FILOSOFIA DA RELIGIÃO:

By Acervo Filosófico

Por: Juliana Vannucchi

A única certeza teológica sobre a qual encontramos um consenso quase universal entre os homens é que existe um poder invisível e inteligente no mundo“. (HUME, 2004, p. 43).

A frase acima ilustra algo que há milênios está fortemente presente no cotidiano da humanidade, que é a fé em uma ou mais forças que atuam e afetam a natureza do mundo em que vivemos. A partir de tal crença, ao longo do tempo, o ser humano edificou diferentes religiões, e a filosofia, que se dedica ao estudo de assuntos diversificados e que está sempre indagando e refletindo a respeito de tudo que tange a existência, empenhou-se em investigar também a religião e, assim, em meados do século XVIII, surgiu o termo “Filosofia da Religião” para designar o campo de estudo da filosofia que se debruça sobre os diversos aspectos que compõe a religião como um todo. Essa área do conhecimento levanta perguntas sobre a possibilidade da existência e natureza da alma, sobre os variados conceitos de Deus, a respeito da fé e outras questões. 

Tenha-se em mente que a religião, embora esteja intimamente ligada a elementos supersensíveis, é fruto da atividade humana. Assim sendo, essa área de estudo da filosofia não irá, como muitos supõe precipitadamente, voltar-se somente para questões metafísicas, mas também para questões de cunho antológico e ético. Nesse âmbito, surgirão reflexões variadas sobre as maneiras pelas quais elementos como a fé, as práticas ritualísticas, crenças e devoções são capazes de afetar um indivíduo, e como será o comportamento desde em seu cotidiano, devido à influência desses elementos. De maneira geral, a Filosofia da Religião, conforme cita Hick (1979, p.12): “Procura analisar conceitos como: Deus, o sagrado, a salvação, o culto, a criação, o sacrifício, a vida eterna etc. e determinar a natureza das expressões religiosas, em comparação com as formas da vida quotidiana, com descobertas científicas, com a moral e com expressões imaginativas da arte”. 

            Krishna, um dos avatares de Vishnu.

É importante mencionar que a Filosofia da Religião possui paralelos tanto com a Teologia quanto com a Ciência da Religião. Entretanto, esses três campos do conhecimento possuem também certas divergências e particularidades. O primeiro, conforme já citado, busca compreender a essência da Religião e consiste numa investigação profunda, questionadora, reflexiva e ampla a respeito da mesma, abrangendo meditações sobre vários de seus aspectos. Por sua vez, a Ciência da Religião”investiga a Religião e toda a sua manifestação de forma empírica, sem se questionar sobre a verdade ou as causas”. (GOMES, 2014, p.8). E por fim, temos a Teologia que é bem semelhante ao primeiro campo de estudo citado, sendo que esta volta-se para estudos sobre a fé e sobre a divindade, mas a diferença entre a Filosofia da Religião e a Teologia, segundo Gomes (2014, p.8) é que, respectivamente, a primeira “reflete sobre o homem e suas buscas pelo transcende e a outra apresenta o meio pelo qual o homem irá manifestar sua religiosidade”. 

Abaixo, iremos apresentar um dos principais tópicos cujos conteúdos encontram-se presentes no estudo da Filosofia da Religião. Lembremos, porém, que este campo do saber é amplo e se desenvolve em torno de inúmeros outros objetos de reflexão além dos que abordaremos a seguir. 

CONCEITO DE DEUS – Comparação entre o conceito Hindu e o Judaico-cristão: 

A conceitualização de Deus é um dos pontos centrais da Filosofia da Religião e, certamente, é um aspecto complexo, afinal, existem diferentes definições e características sobre Deus. Existe, por exemplo, dentro das doutrinas monoteístas, uma imagem de Deus diferente no Zoroastrismo, no Judaísmo, no Hinduísmo e etc. Façamos uma analogia para explorar o conceito hinduísta e judaico-cristão. Vejamos:

Muitas pessoas cometem o equívoco de compreender o Hinduísmo como uma religião politeísta. Contudo, ela é monoteísta, embora a divindade suprema, que é Brâman, se manifeste  em outros avatares (daí surge a comum falha de compreender essa doutrina como sendo possuidora de vários deuses). 

