HELEN KELLER: REFLEXÕES:

By Acervo Filosófico

Por Juliana Vannucchi

Helen Keller foi uma das pensadoras mais brilhantes da história da Filosofia. E este mérito não se dá somente pela notável qualidade de seu legado intelectual, mas também, e principalmente, pelas limitadas condições físicas sob as quais ela produziu suas obras, pois Helen era cega, surda e muda, desde os seus dezoito meses de vida. Contudo, mesmo com essas deficiências biológicas, inseriu-se no mundo externo, buscou compreendê-lo e estudá-lo, e nos presenteou com obras filosóficas de grande relevância. Além de formar-se em Filosofia e escrever livros na área, Helen Keller também foi conferencista e ativista.

Até os sete anos de idade, a menina vivia em um universo movido unicamente pelos instintos. Seus familiares, muitas vezes, tratavam-na como se esta fosse um animal. Quando desobedecia, alimentavam-na com um doce que a satisfazia, e ela, então, voltava a se portar devidamente. Frequentemente, tinha um comportamento agressivo. A fim de corrigir os modos da filha, e na tentativa de civilizá-la, os pais contrataram Anne Sullivan, uma educadora que na época tinha vinte e um anos de idade. A professora, com muito esforço e persistência, através da linguagem gestual, conseguiu ensinar à criança o significado do mundo externo. Sullivan fazia com que Keller apalpasse os objetos ao seu redor e, então, os nomeava nas mãos da menina para que esta compreendesse que tudo aquilo que havia no mundo exterior possuía um nome, e que a linguagem nos permite atribuir significado ao que nos cerca. Neste ponto, o caso torna-IMG_1491se intrigante. Notamos que sem a compreensão da linguagem, Helen, conforme mencionado anteriormente, vivia de forma puramente instintiva (baseada em “ação” e “reação”) e comportava-se de maneira semelhante a um animal. Porém, quando a garota percebeu que havia conexão entre as coisas que compunham o mundo (objetos, seres, sentimentos) e as palavras, sua racionalidade veio à tona, e ela passou a fazer associações, e a desenvolver seu pensamento de maneira lógica. Portanto, percebemos que a ausência de alguns sentidos (lembrando que ela tinha olfato, paladar e tato) impediu que ela conseguisse, de maneira natural, compreender o mundo sob o âmbito da razão. Ou seja, desde pequena, ela isolou-se em mundo pacato, pois não entendia realidade de forma lógica, diferenciando-se de uma criança cujo todos os sentidos desenvolvem-se normalmente.

Fica evidente que os sentidos, em determinado nível, nos dão o conhecimento das coisas externas e nos possibilitam entendê-las. E, aliás, ao que parece considerando o caso, e conforme é defendido por muitos filósofos, o conhecimento se origina a partir deles. Para Locke, por exemplo, é através dos sentidos que as ideias se apresentam ao espírito. No caso de Helen, com a ausência de alguns desses sentidos, houve uma problematização em seu comportamento, e a garota precisou de ajuda para entender e colocar-se no mundo exterior. Mas aqui há uma ressalva que merece ser feita: Keller tinha alguns sentidos e eles não bastaram para que ela compreendesse a lógica do mundo que a cercava. Portanto, ao mesmo tempo em que o empirismo faz sentido, notamos que a razão foi outro fator fundamental. Afinal, este foi o instrumento responsável pela interligação e a postulação de coerência entre o mundo interno e externo de Helen Keller. Isto é, a ausência de sentidos a prejudicou (então eles são necessários e úteis), contudo, foi através do logos (e por intermédio da linguagem) que ela teve acesso àquilo que existia fora dela, e que ela desconhecia.

Entretanto, uma discussão pautada pela Filosofia ao longo do tempo, é se os sentidos, apesar de sua relevância, nos mostram as coisas como elas realmente são, ou se eles distorcem a realidade, causando confusão em nossa interpretação de mundo. Isto é, mesmo que o conhecimento comece de maneira empírica, talvez não seja esse o fator determinante que desencadeará o entendimento da verdade como ela é, e das coisas como ela realmente são. Aqui, voltamos ao logos (fator que levou a menina a perceber a relação entre linguagem e mundo) e que para os racionalistas (como, por exemplo, René Descartes) é o único caminho que pode nos levar ao conhecimento de verdade. Contudo, há também uma linhagem de filósofos (os chamados céticos absolutos) para os quais jamais poderemos conhecer as coisas como elas são, nem por intermédio dos nossos sentidos, e tampouco através da razão. Sendo assim, para tais pensadores, por mais que absorvamos aspectos da realidade e atribuamos significados a eles, viveremos constantemente numa ilusão.

O caso de Helen Keller é capaz de levantar muita discussão acerca da natureza do comportamento humano. Ela possuía racionalidade, mas com a ausência de alguns de seus sentidos, não conseguiu desenvolvê-la espontaneamente. Por toda a complexidade do caso, é válido colocarmos em pauta reflexões sobre a situação.

 Category: FILOSOFEI

Related articles

Leave a Reply