Escrevia canções sobre sexo, vestia roupas excessivamente justas, e se contorcia no palco. Certa vez, no ano de 1978, fazendo jus à sua imagem, acompanhou a banda em um show extremamente atípico, realizado em um hospital psiquiátrico. Relata-se que, em certo momento, durante essa apresentação, Interior dirigiu-se ao público para uma tentativa amigável e formal de apresentação da banda: “Somos o The Cramps, de Nova York, e viajamos 5.000 quilômetros pra tocar pra vocês”. Alguém respondeu: “Vai se foder!”. O vocalista manifestou-se: “Uma pessoa me disse que vocês são loucos, mas não tenho lá muita certeza disso… Vocês me parecem bem normais”. Talvez Lux, em algum aspecto, tenha se identificado com os pacientes. E, apesar das patologias que caracterizavam aquela plateia, é possível que o músico realmente tivesse certa dose de loucura correndo por suas veias. E afinal, quem de nós não tem? E qual seria a definição de normal? Certamente é uma definição complicada de ser feita, embora neste caso, o que separe “normal” de “anormal”, seja provavelmente, as condições psicológicas dos pacientes do manicômio. Mas eles certamente nem ao menos possuíam noção de que eram os “anormais” ali, então, podemos supor que dentro da realidade deles, estava tudo bem, já que não tinham senso crítico para diferenciação de normalidade e anormalidade. Ou será que eles possuíam? É difícil definirmos e garantirmos com certeza (absoluta), até que ponto nossas especulações racionais e/ou empíricas possam compreender uma dessas mentes “anormais” que carreguem algum tipo de patologia. E, aliás, só para talvez complicar e estender um pouquinho a reflexão, façamos um levantamento: nem as mentes “não-patológicas” podem sem entendidas. E vamos mais a diante se considerarmos que essas mentes talvez não possamos entender, podem também não compreender a si próprias. Pois pergunto: até que ponto nós nos conhecemos? Se caso, estejamos sempre a mercê do devir, vivendo constantemente entre alterações de pensamento, a oscilações emocionais, enfim, sempre sujeitos a mudanças físicas e mentais, então, como já disse Alice (isso mesmo, a menininha do País das Maravilhas): “Neste exato momento, não sei quem sou… Quando acordei hoje de manhã, sabia quem eu era, mas acho que já mudei tantas vezes desde então”. Talvez, Lux Interior simplesmente tivesse consciência da existência deste princípio inconstante que faz parte da nossa realidade. Interior sabia que não sabia quem era, e sabia que sabia disso. Ou talvez, nada disso.

COMO UMA BAD GIRL DEVE SER

                                        Poison Ivy e Lux Interior.

Referências:

DESCARTES. Meditações sobre Filosofis Primeira. 2. ed. Campinas: Editora Unicamp, 2013. 232 p. (Coleção Multilíngues de Filosofia Unicamp). Tradução, notas prévias e revisão Fausto Castilho.

PESSOA, Fernando. A Tabacaria: in: Poesias de Álvaro de Campos: in: Fernando Pessoa: Obra Poética. Rio de Janeiro: Editora Nova Aguiar, 1983. p. 296 – 300. Seleção, Organização e Notas de Maria Gaspar Simões. Série Biblioteca Luso-Brasileira.

SARTRE, Jean-paul. O ser e o Nada: Ensaio de Ontologia Fenomenológica. 15. ed. Petrópolis: Vozes, 2007. 784 p. Tradução e Notas de Paulo Perdigão. Título original “L’être et le néant: Essai d’ontologie phénoménologique. 1943.  

 Category: MÚSICA e FILOSOFIA

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