FILOSOFIA ISLÂMICA:

By Acervo Filosófico

Por: Juliana Vannucchi e Paulo Pedroso

A Filosofia Medieval foi um período da história da filosofia ocidental que se desenvolveu na Europa durante os séculos V-XV. Nessa época da história, a Igreja Católica possuía grande poder e enorme influência sobre a sociedade europeia e este fato é fundamental para compreensão das raízes e essências presentes na Filosofia Medieval, pois se pode entender que a produção filosófica dessa época era diretamente influenciada pelo Cristianismo.

Foram os modernos que delimitaram historicamente a Idade Média e assim também fizeram com a Filosofia Medieval, e justamente na Modernidade, período em que a razão começava a triunfar sobre a religião, a Idade Média também se tornou conhecida como “Idade das Trevas”, pois ali teriam sido “barrados” conhecimentos científicos e filosóficos e, portanto, essa fase da história foi visto por muitos como  uma estagnação ou até mesmo um retrocesso.

No período medieval a filosofia cristã se apropriava de algumas características do Helenismo, absorvendo o que fosse útil, porém sob nova perspectiva e desprezando o que conflitasse com as sagradas escrituras. A explicação divina sobre quaisquer acontecimentos “amortecia” a curiosidade humana e a repressão religiosa silenciava a reflexão filosófica. Neste contexto, os principais objetos de reflexão da filosofia desse período eram a fé e Deus e houve uma tentativa intensa de conciliar fé e razão, embora, na realidade, a razão estivesse praticamente submetida à fé. Grandes pensadores se destacaram na Filosofia Medieval, tal como Santo Agostinho, Boécia, São Tomás de Aquino, Pedro Abelardo e muitos outros.

E foi justamente nesse contexto acima descrito que surgiu a chamada Filosofia Islâmica, cujos representantes também se empenharam em estabelecer reflexões acerca da fé e da razão.  Os filósofos desse período foram notavelmente importantes por terem retomado o aristotelismo e o reintroduzido no ocidente. Como existiram inúmeros representantes da filosofia islâmica e seus pensamentos são amplos e bastante complexos, irá ser abordado apenas alguns deles e de maneira resumida, visando familiarizar o leitor com seus pensamentos, vidas e obras. 

A filosofia islâmica, que por vezes também chamada de “filosofia árabe”, a fim a de ser separada da filosofia judaica, é considerada uma filosofia oriental, mesmo tendo influência sobre a filosofia ocidental. Em termos históricos e filosóficos, a filosofia islâmica se assemelha mais com os aspectos da filosofia ocidental cristã do que com as filosofias orientais (chinesa, mongol, japonesa…). O pensamento grego já havia atingindo parte do oriente muitos séculos antes do fechamento forçado das escolas filosóficas de Atenas, e com a expansão do Cristianismo, a filosofia de base grega aflorava em locais em que o Cristianismo ainda não havia chegado, isto é, no Oriente Médio.

Al Kindi:

Abū ibn Isḥāq al-Kindī ou apenas Al Kindi, como é geralmente conhecido, é considerado o primeiro filósofo árabe, embora fosse também um grande estudioso de várias áreas (geometria, astronomia, música, medicina, química e outras). Seus diversos trabalhos foram responsáveis por introduzir a filosofia grega no mundo árabe. Pouco de seus textos ainda existem, mas sabemos que várias de suas obras abordavam questões teológicas, tais como a natureza de Deus, a alma e a sabedoria profética.

Em sua obra “De intellectu” ele aborda o intelecto com base em Aristóteles, gerando a curiosidade dos árabes sobre o conhecimento grego. Embora não desenvolva muito o assunto, aborda e reflete as questões gregas, incluindo o problema dos universais e questões de lógica e metafísica.

Al Kindi destacava o intelecto sempre em ato, pois este é parte do espírito humano, mas não da alma, sendo superior a ela (Al Kindi considerava o espírito superior a alma). A manifestação do intelecto que transforma a inteligência potencial em ato, pode inclusive afetar a alma.

Para ele, a razão é a faculdade através da qual é possível ao homem reconhecer a estrutura fundamental da realidade.

Avicena:

Ibn Sina ou Avicena, nasceu em 908, no Uzbequistão. Ao longo de sua vida, foi um brilhante médico e também notável conselheiro político. Um fato impressionante a seu respeito, é que começou a estudar Medicina aos 13 anos, e com 21 começou a escrever textos sobre vários assuntos. Faleceu em 1037. Seus principais livros são: “O Livro da Cura”, “Cânone da Medicina” e “Livro dos Teoremas e Livro dos Avisos”.

