FILOSOFIA DA MENTE – INTRODUÇÃO:

By Acervo Filosófico

Por: Juliana Vannucchi

Colaboração: Eduardo Faria

Através desse texto, vamos expor alguns dos principais problemas, linhas teóricas e pensadores que ao longo do tempo moldaram as reflexões filosóficas que compõe Filosofia da Mente. Esse conteúdo poderá, dessa forma, servir tanto como “portas de entrada” para o assunto em questão ou como um norteamento para os leitores que pretendem estudar e pesquisar o tema de maneira mais profunda. 

Em nosso cotidiano, estamos constantemente usufruindo de nossa consciência. Pensamos sobre diversas coisas, tomamos variadas decisões, lidamos com emoções e nos relacionamos tanto com o mundo exterior, quanto com o mundo interior. Porém, o que, afinal é a consciência? O que é a minha mente? O que a sua mente? Seria possível obter conhecimento plano ou parcial a respeito da natureza da mente? A Filosofia da Mente é um campo de estudo da filosofia que reflete a respeito de questões como essas acima expostas. Ela se ocupa de compreender (ou ao menos tentar compreender) qual é a natureza da mente, isto é, sua essência última. Para tal, se debruça em vastas possibilidades e levanta uma série de questões que exploram diversos aspectos da consciência. Conforme Cluadio Costa escreve (2005, p.8): “A filosofia da mente consiste em reflexões conjecturais acerca de estados (eventos, processos, disposições) mentais, que em conjunto constituem o que chamamos de mente”. Afinal, conforme pensamos sobre o assunto, podemos nos perguntar: ela algo físico ou não físico? Seu conteúdo é propriedade de alguma matéria? Qual a relação existente entre a matéria e a mente? Qual é a relação do mundo exterior com a mente? Será que existe “mundo exterior”? Estas são algumas das principais questões levantadas por essa área da Filosofia, embora haja outras indagações tão importantes quanto essas que foram apresentadas.

“O que quer que sejam a mentes, temos de descobrir um modo de compreendê-las em termos do mobiliário físico do mundo”. (2013, p. 353). Fonte da imagem: https://www.twgram.me/media/1849307317449747395_2048432032

Historicamente, podemos considerar que os problemas filosóficos acerca da natureza da consciência já existiam na Grécia Antiga, fazendo-se presente, por exemplo, no pensamento de Sócrates, que teria sido o primeiro filósofo a inclinar-se para questões morais, propondo nesse âmbito um dualismo entre alma e corpo, ressaltando a importância da primeira em detrimento do segundo (esse aspecto da filosofia socrática é notavelmente mencionado no Fédon, através das palavras de Platão). Contudo, os estudos sobre a Filosofia da Mente realmente ganharam força com o dualismo cartesiano, no qual a mente e o corpo são compreendidos como substâncias de naturezas diferentes, sendo que até os dias de hoje, esse problema levantado pelo pai do Modernismo, permanece sendo um dos pilares dessa área de investigação filosófica: “Pensadores tão antigos quanto os gregos clássicos tiveram algo a dizer sobre a nossa vida mental, mas a reflexão contemporânea sobre a mente tem sua origem em Descartes”. (Descartes “cria” o problema mente-corpo quando divide alma e extensão, res cogitans e res extensa. Lembremos que Descartes fundou o que chamamos de ontologia, isto é, ele separou, pela primeira vez, sujeito e objeto. O sujeito pode, assim, ser o próprio objeto, já que ele é visto diferentemente da natureza (conforme a lógica grega antiga), e o mundo exterior também passa a ser visto como algo diferente do sujeito, que, portanto, também é objeto. A partir disso, Descartes, em “As Paixões da Alma”, desenvolve sua teoria acerca da alma e do corpo, e cria, consequentemente, o problema mente-corpo – isto é, basicamente, como a mente se engata ao corpo e interage com ele?

