DEFESA DE SÓCRATES – PLATÃO:

By Acervo Filosófico

Por: Juliana Vannucchi

Sócrates (469 a.C-399 a.C) foi um dos maiores filósofos da história do pensamento ocidental, e até hoje seu legado é amplamente estudado e discutido dentro e fora do meio acadêmico. O pensador grego, no entanto, não escreveu nenhum livro, e o que se conhece a respeito de sua vida e filosofia provém de fontes como Platão, Xenofonte e Aristófanes (especialmente do primeiro). Aos 60 anos, devido aos seus hábitos filosóficos, Sócrates foi acusado, condenado e morto em Atenas. Na obra “Defesa de Sócrates”, sobre qual este conteúdo se baseia, seu pupilo Platão retrata as alegações do mestre diante de seus três acusadores (Anito, Meleto e Licão) e de outras pessoas que estavam presentes durante a condenação. A seguir, apresentaremos algumas das mais relevantes passagens do livro. 

No início da obra, Sócrates se propõe a explicar a todos os presentes em seu julgamento qual é a sua missão de vida. Conta que, certa vez, um amigo de infância chamado Querofonte, foi ao Oráculo de Delfos e lá perguntou se haveria no mundo um homem mais sábio do que Sócrates. Foi-lhe respondido que não: ele era o mais sábio de todos. Quando Querofonte contou ao amigo sobre essa experiência, o filósofo ficou intrigado e incrédulo, pois estava consciente de que nada sabia: “Que quererá dizer o deus? E que sentido oculto pôs na resposta? Eu cá não tenho consciência de ser nem muito sábio nem pouco; que quererá ele, então, significar declarando-me o mais sábio?”. (PLATÃO, 1972, p. 14).  Curioso, e empenhado em desvendar as palavras do Oráculo, Sócrates decidiu procurar um político que lhe era conhecido e que julgava ser notavelmente sábio. Todavia, após dialogar com o sujeito, percebeu que o mesmo, na verdade, não era tão sábio quanto pensava ser, pois não reconhecia os limites de sua ignorância. Assim, conclui: “Mais sábio do que esse homem eu sou; é bem provável que nenhum de nós saiba nada de bom, mas ele supõe saber alguma coisa e não sabe, enquanto eu, se não sei, tampouco suponho saber”. (PLATÃO, 1972, p. 15).

“La Mort de Socrate” (1787), de Jacques Louis-David. Metropolitan Museum of Art, New York.

Após essa experiência acima relatada, o filósofo grego também dialogou com outros políticos, poetas e artífices que eram considerados sábios. Contudo, o contato com essas pessoas o levou à mesma conclusão que tivera com o primeiro homem com quem conversou: a de que nada sabiam, embora pensassem saber algo. Dessa forma, percebeu que sua tarefa divina seria sempre questionar qualquer um (fosse cidadão ou forasteiro) para que tentasse, quando necessário, mostrar para tais indivíduos o quanto estavam enganados em relação às suas supostas sabedorias. Sócrates pretendia, portanto, despertar-lhes da ilusão do falso conhecimento para que percebessem suas ignorâncias. 

Na sequência do livro, após os comentários sobre sua missão divina, o filósofo se propôs a examinar as acusações contra ele feitas, que foram as seguintes: “Sócrates é réu de corromper a mocidade e de não crer nós deuses em que o povo crê e sim em divindades novas.” (PLATÃO, 1972, p.17). O pensador rejeitou essas recriminações, dizendo que eram todas falsas, injustas e contraditórias (em vários momentos ao longo do texto, faz questão de ressaltar o quanto está sofrendo uma injustiça). Dentre seus acusadores, critica especialmente um deles, que é Meleto.

Posteriormente, faz algumas reflexões interessantes sobre a morte e que considero válidas de menção: disse que há indivíduos que pensam conhecer a morte, porém, na verdade, dela nada se sabe. É possível que a morte seja o maior de todos os bens, embora geralmente a temam como se fosse o maior dos males, sendo que essa postura de temor seria um ato de ignorância, pois consistiria numa maneira de se supor saber o que não se sabe. Sócrates também esclarece aos presentes que prefere encarar a morte do que renunciar à filosofia, pois esta seria uma missão divina que o levava a propor ao homem que cuidasse e melhore sua alma e que reconhecesse os limites de sua ignorância (eis os grandes deveres que Sócrates encontra em sua vida). Diz ainda que quem perde com sua morte, não é ele, mas sim aqueles que ficam vivos, pois nada poderia haver desgraça maior do que cometer uma injustiça tal qual seus juízes estavam cometendo ao condená-lo. 

O pensador grego decide contar ao público presente que sua missão divina começou em sua infância, quando escutava uma voz em sua mente. Complementa seu relato contando que costumava dialogar com qualquer indivíduo, fosse ele rico ou pobre, jovem ou velho, e também afirma que sempre recusou receber pagamento por sua tarefa divina. 

Sequencialmente, ocorre a votação e Sócrates é condenado e sentenciado. Sua pena é a morte. Ao saber o destino que lhe aguardava, já na parte final do livro, faz mais dois discursos, um dirigindo-se aos que o condenaram e outro aos que o absolveram, sendo que em ambos, suas palavras consistem em reflexões a respeito da morte. Aos primeiros, diz que se esperassem um pouco mais de tempo, o veriam morrer naturalmente, já que se encontrava numa idade avançada. Afirma também que mais difícil do que escapar da morte, é escapar da maldade, e que ele foi pego pela primeira, enquanto seus acusadores pela segunda. Ainda profere diretamente aos que o sentenciaram: “Eu vos afianço, homens que me mandais matar; que o castigo vos alcançará logo após a minha morte e será, por Zeus, muito mais duro que a pena capital que me impusestes”. (PLATÃO, 1972, p.31).  Posteriormente, dirige-se aos que absolveram, dizendo que, ao longo de sua vida, sempre que estava prestes a cometer um erro, escutava a voz alerta e divina de seu daemon que interrompia seus atos. Porém, notava que durante todo o tempo em que esteve presente e se manifestou no julgamento, nada escutou, e a isso atribuía o fato de que: “É possível que seja um bem para mim o que aconteceu e não é forçoso que acertemos quantos pensamos que a morte é um mal.” (PLATÃO, 1972, p. 32). Ou seja, Sócrates conclui que sua sentença e condenação, no final, terão um significado positivo para ele, pois caso contrário, certamente teria escutado a voz de seu daemon. Ainda reflete que a morte ou é uma mudança da alma para outro lugar ou é como um sono no qual não há nenhuma sensação. Considera que as duas alternativas são vantajosas para aquele que deixa este mundo.

Por fim, Sócrates demonstra preocupar-se com o futuro de seus filhos, e faz um pedido final aos presentes: que atormentem-os quando crescerem, lembrando-os que devem sempre se preocupar especialmente em preservar e engrandecer suas virtudes e não se entregar às honras e riquezas. A última frase do livro, é uma frase clássica proferida por Sócrates, que faço questão de compartilhar para fechar o texto: “Bem, é chegada a hora de partirmos, eu para a morte, vós para a vida. Quem segue o melhor rumo, se eu, se vós, é segredo para todos, menos para a divindade”. (PLATÃO, 1972, p.33). 

REFERÊNCIA:

XENOFONTES, Apologia de Sócrates. In: Os Pensadores – Sócrates. São Paulo: Abril Cultural, 1972.

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