“Da Virtude e do Vício” – VOLTAIRE:

By Acervo Filosófico

Por: Juliana Vannucchi

“Da Virtude e do Vício” – VOLTAIRE (Tratado de Metafísica Capítulo IX):

Nas primeiras linhas do capítulo em questão, Voltaire escreve que, em todos os lugares, as leis existem para que uma sociedade funcione, sendo que a maior parte dessas leis são arbitrárias, pois são formuladas e concretizadas a partir de interesses, paixões e opiniões pessoais. Além disso, elas também dependem de aspectos da natureza local em que uma sociedade se organiza.

Nesse sentido, surgem relativismos em relação às leis, embora, apesar de suas divergências de origem e de aplicabilidade, haja um traço comum em todas elas, independente do local e do contexto em que são criadas. Dentro deste contexto, denomina-se VIRTUOSO aquilo que está conforme às leis estabelecidas e CRIMINOSO o que lhes é contrário (…)”. (VOLTAIRE, p.80, 1978). Portanto, em lugares divergentes, embora haja notáveis variações na compreensão da virtude e do vício, também há uma assimilação inalterável sobre a definição de ambos os termos, pois por virtude, entende-se sempre aquilo que é útil, e que consiste no hábito de se fazer o que é agradável, enquanto o vício, por sua vez, consiste no que é desagradável, ou que causa algum dano social.

Assim, parece haver na natureza humana certas leis naturais “que os homens são obrigados a respeitas em todo o universo malgrado as demais leia que possuem” (VOLTAIRE, p. 81, 1978).

“Ser desprezado por aqueles com quem se vive é coisa que ninguém pôde e jamais poderá suportar”. (VOLTAIRE, 1978, p.82).

O bem social é base de medida da moral, por isso as ideias de justo e injusto ou de bem e de mal sofrem alterações de acordo com necessidades. Existem divergências acerca da aplicação e criação das leis. Isso, conforme mencionado antes e novamente recapitulado pelo filósofo, gera relativismos acerca do que é virtude, vicio, bem e mal. Vejamos um exemplo ilustrativo que Voltaire oferece acerca dessa situação: “entre os romanos, os pais tinham o direito de vida e de morte sobre seus filhos. Na Normandia, um pai não pode tirar um óbolo sequer dos bens de um filho, mesmo do mais desobediente”. (VOLTAIRE, p.80, 1978). Ou, então: “temos horror do pai que dorme com sua filha, e consideramos infame, com o nome de incestuoso, o irmão que abusa da irmã. Mas numa colônia nascente, onde somente sobrasse um pai com o filho e duas filhas, o cuidado tomado por esta família para não deixar perecer a espécie seria encarado por nós como uma ótima ação”. (VOLTAIRE, 1978, p. 81). Assim, pode-se supor que os homens, por leis naturais, “são obrigados a respeitar em todo o universo, malgrado as demais leis que possuam”. (VOLTAIRE, 1978, p.81). A benevolência seria um exemplo de sentimento inato que faz com que os homens sempre busquem auxiliar uns aos outros.

Há, logo na sequência do capítulo, e ainda como complemento dos exemplos acima, uma observação acerca da mentira, que é considerada a maior infâmia dentre as más ações humanas, pelo fato de que o homem não gosta de ser enganado. Porém, Voltaire observa que ainda assim, há situações em que a mentira é considerada heroica.

Como consequência de toda a reflexão feita até o momento, conclui-se que, portanto, a moral (virtude e crime, bem e mal) não existe independente do homem, pois assim como o frio e o quente, o odor e os sabedores existem especificamente para um indivíduo, o mesmo acontece com o bem e com o mal. Assim, supor que, por exemplo, o calor ou o odor existem sozinhos, seria um raciocínio ridículo.

Deus não deixou aos homens nenhuma lei específica e determinada, ele não postou modos de conduta diretamente ao homem, não disse, “isto é vício em si, isto é virtude em si”. Como não há lei caída do céu, o homem deve atentar-se à razão, que seria uma vantagem que Deus atribuiu ao ser humano. Neste ponto é que surgem as leis, feitas com base na razão, para diretamente para pessoas cujo bem-estar consiste em desorganizar a vida dos outros. Neste ponto, são feitas algumas considerações sobre a relação entre leis e poder: o autor menciona quer o poder do príncipe é abominável e que ainda assim, ele é sempre honrado pelos homens que condena à miséria. Esses príncipes são os responsáveis por ditar, em nome de Deus, o que é o bem e o que é o mal (sendo que nunca houve uma palavra de Deus sobre isso, diretamente para o homem), e isso gera guerras que são movidas pelo instinto de auto-conservação. Conforme escreveu Voltaire: “Todos os principais que tanto mal fizeram aos homens são os primeiros a gritar que Deus deu as regras do bem e do mal”. (VOLTAIRE, 1978, p.82). Ainda em relação a este desejo de auto-conservação, menciona embora Deus tenha colocado tanto homens quanto animais na terra para que conduzissem suas vidas da melhor maneira possível, ainda assim surgem conflitos no qual há sempre um ser infeliz: “Infeliz é a mosca que cair na teia da aranha; infeliz o touro que for atacado por um leão, e infelizes os carneiros que forem encontrados pelos encontrados pelos lobos” (VOLTAIRE, 1978, p.82).

Até o momento, o texto, de maneira geral, esclarece que não existem vício e virtude em si, e que o homem, em consequência disso e de sua capacidade racional, cria leis e, assim, não pode fazer tudo o que deseja, pois está sujeito à punições consequentes destas leis que cria e estabelece. Assim, alguns homens são punidos pela aplicação de castigos, outros, porém, deixam de agir simplesmente pelo medo de serem castigados. Dentro deste quadro, aquele que descumpre as leis costuma ter uma vida de miséria, e tende a tornar-se objeto de desprezo e horror diante dos outros, pois o homem que age com perversidade é sempre identificado entre seus semelhantes. Essa situação social é incômoda, pois qualquer indivíduo é incapaz de suportar essa situação de desprezo público, sendo que esse incômodo ocorre por causa do orgulho, que é um traço natural do ser humano: “Ser desprezado por aqueles com quem se vive é coisa que ninguém pôde e jamais poderá suportar”. (VOLTAIRE, 1978, p.82). A consequência disto é que o indivíduo compreende que deve ser honesto (para evitar o castigo e o desprezo) e, por isso, ainda que o vício e a virtude não existam em si (isto é, independente de um sujeito), o homem sempre tenderá a agir com honestidade e que “nada o impedirá de ser bom cidadão e de cumprir todos os deveres da vida”. (VOLTAIRE, 1978, p.82).

Por fim, nesta última parte do livro, Voltaire (VOLTAIRE, 1978, p.82) observa que ao longo da história, todos os filósofos foram as pessoas mais honestas do mundo. São citados alguns exemplos, como Locke, Spinoza, Bayle, Collins, entre outros. Estes homens mencionados não foram virtuosos somente pelo temor do desprezo social, mas simplesmente pelo gosto de poder agir virtuosamente, pois está é uma atitude honrosa. O capítulo termina com o seguinte fechamento: “Aqueles que necessitassem de socorro da religião para serem pessoas honestas seriam lastimáveis, e monstros da sociedade, se não encontrassem em si próprios os sentimentos necessários a essa sociedade, obrigados a buscar alhures o que deve ser encontrado em nossa natureza”. (VOLTAIRE, 1978, p.83).

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA:

VOLTAIRE. Tratado de Metafísica, coleção “Os Pensadores”. São Paulo: Editora Abril, 1978.

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