NEUROCIRURGIÃO X ASTRONAUTA:

By Acervo Filosófico

Por: Juliana Vannucchi

Colaboração: Eduardo Faria

Quando assisti ao filme “O Mundo de Sofia” (1999) pela primeira vez, um trecho curto, mas cujo diálogo é profundo, me instigou e muito chamou a minha atenção. Abaixo, vou reproduzir tais falas (que também se encontram presentes no livro homônimo no qual foi o longa foi baseado) e na sequência, compartilharei com os leitores algumas reflexões a respeito do conteúdo exposto:

Certa vez, conversavam um neurocirurgião e um astronauta ateu. Este último comentou que já estivera no espaço incontáveis vezes, porém, nunca avistara nenhuma divindade lá por cima. O neurocirurgião, então, respondeu prontamente: “Bem, eu, por minha vez, já operei muitos cérebros de indivíduos imensamente inteligentes e jamais vi um único pensamento“.

*Texto adaptado

Fonte: O Mundo de Sofia (autor: Jostein Gaarder).

Há muitos diferentes caminhos meditativos que podemos tomar a partir da leitura do trecho acima. As reflexões são inesgotáveis. Mas dentre tantos pensamentos que podem ser formados, o que, de fato, me cativou nesses diálogos, é a maneira como eles apresentam clara e diretamente um dos grandes problemas filosóficos que elucidam os debates sobre a Filosofia da Mente, que é justamente o dualismo entre mente e corpo. Afinal, por mais que o tempo passe, que as tecnologias sejam aperfeiçoadas e que as ciências progridam, permanecemos sem saber ao certo qual é a essência de nossa mente. Sabemos que obter um apanhado de informações a respeito das condições físicas do cérebro humano, definitivamente, não soluciona os mistérios que envolvem a natureza da mente. Será que de alguma maneira, podemos encontrar materialmente os nossos pensamentos? Alguns pensadores acreditam que sim (nessa categoria, encontram-se os fisicalistas), outros, acreditam que não (aqui temos os dualistas). Mas afinal, qual é a verdadeira fonte de nossa mente? De onde vem um pensamento e para onde ele vai? Será que tudo o que passa em minha consciência enquanto leio este conteúdo textual, inicia-se e encerra-se única e exclusivamente em mecanismos físicos? Seriam os pensamentos, apenas resultados de funções corporais? Ou a mente, em sua mais íntima essência, possui raízes próprias, que embora possam ter relação com o corpo, são distintas? O que é a mente, afinal? Qual sua relação com o mundo externo?

(Imagem retirada de: https://innerouterpeace.com/how-to-enter-the-spirit-world/).

As perguntas expostas acima remontam, guardadas as proporções, à filosofia da Grécia Antiga, e até os dias atuais, são tema de debate filosófico. Esse conjunto histórico de questionamentos e possíveis respostas para os mesmos originou aquilo que chamamos de “Filosofia da Mente”, campo de investigação da Filosofia que, em suma, se propõe a compreender e identificar a natureza da mente. Os estudos desse campo ganharam força especial com o dualismo cartesiano, que permanece sendo um dos pilares da Filosofia da Mente. Atualmente existem diferentes vertentes que pesquisam e teorizam sobre tema, sendo as principais delas as possibilidade dualistas e as possibilidades fisicalistas, e dentro de cada qual, havendo variadas linhas de interpretação.

E no final das contas, aparentemente, tanto o astronauta quanto o neurocirurgião estavam corretos em seus discursos, afirmando aquilo que, de fato, vivenciam em suas rotinas profissionais. Nem Deus e tampouco o intelecto se apresentam fisicamente – pelo menos até agora não o fizeram -, mas, claro, isso não significa e não nos permite concluir que sejam inexistentes, afinal, negá-los convictamente soaria um tanto precipitado. E eis que em meio a esse turbilhão inusitado e curioso de dúvidas e reflexões, surge a Filosofia nos convidando para uma instigante jornada reflexiva!

 VOILÀ!!

Consultoria e revisão de Eduardo Faria:

Eduardo Faria, é pesquisador bolsista ativo do CNPQ em Filosofia da Mente, com viés histórico-crítico. Possui o autor americano Thomas Nagel como foco de estudo, e atualmente está desenvolvendo a pesquisa “Relações entre fenômenos mentais e ação em Thomas Nagel”. Possui interesse nas áreas de Ontologia, Filosofia da Ação, Ética, entre outras.

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