Dentre as inúmeras teorias que compõe a Filosofia da Mente, há duas linhas clássicas, que possuem vários desdobramentos. São elas: Fisicalismo e Dualismo. A primeira propõe, em suma, que a mente não é algo além do cérebro, porque o que nós denominamos como mente é, na verdade, aquilo que está no próprio cérebro, sendo parte dele e podendo ser entendida, portanto, a partir do estudo do cérebro, do corpo e de suas respectivas funções e propriedades. Dentre alguns dos maiores expoentes dessa última vertente: Churchlands, Mario Bunge, J. A. Fodor. Enfim, para esta linha de pensamento, entenda-se: “O que quer que sejam a mentes, temos de descobrir um modo de compreendê-las em termos do mobiliário físico do mundo”. (GARVEY; STANGROON, 2013, p. 353).

O Dualismo pode basicamente ser dividido em duas categorias principais: Dualismo de Substâncias, cujos principais representantes são: Descartes, que afirmava que havia a res extensa, que seria a substância física, quantitativa, realidade exterior e a res cogitans, isto é, a substancia mental, qualitativa, racional, realidade introspectiva; Platão, com seu dualismo mente-corpo (é um anacronismo, mas se aplica numa interpretação contemporânea de Platão) e Santo Agostinho (mesmas considerações sobre Platão) e há o Dualismo de Propriedades, cujo um dos principais expoentes é Thomas Nagel, que considera que o conteúdo mental não pode ser reduzido ao cérebro (conforme propõe o Fisicalismo, que veremos na sequência), uma vez que as qualidades da experiência (como, por exemplo, o sabor de um determinado alimento, a cor de uma fruta, as emoções, etc.) são essencialmente mentais e por mais, por exemplo, que “mexamos”, vasculhamos, ou compreendamos a respeito das funções cerebrais, não somos capazes de encontrá-las. Dentro desse contexto, o sabor do alimento, a cor da fruta ou as emoções são o que Nagel denomina como qualias, que seriam as “qualidades“, coisas que não se encontram no âmbito quantitativo. Além de Nagel, há também outros dualistas de propriedades.

Note-se que o Dualismo não é exatamente o “oposto” do Fisicalismo, mas o debate sobre a relação mente-corpo gira em torno destas duas posturas. Além disso, há outras correntes de pensamento e outros caminhos que foram percorridos ao longo do tempo, ou seja, a Filosofia da Mente é um campo de estudo muito extenso e amplo. Dentro do próprio Dualismo, por exemplo, há também o Epifenomenologismo, o Ocasionalismo e outras teorias dualistas. Por outro lado, existe variadas vertentes fiscalistas, tal como o Behaviorismo Analítico, cujos principais nomes são Gilbert Ryle e Wittgenstein, o Eliminacionismo, defendido por nomes como P. Feyerbend e Paul e Patricia Churchland, a Teoria da Identidade de Herbert Feil e várias outras correntes reflexivas e seus respectivos representantes.

Outro ponto importante e digno de menção é que a Filosofia da Mente é um dos campos da filosofia que mais tende a dialogar com as outras ciências que tem mais buscado pensar fora do âmbito antropocentrista. A Filosofia da Mente dialoga, por exemplo, tanto com Sócrates quanto com Sperry – um grande neurocientista (Nobel) e filósofo da mente. Ela formula questões a partir da grande ignorância sábia de Sócrates para os neurocientistas, como Sperry, tentarem responder. Por exemplo: como é possível afirmar que há um conhecimento na proposição: a mente é diferente do mundo? E, então, os neurocientistas devem tentar responder a essa indagação e também a outras. Embora existam inúmeros caminhos, teorias, obras e possibilidades que procuram responder às diversas questões levantadas pela Filosofia da Mente, não há um “ponto final”, isto é, uma solução definitiva e, portanto, de certa forma, essas tais perguntas permanecem – ainda que em partes, sendo um verdadeiro enigma.

Consultoria e revisão de Eduardo Faria:

Eduardo Faria, é pesquisador bolsista ativo do CNPQ em Filosofia da Mente, com viés histórico-crítico. Possui o autor americano Thomas Nagel como foco de estudo, e atualmente está desenvolvendo a pesquisa “Relações entre fenômenos mentais e ação em Thomas Nagel”. Possui interesse nas áreas de Ontologia, Filosofia da Ação, Ética, entre outras.

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA:

COSTA, Claudio. Filosofia da Mente. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2005.
GARVEY, James, STANGROOM, Jeremy. A História da Filosofia. São Paulo: Editora Octavo, 2013. Tradução de Cristina Cupertino.

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