ENTREVISTA EXCLUSIVA COM JESSIE EVANS:

By Acervo Filosófico

Por: Juliana Vannucchi

Colaboração: Casagrande

1. Primeiramente, por favor, nos conte um pouco obre sua carreira e sobre sua vida. Como eram as coisas antes da música? E como são agora? O Budgie (ex-Siouxsie And The Banshees) participou do seu primeiro álbum. No ano passado o conheci pessoalmente e foi através dele que escutei sua música pela primeira vez!

Eu venho de uma cidade na costa norte da Califórnia, sou a mais velha de 6 crianças. Cresci em uma família de músicos e, por isso, a música e a arte sempre foram minhas paixões. Aos 15 comecei a aprender saxofone e aos 16 consegui uma passagem de ida para Londres. Depois de um ano vivendo em Dublin, ocupando lugares abandonados em Amsterdã, pegando caronas e tocando na rua por dinheiro na França e Espanha, retornei para São Francisco para realizar meu sonho de começar uma banda. Sempre soube que eu poderia fazer o que quisesse na minha vida, mas a partir do momento em que decidi que a música era realmente o meu foco, fiquei presa neste caminho. Ver o mundo através da música é maravilhoso porque onde quer que você vá, haverá pessoas para te ver e você terá uma maneira de se conectar com essas pessoas e de se relacionar com elas em um nível profundo. Música é a linguagem universal através da qual você não precisa compreender as palavras. Eu vivi sete anos em São Francisco e lá toquei saxofone em um grupo só de mulheres que se chama “Subtonix”. Cantei e toquei baixo na banda “The Vanishing”, também contribuí com a “Glass Candy” e fiquei nove anos em Berlim, onde formei a “Autonervous” com Bettina Koster (do “Malalria!”) e colaborei também com a “Lydia Lunch” e eu morei dois anos em São Paulo antes de voltar para onde eu comecei… Na costa norte (do Brasil!). Eu conheci o Budgie em Berlim através do meu baterista Toby Dammit (da banda “Iggy And The Stooges”) e nós tocamos juntos em Europa além de também tocarmos juntos em meu primeiro álbum solo, chamado “Is it Fire?”. Ele é um de meus bateristas favoritos e é uma pessoa muito legal.

2. Eu li em uma entrevista para a TV Cultura (do Brasil) que seus sons “falam sobre amor e liberação”, e depois você disse: “Eu acredito em liberdade e liberação”. Eu gostaria de saber: o que você entende por liberdade?

Eu parto da perspectiva de ser uma garota branca da Califórnia, então percebo que sou mais privilegiada do que a maioria. Apesar do fato de estarmos acorrentados no plano físico, eu acredito que liberdade é um estado mental. Reflete na capacidade de expressar a unicidade do ser sem medo ou julgamento, e lutar para ser quem você é, e viver a vida que você ama. Você pode se ajustar e trabalhar em qualquer situação que esteja acontecendo em sua vida e ver algo de bom nela para esclarecer a si mesmo e também aos outros. Quer dizer, consiste em ter a habilidade de transformar qualquer situação em algo que seja progressivo. Salvador Dalí, certa vez, disse: “Liberdade de qualquer tipo é o pior para um artista”. Acredito que o que ele quis dizer com isso é que a opressão é a “argila” atual, a inspiração, a ferramenta da qual nós fazemos valer como um artista. Se não existisse desejo de mudança ou esclarecimento, nós não teríamos que trabalhar duro. É como quando você está amando alguém e o mundo para, sabe? Tudo em uma harmonia perfeita e sem haver qualquer razão para expressar como você se sente porque tudo está simplesmente perfeito. Em minha experiência, há menos desejo em criar naqueles momentos e mais em vivê-los. Tudo na vida está aí por uma razão, e para crescermos e nos tornarmos mais compassivos e pacientes, usando a experiência. A batalha conforme você pinta para criar uma imagem que queira!

3. Você viveu em países diferentes. Quais dos países em que viveu considera mais livres? Por quê?

Em Berlim eu senti muita liberdade, pois você pode fumar baseados na rua e as pessoas não têm vergonha de seus corpos. Você pode ir a um lago no verão ou na casa de banho em um canal congelado no inverno e algumas pessoas vão estar nuas. Isso é normal. O Brasil é mais livre para mim de outras formas. Aqui eu me sinto mais relaxada andando pela rua onde pessoas amigavelmente se cumprimentam. A Califórnia é livre porque maconha é legalizada e eu me sinto mais livre para me expressar em minha língua nativa.

4. Você provavelmente percebeu que os brasileiros estão insatisfeitos com a política do país. O que pensa sobre isso? Como você enxerga a política do Brasil? Como você percebe isso em sua vida cotidiana?

Estou mais interessada em meu ambiente imediato e em coisas que posso afetar diretamente. Eu acho que você pode dizer que sou um tipo de libertária ou anarquista, conforme eu acredito que existam uma ordem natural e a moralidade das pessoas de saber o que é certo e o que é errado e eventualmente voltar ao estado natural de coexistência e trabalho mútuo. Acho importante amar a si mesmo e purificar o corpo e o ambiente como se fossem um templo, para que então você possa trabalhar para “fora”, dando amor e suporte à sua família, seus amigos, sua comunidade. Todo mundo é responsável por tudo em todo momento. Se há lixo na rua, pegue, não espere o outro fazer. Se é possível ajudar alguém, faça.