Talvez seja o mais importante dos pensadores árabes. Ou, no mínimo, um dos mais. Para ele, a razão é a faculdade através da qual é possível ao homem reconhecer a estrutura fundamental que tange a realidade, que emana de Deus para os variados níveis estruturais que compõe o mundo. 

Além disso, um dos pontos mais interessantes de sua filosofia é o seu dualismo que sustentava a distinção entre corpo e alma, o primeiro sendo evidentemente material, e o segundo, existindo sem possuir nenhum tipo de características físicas. Esse dualismo, embora, é claro, com certas diferenças contextuais, também se encontrará presente nos pensamentos de Platão, seu antecessor e Descartes, sucessor. Também assegurava que a consciência era imortal e, portanto, permaneceria existente mesmo após a morte do corpo físico. 

Averróis:

Ibn Rushd, mais conhecido como Averróis, nasceu em 1126, numa parte da Espanha islâmica chamada Córdoba. Dentre seus principais livros, encontram-se Discurso Decisivo, Incoerência do Incoerente, Grande Comentário “Da Alma” de Aristóteles. Faleceu em 1195.

Averróis, importante nome da Filosofia Medieval e pensador de destaque da Filosofia Islâmica.

Não dá para falar em Filosofia Medieval sem mencionar o nome de Averróis. Foi grande estudioso e leitor dedicado das obras de Aristóteles. Acreditava que a existência de Deus poderia ser comprovada através do ajuste preciso entre o mundo e os seres humanos. Também considerava que o Alcorão não poderia ser estudado e interpretado de maneira literal e que a nesse mesmo livro, estava claro que se deve tentar conhecer o mundo através do estudo da Filosofia. Escreveu:

“Que a Lei convoca à reflexão sobre os seres e à busca de conhecimento sobre eles por meio do intelecto está claro em vários versos do Livro de Deus”. (…)

Porém, para Averróis, não seriam todas as pessoas que poderiam pensar filosoficamente. Quem não era parte da população educada, ou seja, os que eram incultos aceitariam o sentido literal do Alcorão. 

Maimônides: 

Nasceu em 1135, em Córdoba, na Espanha. Era membro de uma família judaica. Ao longo de sua vida, se estabeleceu em vários lugares diferentes, como no Marrocos e no Cairo. Estudou Medicina e também trabalhou com juiz rabínico. Faleceu em 1191. 

Teve grande interesse pelo Judaísmo e pela obra de Aristóteles. Para ele, Deus não poderia possuir atributos humanos, ou seja, não seria possível defini-lo sob perspectivas terrenas. Considerava que seria um grande e preocupante equívoco tentar humanizá-lo colocando nele atributos que são parte de nossa natureza. Além disso, defendia a ideia de que a Torá não poderia ser interpretada em sentido literal, pois era um livro complexo e compreender seu conteúdo era muito difícil. Escreveu vários livros importantes, mas muito possivelmente, seu principal legado é o Guia dos Perplexos. 

Al Farabi:

Ibn Muḥammad Fārābī ou Al Farábi, Inaugurou e disseminou uma linhagem de filósofos muçulmanos. Assim como na filosofia cristã, Al Farabi também unia filosofia e religião (no seu caso o Al Corão). Destacou-se em nos campos da Teologia, Ética, Economia e Ciência Política.

Não considerava Platão e Aristóteles distintos, mas complementares, e carregava o pensamento aristotélico ao mundo árabe e em conformidade com o Al Corão. Baseado na lógica aristotélica, Al Farabi escreveu sobre a distinção entre essência e existência e dizia que alegar que alguma coisa é, não implica em que esta coisa seja. Em outras palavras: a existência de vários homens não me permite identificar a essência do homem através de um homem específico. Em seu livro “Gema da Sabedoria” afirma:

“(…)Se a essência do homem implicasse sua existência, o conceito de sua essência seria também o de sua existência, e bastaria conhecer o que é o homem para saber que o homem existe (…)

Neste texto foram apresentadas as bases históricas da filosofia árabe e também um resumo do pensamento de alguns de seus principais expoentes. Mas se você se interessa pelo assunto e busca aprofundamento, sugerimos que leia as obras dos filósofos que mencionamos e que pesquise outros representantes do período, tal como Jalal Ad-Din Muhammad Rumi, Al Gazali, Avempace, Ibn Arabi, dentre outros.

REFERÊNCIAS:

GARVEY, James, STANGROOM, Jeremy. A História da Filosofia. São Paulo: Editora Octavo, 2013. Tradução de Cristina Cupertino.

GILSON, Etienne. A Filosofia na Idade Média. São Paulo: Editora Martins Fontes, 2001. Tradução de Eduardo Brandão.

 

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