O ABSURDO EXISTENCIAL EM “UMA CONFISSÃO” – TOLSTÓI:

By Acervo Filosófico

Por: Juliana Vannucchi

Dentre muitos autores que aprecio, Tolstói é com certeza um dos meus escritores favoritos – talvez seja mesmo o grande predileto. Já inúmeros contos e livros de sua autoria e sempre adorei todas as suas obras literárias com as quais tive contato. De tudo o que li, entretanto, a que mais me atraiu e surpreendeu foi “Uma Confissão”, pois é um livro de cunho filosófico, que levanta inúmeros questionamentos acerca da existência e tenta respondê-los, hora através de reflexões feitas pelo próprio Tolstói, hora através do pensamento herdado por grandes personagens da Filosofia, tal como Sócrates e Schopenhauer e, por vezes, através da sabedoria oriental.

Esse livro foi escrito numa fase delicada da vida de Tolstói, na qual o autor sentia-se deslocado no mundo, sendo constantemente confrontado e quase tentado por pensamentos suicidas. Tudo o que ele escreve na obra, parte da seguinte indagação: “Para que devo viver, para que desejar algo, para que fazer algo? (…) Existe, em minha vida, algum sentido que não seria aniquilado pela morte que me aguarda de modo inevitável?”. (TOLSTÓI, 2017, p.45).

Essas perguntas, cada vez mais intensamente passaram a perseguir Tolstói e perturbar sua consciência. No início do livro, ele diz que ainda jovem perdeu a fé e que o Cristianismo deixou de fazer sentido em sua vida. Com o passar do tempo, embora tenha encontrado conforto em certas situações e fatos cotidianos (como, por exemplo, em sua família), as indagações continuaram a surgir e a sufocá-lo, vejamos suas próprias palavras a respeito das dúvidas insistentes e perguntas inquietantes que lhe surgiam: “Minha vida parou. Eu podia respirar, comer, beber, dormir, porque não podia ficar sem respirar, sem comer, sem beber, sem dormir; mas não existia vida, porque não existiam desejos cuja satisfação eu considerasse razoável. Se eu desejava algo, sabia de antemão que, satisfizesse ou não meu desejo, aquilo não daria em nada”. (TOLSTÓI, 2017, p.35).

A verdade era que a vida não tem sentido algum.”-Tolstói.

Tolstói menciona que se aventurou tanto na metafísica, quanto na ciência em busca da compreensão do significado da vida. Entretanto, em nenhuma dessas áreas encontrou respostas. A ciência tem como fico o estudo dos fenômenos materiais e suas causas. Elabora leis e dispõe respostas inquestionáveis para muitas perguntas, mas isso é limitado, é insuficiente. A luz ciência não ilumina o todo, apenas o fenomênico. Escreve o autor: “A atitude geral das ciências experimentais, com respeito à questão da vida, pode ser expressa assim: Pergunta: Para que eu vivo? Resposta: No grande espaço infinito, no longo tempo infinito, partículas infinitamente pequenas se transformam e se tornam infinitamente complexas e, quando você entender as leis dessas transformações, entenderá para que você vive”. (TOLSTÓI, 2017, p.48).

Por outro lado, a metafísica vai além dos fenômenos e ocupa-se em especular a vida humana a partir de seus princípios primeiros, tentando compreender a essência da vida. Tolstói demonstra-se mais animado com os questionamentos e respostas oferecidos pelo saber filosófico em detrimento da ciência, mas acredita que estes também são insuficientes. A filosofia se aproxima mais do que ela busca entender, ela levanta as mesmas indagações, porém, “(…) não há resposta e, em lugar de resposta, recebe-se de volta a mesma pergunta, apenas numa forma complicada”. (p.52). E tanto para na trilha da ciência, quanto na estrada da metafísica, o fim é o mesmo e é inevitável: a morte. O cientista e o filósofo estão condenamos ao mesmo destino desde seus primeiros contatos com o mundo.

