LAÇOS AFETIVOS FRACOS OU FORTES:

By Acervo Filosófico

Por: Pedro Bracciali

Em tempos pós-modernos o consumo é um imperativo marcante, que orienta a vida das pessoas para uma crescente aquisição de bens, em geral supérfluos, e que as compele para o ritual das compras, mantendo-as subjugadas por uma vontade cúmplice, por assim dizer, das carências ou necessidades humanas, tais como o prazer, o afeto, a felicidade, o status etc. O problema “residual” do consumo é justamente o resíduo dos bens adquiridos, que vai entulhando os espaços e levando as pessoas a exercer um permanente e embaraçoso procedimento de descarte, pois o velho precisa ceder lugar para que o novo possa entrar. Mas o que melhor caracteriza o pós-moderno é a tecnologia digital, pois ela imprime uma nova realidade na percepção da sociedade: a virtualidade. Nesse meio digital não há algo presencial, palpável, sólido – tudo pode ser descartado facilmente.

Vivemos tempos líquidos, diz o pensador polonês Zygmunt Bauman (1), e a consequência disso é que nada é feito para durar, e o dramático é que não se pode prever quando se dará a próxima mudança – pode ser que ela ocorra em algum momento incerto do futuro próximo. É correto dizer que todo esse cenário de oscilações afeta o modo pelo qual as pessoas pensam os seus relacionamentos e constroem seus laços afetivos. Também estes se tornaram líquidos, a escorrer entre os dedos da mão: o que antes era “até que a morte os separe”, agora é – na melhor das hipóteses – “até quando durar”, ainda que isso não garanta que não haverá dor após a separação. As pessoas estão preferindo não empenhar seu futuro num convívio fixo, sólido, já que todo o resto ao redor se mostra mutável e imprevisível. Elas desejam desfrutar de um relacionamento enquanto este produz as delícias do amor; mas ao primeiro sinal de monotonia, desgaste de opiniões ou surgimento dos mais insignificantes problemas, promovem o desmanche – um ato simples como aqueles com que, nas redes sociais virtuais, um único clique “desfaz a amizade” – antes mesmo que vínculos mais profundos deixem seus resíduos.

Não ter amarras fixas, não ter laços de parentesco imutáveis, ou construí-los frouxamente para que possam ser desfeitos, abrindo caminho para novas oportunidades românticas – parece que essas têm sido as opções de muitos, numa sociedade de incertezas. Não existe mais a responsabilidade de amar. A palavra amor é usada mesmo quando as pessoas não sabem direito o seu real significado: “faz-se amor” em noites descompromissadas de sexo.

Cada vez que você tem mais segurança, você entrega um pouco da sua liberdade. Não há outra maneira. Cada vez que você tem mais liberdade, você entrega parte da sua segurança.

Por outro lado, as pessoas continuam construindo relacionamentos afetivos, e a própria afetividade faz crer que esse amor será duradouro (embora talvez não eterno). Há algo inato no ser humano que gera esse tipo de esperança. Aquele que sempre vive por uma nova experiência amorosa e opta por um voo solo nunca saberá o que é o amor. O relacionamento é um processo de aquisições e uma jornada a dois – são partilhas, histórias, momentos. Ele é existencial, e será o que ambos fizerem dele. É um engano viver a cada momento um novo amor – este é um tipo de liberdade enganosa. Se alguém desejar conhecer o amor, terá de viver esse amor e construí-lo; ou então tratar-se-á de mera ilusão.

Na pós-modernidade as pessoas vivem sem a obrigação de seguir os valores e modos tradicionais; entretanto elas ainda buscam um romance definitivo, como uma ideia associada ao destino: o romance como busca do destino. Se hoje as promessas feitas no matrimônio tradicional não mais sustentam uma união definitiva, e o divórcio pode ser formalizado em cartório, sem mediação judicial, há uma tendência de se assumir o que Anthony Giddens (2) define como “relacionamento puro”: uma situação em que se entra num vínculo emocional próximo e continuado com outra pessoa por aquilo que a relação – baseada no compromisso e na satisfação recíproca – representa por si mesma, e em que só há continuidade enquanto ambas as partes considerarem, para cada um individualmente, que extraem dela satisfação suficiente para nela permanecerem. Palavras e atos, proporcionados reciprocamente, são a garantia de que a relação será mantida por um período indefinido.

Então percebe-se, pelos argumentos expostos, os dois extremos que se entrelaçam entre o comprometer-se por laços afetivos fortes e o desfrutar de uma liberdade em laços afetivos fracos. É uma ambivalência que a vida entrega para uso prático nos tristes laços humanos. Uma maldição e uma bênção, no dizer de Bauman:

Há dois valores essenciais que são absolutamente indispensáveis para uma vida satisfatória, recompensadora e relativamente feliz. Um é segurança e ou outro é liberdade. Você não consegue ser feliz, você não consegue ter uma vida digna na ausência de um deles, certo? Segurança sem liberdade é escravidão. Liberdade sem segurança é um completo caos, incapacidade de fazer nada, planejar nada, nem mesmo sonhar com isso. Então, você precisa dos dois. Entretanto, o problema, é que ninguém ainda, na história e no planeta, encontrou a formula de ouro, a mistura perfeita de segurança e liberdade. Cada vez que você tem mais segurança, você entrega um pouco da sua liberdade. Não há outra maneira. Cada vez que você tem mais liberdade, você entrega parte da sua segurança. Então você ganha algo e você perde algo (3).

É preciso se equilibrar, assim, nessa corda bamba!

REFERÊNCIAS:

1 BAUMAN, Zygmunt. O amor líquido: Sobre a fragilidade dos laçõs humanos. Rio de Janeiro: Zahar, 2004. 87 p. Tradução de Carlos Alberto Medeiros.

2 GIDDENS, Anthony. Amor, compromisso e relacionamento puro. In: GIDDENS, Anthony. A Transformação da intimidade: Sexualidade, amor e erotismo nas sociedades modernas. São Paulo: Unesp, 1993. p. 59-76. Tradução de Magda Lopes.

3 BAUMAN, Zygmunt. Entrevista exclusiva concedida por Zygmunt Bauman a Fernando Schüler e Mário Mazzilli na Inglaterra em 25/7/2011. Produção Telos Cultural. Produção Audiovisual Mango Films. Montagem Tokyo Filmes. Edição Pedro Zimmermann. Finalização Marcelo Allgayer. Tradução Wilney Ferreira Giozza. São Paulo: Fronteiras do Pensamento, 2011. (30 min.), son. Color. Legendado. Idioma original em Inglês com legenda em português. Disponível em: < https://www.youtube.com/watch?v=POZcBNo-D4A>. Acesso em: 20 abr. 2016.

 Category: FILOSOFEI

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