Brâman é a origem de todo o universo. Ele é Todo, o Absoluto, a Realidade Suprema, a Verdade; é aquele que é em si e por si e que está presente em todo o universo, que é sua criação. É o início, o meio e o fim da existência, se manifestando no homem através daquilo do Atman, ou, em outras palavras, do “espírito” – a essência divina do ser humano, o reflexo do macrocósmico no microcósmico. Em suas próprias palavras, presentes no Bhagavad Gita, através de Krishna, ele diz (2006, p.90-91) “(…) em minha essência, não sou manifesto ou visível aos homens (…) Inato e imortal sou Eu (…). Ele é Um, é Tudo. Ele está por trás dos contrastes que tecem o mundo visível e material (Maya) por intermédio dos sentidos. 

Agora, façamos uma breve análise a respeito de Deus no conceito judaico-cristão. Deus é infinito, inteligente, eterno e ilimitado – criador de si, início e fim de tudo. É um Ser onipotente e onipresente, sendo Ele o criador do mundo do universo, que irá governar e interferir em tais criações. Entre seus atributos, encontram-se a bondade e o amor incondicionais. 

Os dois conceitos, ao longo do tempo, germinaram diferentes Religiões e cada qual, por sua vez, reflete diferentemente no ser humano, induzindo as pessoas a agirem moralmente de maneiras variadas pelas distintas influências religiosas que recebem. Assim, a Religião parte do plano espiritual, se manifestando diretamente na dimensão física. É uma tarefa praticamente impossível estudar, pesquisar e falar da humanidade, em geral, sem, de alguma maneira, esbarrar na temática religiosa. Inúmeros filósofos se dedicaram a estudar esse assunto e vários  tentaram, através da argumentação lógica, provar a existência de Deus. Nesse caminho, muitos pensadores encontraram problemas, contradições e incoerências em suas buscas pela demonstração de que Deus existe, embora muitos, por outro lado, tenham encontrado indícios evidentes de que é necessária a existência de um Ser supremo que tenha originado a natureza ao nosso redor, mas o fato é que a pergunta pela existência de um criador continua sendo feita e a religião, embora esteja sempre se modificando conforme a sociedade também se altera, permanece constantemente presente e, de alguma forma – por vezes mais sutil, por vezes mais intensa – irá fazer parte de nossas vidas.

Para os leitores interessados na temática e/ou que buscam aprofundamento, indicamos a leitura dos textos abaixo: 

INVESTIGAÇÃO SOBRE A EXISTÊNCIA DE DEUS no Tratado de Metafísica de Voltaire:

5 FILóSOFOS QUE ACREDITAVAM EM DEUS

REFERÊNCIAS:

HUME, David. História Natural das Religiões. São Paulo: Unesp, 2004. 

Bhagavad Gita – A Mensagem do Mestre. São Paulo: Pensamento, 2006. 

HICK, John. Filosofia da Religião. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1970. 

GOMES, Rubens Raniery Fernandes. Introdução à Filosofia da Religião. Rio de Janeiro: Instituto Superior de Ciências Religiosas da Arquidiocese do Rio de Janeiro, 2014. 

 

 

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1 Comment

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    E em relação a bebida SOMA apresentada nos Vedas? Algumas interpretações apontam para o fato de SOMA ser comparado ao mesmo nível de importância de um Deus e quando lemos as escrituras surgem muitas dúvidas do que, de fato, seria SOMA. Existem substâncias que são ferramentas de autoconhecimento e que são utilizados de forma séria e ritualística por culturas indígenas e até no hinduísmo com a própria bebida SOMA.

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