O cristianismo já não se apresentava como suficiente. O conhecimento fornecido pela ciência e as especulações metafísicas também não dispunham de respostas para sua pergunta. Tolstói, então, concluiu que a vida simplesmente não possui sentido algum, ou seja, que ela é absurda. Absurda e cruel. Sem finalidades e sem respostas. Nada. Então, o escritor russo percebe que muitas pessoas além dele podem chegar a essa mesma resposta, isto é, de que a vida carece de sentido. E quando chegam, ele constata que há quatro tipos de caminhos a serem seguidos:

Primeiro – O caminho da ignorância: este é o percurso seguido pelos indivíduos que simplesmente não são capazes de ser dar conta do absurdo existencial ao qual estão submetidos e não notam que que a morte as devora, aos poucos, sem piedade. Aqui, nem ao menos surgem perguntas a respeito da vida.

Segundo – “Epicurista”:
Esta estrada é seguida por todos aqueles que se dão conta de que a vida é uma mar de enigmas e desesperos para os quais não há respostas concretas. Nesse caso, as pessoas optam por desfrutar dos prazeres que a vida oferece, saboreando-a até em seus mínimos detalhes, já que não é mesmo possível compreendê-la.

Terceiro – Suicídio:
Esta é a via que permeou os pensamentos do próprio Tolstói. Ao se deparar com a ausência de sentido da vida, naturalmente surge o questionamento: “para que permanecer vivo?”. É a saída da aniquilação, do fim.

Quarto – Fraqueza:
Neste caminho, a pessoa simplesmente continua se arrastando em sua vida. Ela percebe que não há explicação, que não há sentido, que a crueldade impera e que a morta a aguarda, mas ela permanece viva. Tolstói encontrava-se neste estado: não encontrava força suficiente para por fim à sua vida: “Para mim, isso era repulsivo, torturante, mas eu permanecia nessa situação”. (TOLSTÓI, 2017, p. 68).

“E a verdade é a morte.”-Tolstói.

Ao longo do livro, o autor russo demonstra certo desprezo pelas atitudes banais das pessoas de seu círculo e ressalta sua admiração pelo povo, que é a classe trabalhadora, aquela que mesmo reconhecendo os inevitáveis mistérios e tormentos que assolam a existência, são capazes de encontrar forças e ânimo para prosseguir, e inclusive construir uma vida satisfatória. Por apreciar a classe da população e sem encontrar respostas para suas perguntas em outras fontes, Tolstói volta-se para a fé e começa a frequentar a Igreja Ortodoxa. Contudo, após um período de convivência nesse meio, ele percebe que, embora tenha tentando reencontrar sua fé, ela não era suficiente. Além disso, ao observar o comportamento daqueles que iam à Igreja e que sustentavam suas fés, e também ao observar a história e as ações da própria Igreja, Tolstói começa a arquitetar novos questionamentos. Ele constata, por exemplo, que todas as tradições religiosas conservam e defendem as verdades reveladas em seus livros sagrados. Mas se todas o fazem e possuem argumentos para se defenderem, então qual delas está correta? Por que o Catolicismo seria a doutrina correta e não o Protestantismo? Afinal, ambas carregam em si suas “provas” de veracidade, suas milagres, suas explicações. Tolstói também percebe que há uma hostilidade desprezível entre as religiões: (…) “vivemos em países onde se professam várias fés e que vemos a rejeição desdenhosa, arrogante, inflexível com que um católico se relaciona com um ortodoxo e um protestante, um ortodoxo se relaciona com um católico e um protestante, e um protestante se relaciona com ambos”(…). Assim sendo, as doutrinas religiosas estariam mais ocupadas em se defender, se posicionar e lutar por sua própria crença do que em se empenhar em propagar o amor entre os homens, sendo que este último caminho era aquele que Tolstói inicialmente acreditava ser a essência da religião.

Por fim, o autor russo percebe que também não foi na Igreja e na fé que encontrou explicações e verdades e tampouco o fim para seus conflitos existenciais. Sua crise não terminou no altar e a passagem por tal ambiente, embora, de certa maneira tenha sido proveitosa, também gerou novas indagações e, em certos aspectos, o deixou incomodado. Havia verdades na Igreja, ele concluiu; mas também existiam mentiras nela.

Referência bibliográfica:

TOLSTÓI, Liev. Uma Confissão. São Paulo: Mundo Cristão, 2017.

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