FILOSOFIA POLÍTICA – Introdução:

By Acervo Filosófico

Por: Paulo Pedroso

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FILOSOFIA POLÍTICA – Introdução: As ciências exatas, ao longo do tempo, costumam apontar os erros do passado tendo com foco sempre o último resultado que elas obtém, corrigindo ou refutando os sistemas de pensamento anteriores. A filosofia, ao contrário, não invalida quaisquer tipos de ideias, apenas as analisa sobre novas óticas, partindo delas para desenvolvê-las ainda mais e alcanças novos sistemas, ou partindo delas e caminhando a sua oposição, também levando a outros sistemas.

Tendo em mente a diferença entre o método científico e o filosófico, vamos nos debruçar sobre a filosofia política, que não  trata de uma sobreposição de ideias, da melhor e mais atual sobre as ultrapassadas e errôneas, mas sim sobre uma análise de cada período em seu contexto, com apego à ética do momento e às relações de poder ali estabelecidas. A abrangência da filosofia política vai além do que sugere o nome, pois não se limita à política propriamente dita, embora seu maior filão seja a ética. Essa área também reflete sobre temas como Estado, governo, justiça e ainda aborda as relações sociais, relações de poder, convivência de agrupamentos humanos, liberdade, direito à propriedade… E por vezes,  ainda permeia por análises antropológicas.

Os conceitos políticos foram descritos e nomeados apenas na Idade Moderna, mas já eram temas presentes na filosofia desde a Grécia Antiga, pois lá, os gregos costumavam reunir-se em ágoras para debater sobre o tema e os filósofos (e também os sofista) participavam ativamente da política local, mesmo vários deles não sendo atenienses ou nativos das grandes polis gregas. A Ética, no período clássico da filosofia, era associada à política e a política, por sua vez, ao homem, descrito nessa época como um “animal político”. Assim sendo, era impossível dissociar a ideia de homem, política e ética, pois estes três tópicos eram considerados em conjunto. A separação entre estes temas ocorreu somente no período moderno.

Platão e Aristóteles dedicaram obras à filosofia política, que serviram de base para as relações políticas da época, para formas de governo e sistema de ideias. Contudo, durante a Idade Média, com o fortalecimento e domínio da Igreja Católica sobre o Ocidente, o mundo e a sociedade foram substituídos por Deus, e a Igreja aproveitou os sistemas de ideais políticos clássicos e os modificou conforme seu interesse. Ou seja, nesta época específica, a filosofia política foi analisada e refletida a partir de perspectivas católicas. 

Santo Agostinho e São Tomás de Aquino são dois dos principais nomes da Filosofia Medieval (Ocidental), uma filosofia que se funde com a Teologia. E claro, estes dois pensadores também tem obras dedicadas à filosofia política. Para Agostinho, por exemplo, o Estado (Católico) era o instrumento da aplicação da moral.

Mas com a queda do feudalismo e o enfraquecimento da Igreja Católica, que impedia o nascimento de novas ideias, eclodiu o Renascimento, que abriu um mar de possibilidades para a filosofia política, introduzindo novos sistemas, novas ideias e novas tecnologias, que se aliavam a uma população em crescimento, às grandes navegações e outros acontecimentos histórico-sociais. Todo sistema de relações humanas precisava ser revisto, era o nascimento da filosofia política moderna.

“O Príncipe” de Maquiavel é um dos livros mais importante da história. Essa obra consiste num manual de política de aproximadamente 100 páginas (dependendo do idioma e da encadernação) técnico e simples, e que foi um dos primeiros a abordar o que grande parte da população da época sentia e sabia, mas não podia expressar, pois caso o fizessem, possivelmente seriam executados pela Igreja Católica. Durante este referido período, a  Igreja, mesmo sem a soberania da Idade média, mas ainda detentora de um poder significativo, não se agradou com a obra de Maquiavel, visto que vários reis ainda eram reis católicos e sobre eles pairava certa divindade e apenas o Papa podia coroá-los, sustentando ainda a ligação entre política e religião advinda deste período histórico. Maquiavel foi ameaçado e perseguido pelo Vaticano e por reis católicos. Foi considerado o pai da política Moderna. Seu referido livro divide-se em 26 capítulos nos quais constam variadas reflexões sobre o Estado, sobre a Monarquia, a República e, especialmente, sobre o papel e função do governante (o “Príncipe”). Nesta obra, ocorre uma curiosa separação entre a moralidade e legislador, que é apresentado como um líder cujas decisões e atitudes devem estar isentas de aspectos morais. Além disso, considerava que o medo e a punição fossem necessários para a liderança política.