5. Comparando o Brasil com outros países em que você esteve o que você pensa ser bom e o que pensa ser ruim aqui?

Sou muito grata por ter ficando grávida no Brasil. Tudo o que tive que fazer foi ir a um hospital com meu passaporte estadunidense (e um Visa com data vencida) para conseguir meu cartão do SUS, com o qual estive apta a ter todo o processo de gravidez e nascimento 100% pago pelo governo local! Eu me senti bem acolhida, tendo uma estadia de cinco dias no hospital onde meu bebê tomou banhos de luz e depois todos foram mandados de volta com uma sacola de roupas. Saúde de graça, cuidados com crianças de graça, aluguel e comida baratos… o Brasil torna-se um excelente lugar para se viver nessa etapa de minha vida.

6. Você gosta de algum tipo de música brasileira? Algum cantor ou banda em especial?

Kas Dub, Lei di Dai, Flora Matos, Rita Lee, Gal Costa. Shirley Casa Verde, Barbara Bivolt, Jr. Little Car, Lilo de las Zikas, Shirley Alves de Souza, Maria Elvira, Erica Alves e Ludmila, estes são alguns.

7. Você acha que os artistas brasileiros têm boas oportunidades aqui? Como está sua carreira no Brasil?

Eu acho que você tem que apreciar o processo. Com a música há longas pausas entre os períodos de turnê mais bem sucedidos no exterior, onde você está apenas terminando álbuns e vídeos e esses momentos são sempre mais difíceis financeiramente. É uma coisa linda de se criar e você precisa apenas manter-se forte, focado e acreditar naquilo que está prestes a finalizar. Mesmo se sua música não alcançar uma grande audiência, não subestime o efeito que um som pode ter tido em uma pessoa.

8. Por falar nisso, você acha que bandas underground ainda podem ser bem sucedidas?

Eu acho que todos têm potencial para ter sucesso e não se trata apenas de conseguir dinheiro ou fama, mas realmente fazer o que está em seu coração e não deixar nada parar você. Como uma artista underground, eu definitivamente acho mais fácil fora dos EUA, pois nunca fui capaz de fazer dinheiro com concertos lá. Nos EUA, “música” ainda não é uma opção quando você preenche um formulário e eles perguntam qual o seu trabalho. Eu certamente me sinto mais respeitada na Europa, México e América do Sul. É muito difícil romper com o senso comum/onda popular (mainstream) e isso requer um alto investimento de grandes companhias que possuem um plano diferente do que simplesmente deixar a pessoa ter livre arbítrio sobre o que ela quer. Eu penso que “vender sua alma ao demônio” é uma realidade. Olhe o que aconteceu com Lauryn Hill, Michael Jackson, Prince, para citar alguns… Mas eu acho que talento, coração e trabalho duro podem levar o artista longe.

9. O que significa arte para você? Como é possível reconciliar a “arte” e a “indústria”?

Pra mim, arte é a colheita de tudo aquilo que o indivíduo adquire através da experiência, tanto o trabalho como a fruição da experiência. Penso que a responsabilidade do artista é refletir a respeito da sociedade e da realidade cotidiana de sua vida, transformando essa atitude num espelho no quais outros membros da sociedade possam se reconhecer, ganhar força e saber que não estão sozinhos. Indústria é a máquina na qual entramos para trabalhar os campos de nossos sonhos.

10. Poderia citar alguns artistas a inspiram? Fale-me sobre escritores, pintores, diretores de cinema, atores, filósofos, músicos ou, então, qualquer personalidade…

Posso citar Marc Bolan, Josephine Baker, Salvador Dalí, Anais Nin, Poly Styrene, Lydia Lunch, James Chance, John Coltrane, Federico Fellini, Pedro Almodóvar, Alejandro Jodorowski, Frida Kahlo, Carmen Miranda, Sun Ra, Fela Kuti e outros.

11. Qual sua visão sobre o “passado” e o “futuro”? Como os define?

Passado é tudo aquilo que vivi, futuro são as sementes que estou plantando no momento com meus pensamentos e minhas intenções.

12. E quais seus planos para o futuro?

Eu estou finalizando um álbum com um cantor angolano chamado Pitshu e também com dois produtores: Kas Dub, de São Paulo e Victor Rice (NYC/São Paulo). Além disso, estou envolvida com produção de Reggae com batidas e músicas novas e originais. Meu próximo álbum solo terá uma batida que lembra uma vibe de praia tropical… Também estou trabalhando em um documentário sobre a produção dos álbuns de toda minha vida aqui. Trabalhando em um novo álbum solo, uma linha de praia inspirada em roupas e arte de bandeiras.

13. “Viver é sofrer, sobreviver é achar algum sentido no sofrimento”. – Friedrich Nietzsche. Você concorda ou discorda dessa sentença? O que pode dizer a respeito?

Eu acho que estamos todos aqui como “bebês”, para aprender e crescer. Não se atenha, siga seu fluxo e permita-se a humilhação através da experiência.

14. Você gostaria de dizer mais alguma coisa?

Além de fazer arte, eu acredito que uma pessoa pode viver como arte. Isso significa abraçar e tornar-se beleza em si, em todos os momentos, tanto física quanto espiritualmente. Eu gosto do processo de me maquiar e de me vestir como um pintor que vai criar uma pintura. Assim, posso viver uma beleza não só para criar as coisas ou para gravar , mas sempre podendo oferecê-las ao público. Sou Budista e acredito que somos todos deuses.

*Imagens feitas por Umberto Conceição.

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