O CONCEITO DE MAGIA NA FILOSOFIA DE SCHOPENHAUER:

By Acervo Filosófico

Por: Juliana Vannucchi

  As obras de Arthur Schopenhauer são vastas e oferecem inúmeras abordagens e reflexões instigantes e profundas. Atualmente, é comum vermos o nome do pensador alemão ser associado diretamente ao pessimismo, embora a totalidade de seu legado carregue em si aspectos que se encontram muito além desse traço com o qual ele é tão frequentemente identificado. Um mergulho mais profundo e pesquisas e leituras mais atentas dos escritos de Schopenhauer, tendem a aproximar-nos de uma filosofia brilhante e enriquecedora, caracterizada por meditações que encontram-se muito além de um mero “pessimismo”. 

  Um tema interessante que compõe a totalidade do amplo pensamento de Schopenhauer, é a magia. Para o nosso filósofo, ela é considerada uma confirmação de sua doutrina e é uma prova da atuação da vontade no mundo fenomênico. É justamente esse o tema do presente texto. 

  Antes, porém, de adentrarmos no significado da magia e de entendermos como ela seria uma confirmação da filosofia schopenhauriana, é importante que compreendamos alguns aspectos básicos da filosofia de Schopenhauer.  Partamos, então, de um ponto essencial e de extrema relevância: o mundo é composto por duas faces, que são a vontade e a representação. O mundo fenomênico, ou seja, a representação, é a dimensão aparente que se opõe à coisa-em-si, e é regido por determinadas leis que são assimiladas através do entendimento que as lê e as interpreta por meio do princípio da razão, moldado por condições apriorísticas (a saber, espaço, tempo e causalidade). Nesse contexto, o mundo físico torna-se objeto de estudo da ciência, que se empenha em medir e compreender as leis e a ordem da natureza, entendendo as causas dos efeitos e desvelando os fenômenos dentro de uma leitura pautada no princípio da razão. 

  Contudo, a magia, por sua vez, consiste num ato no qual ocorre a suspensão das leis da natureza e isso acontece justamente pelo fato de que suas raízes são metafísicas e, portanto, essencialmente diferentes daquelas formuladas a partir dos fenômenos físicos, que podem ser mensurados pela ciência. Certa vez, Schopenhauer escreveu que “onde termina física, começa a metafísica”, e essa afirmação faz uma referência às duas faces que tangem o polo de sua filosofia, que (conforme já citado) são a representação (mundo físico, aparente e ilusório – o Véu de Maya) e a vontade (o único real, o eterno, a força primária e essencial de todos os organismos que compõe a natureza e que se encontra fora do tempo e do espaço). A ciência é capaz de estudar, compreender e explicar aquilo que faz parte da representação, ou seja, o que compõe e se encontra no mundo físico e em conformidade com suas próprias leis.

Ilustração de Mesmer magnetizando uma paciente. Crédito: Wellcome Library, London.

  Contudo, a magia é um acontecimento que advém justamente de outra fonte, a saber, da vontade, que é essencialmente metafísica e, por esse motivo, as leis gerais da física não se aplicam a ela, uma vez que as manifestações metafísicas provém de uma ordem que é diferente da ordem da natureza. Assim, não cabe à ciência explicar e mensurar os eventos mágicos, que seriam, para Schopenhauer, “efeitos sem causa”. Em outras palavras e de maneira breve e resumida, podemos compreender que a aparência é regida por leis que se limitam ao fenômeno e não atingem o em-si. A magia é uma espécie de conexão subterrânea oriunda da vontade (portanto, que parte de um princípio metafísico) e, por isso, não pode ser mensurada pela ciência. 

  Como exemplo de práticas mágicas, cujo verdadeiro agente é a vontade, Schopenhauer cita o magnetismo animal (ou mesmerismo) e as curas simpáticas. Nesses tipos de práticas, a vontade atua através de um instrumento (símbolo, objeto, palavras de feitiçaria) ou então, através de um indivíduo e atua no mundo dos fenômenos. Aliás, é interessante e válido mencionar que o filósofo diz que símbolos, objetos e palavras de feitiçaria e outras práticas de magia, em geral, não teriam nenhum poder em si mesmos conforme costuma-se acreditar que tenham, mas seriam, na verdade, veículos e meios para fixação da vontade que, por sua vez, é o verdadeiro agente da magia. 

  O magnetismo animal é um procedimento de cura que foi criado, pesquisado e praticado por Franz Anton Mesmer no final do século XVIII. Mesmer acreditava que havia um fluido cósmico universal que poderia ser assimilado por um indivíduo (magnetizador) e transferindo em outro (magnetizado) para fins terapêuticos. Mesmer esforçou-se para comprovar cientificamente a eficácia do magnetismo animal, mas foi fortemente criticado e rejeitado pela maior parte de seus contemporâneos. Entretanto, para Schopenhauer, o mesmerismo fazia bastante sentido, pois comprovava a atuação da vontade no mundo fenomênico. As curas simpáticas e o magnetismo animal seriam, portanto, uma ação da vontade e uma confirmação empírica da doutrina de Schopenhauer. 

  O filósofo também apoia-se em trechos de obras do ocultista Paracelsus e Roger Bacon para comprovar sua proposta filosófica. Exploremos, então, uma pequena parte do pensamento vasto e complexo de Paracelsus, no qual Schopenhauer acredita ter encontrado uma confirmação de sua teoria sobre a magia. Para Paracelsus, a crença e a imaginação (imaginatio) são suportes que movem a vontade e que condicionam a manifestação da magia no mundo. Podemos conectar esse raciocínio com a magnetismo animal, que também seria movido por uma conexão entre magnetizador e energia cósmica, através da qual o magnetizador canaliza tal energia. Paracelsus acreditava que para que uma conexão fosse estabelecida, era fundamental que houvesse uma crença profunda sobra a mesma e que a imaginação fosse utilizada como recurso e suporte para realização de uma prática mágica. Escreveu ainda que “a dúvida desfaz a obra”, isto é, o praticamente da magia precisa, de fato, entregar-se à sua crença e permitir que sua imaginação atue como aliada para se buscar o que deseja. Esses componentes seriam capazes de “encontrar” a vontade e, de alguma maneira, manipula-la, trazê-la para o mundo dos fenômenos. 

  Além das personalidades citadas acima, Schopenhauer também menciona e concorda com o filósofo Francis Bacon, quando este define a magia como uma “metafísica prática”, o que significa que a prática mágica é um ato de perceber e/ou trazer o metafísico (vontade) para o físico (representação). Ela age por vias metafísicas, portanto, sobrenaturais e, justamente por possuir  esse caráter metafísico, a magia sempre escapará das leis físicas e da compreensão da ciência. 

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA:

SCHOPENHAUER, Arthur. Sobre a Vontade na Natureza, 2015. Editora: L&PM.

SILVA, Luan Corrêa da. Schopenhauer e a Magia, 2017. Publicado em: Revista Voluntas: Estudos sobre Schopenhauer – Vol. 8, Nº 1. 1º semestre de 2017.

 

 

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