Descartes e Bacon com seus sistemas de ideias que não se mergulhavam tanto na filosofia política também influenciaram pensadores da área, o mais notável dentre tais, foi Thomas Hobbes, autor de “O Leviatã”, outro importante manual de política, este mais extenso e mais agressivo, divido em quatro partes: O homem, O Estado (bem comum), O Estado cristão e O reino das trevas (uso das sagradas escrituras). Para Hobbes, resumidamente, a natureza humana é ruim e isso gera uma guerra de todos contra todos, uma vez que o homem possui inclinações naturais para atos de violência. Por consequência disso, o governo era um mal necessário para controlar a humanidade, que submetia a ele seus direitos individuais, visando um bem comum.

Já durante o Iluminismo, houve uma troca da fé pela razão, e esse fato proporcionou um ambiente perfeito para que a filosofia política se desenvolvesse, sendo que desta vez, o homem encontrava-se no centro da análise e havia certo desprezo por influências de divinas (contraponto com obras e períodos anteriores). Nesta fase, portanto, o ser humano se torna imputável e a corrupção não é um problema espiritual, assim sendo era necessário investigar a natureza humana e as relações sociais.

Nos séculos XVII e XVIII são muitos autores dedicaram-se à filosofia política, alguns, em especial, merecem destaque: John Locke, pai do Liberalismo Político e da teoria da tabula rasa; Voltaire, defensor da liberdade religiosa e influenciador da Revolução Francesa; e Rousseau, autor do livro “Contrato Social”, cujo desdobramento é semelhante às ideias apresentadas por Hobbes, mas com inversão do conceito sobre a natureza humana, sendo que aqui, ela é inatamente boa, embora o advento da civilização corrompa sua bondade natural.

Kant é um marco da filosofia em diversas áreas, inclusive Filosofia Política. Em suas obras sobre o assunto, muito regularmente aparece o termo “Ética Kantiana”, referente a uma ideia na qual a lei moral é um imperativo categórico e suas ações devem ser baseadas no dever, uma ética isenta de empiria, ou seja, livre de quaisquer experiências, propondo se fazer o bem e o certo, apenas pelo “que é bom e certo”, sem que haja nenhuma segunda intenção, recompensa ou interesse.

A filosofia política do século XIX em diante possui alguns termos referentes à política isolados e analisados individualmente, e os autores posteriores a tal período, aprofundam e desenvolvem tais conceitos e estabelecem relações entre a política e outras áreas como a tecnologia, a economia, a educação e até mesmo as ciências. Os sistemas políticos usados nos séculos XX e XXI têm suas bases em ideias desses autores.

Os pensadores contemporâneos expandem os conceitos em direções múltiplas e suas obras exigem pré-conhecimentos diversos e contextualizações. Entre os principais nomes temos: Stuart Mill, defensor do Utilitarismo, escreveu sobre a liberdade e os governos representativos; Karl Marx, ícone atemporal, popularizou a luta de classes, existente desde a Idade Média, mas a adaptou à realidade contemporânea e a culpou pelos problemas sociais. Para ele, a luta de classes explica a história e perpetua a classe dominante, causando problemas sociais; há também Hannah Arendt, defensora do Pluralismo, possui trabalhos sobre filosofia existencial e reivindicava uma política livre; Foucault, autor de teorias que relacionam conhecimento ao poder, liberdade e controle social, crítico da modernidade e autor de “Vigiar e Punir”.

No século XXI a Filosofia Política encontra ligações com a Pós-modernidade e as novas tecnologias, assim, assuntos como, por exemplo, discussões sobre patentes e direitos autorais são revistos em meio ao mundo virtual e surgem debates sobre temas como as relações de poder nas redes sociais ou a ligação de governos, impostos sobre serviços intangíveis, a manutenção e a evolução do capitalismo, os direitos coletivos se sobrepondo aos direitos individuais, a ética da inteligência artificial, etc.

Com os filósofos em extinção, quem geralmente assume esses debates e reflete sobre essas questões mencionadas no parágrafo acima, são profissionais de outras áreas, como adeptos do método científico e não filosófico. Isso gera um problema salientado no começo desse texto, pois além de profissionais, curiosos, amadores e entusiastas se juntam ao debate, polarizando a discussão de maneira fanática e por vezes até “religiosa”, criando um maniqueísmo ao redor da questão, o que diminui muito as possibilidades da filosofia política contemporânea.

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2 Comments

  1. Reply

    Olá.
    Eu parei neste site procurando sobre Filosofia Política para me introduzir e em seguida, me aprofundar neste conhecimento, pois estou estudando esta disciplina na faculdade.
    Até o momento, considero esta a mais admirável introdução sobre o assunto.
    Só tenho a agradecer e é claro, ler o site todo.

    1. Acervo Filosófico
      Reply

      Olá, Bruna! Boa tarde. Tudo bem? Agradecemos imensamente pelo comentário, ficamos lisonjeados com seu elogio! Obrigada! Seja sempre bem-vinda ao Acervo Filosófico, espero que aprecie outros conteúdos que temos no site. Caso se interesse em acompanhar nossas postagens, estamos no Facebook, Instagram, Twitter e Youtube. Um grande abraço!!

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