O CONCEITO DE MEMÓRIA NA FILOSOFIA DE AGOSTINHO:

By Acervo Filosófico

Por: Juliana Vannucchi

É grande esta força da memória.” – Santo Agostinho

Este texto visa apresentar algumas reflexões feitas por Santo Agostinho em relação à memória, e baseia-se especialmente no Livro X da obra Confissões, ao longo do qual o filósofo apresenta vários tópicos, tal como a reminiscência, o esquecimento, a felicidade, a lembrança dos afetos, a relação entre memória e os sentidos, a felicidade, Deus e alguns outros. Abaixo, iremos discorrer sobre alguns dos mais importantes e esperamos que nossa exposição instigue os leitores a buscarem o contato direto da obra do filósofo para uma melhor compreensão e/ou aprofundamento temático.

O QUE É A MEMÓRIA?

Para o nosso filósofo, a memória é uma potência espiritual, própria da natureza humana, que consiste no resgate das percepções tidas ao longo da vida. Por exemplo: sem cheirar nada no momento presente, sou capaz de recordar de um cheiro determinado que alguma vez já senti ou então, sem que uma pessoa esteja diante de mim, posso recapitular sua aparência. Em qualquer situação, podemos trazê-las à “superfície” de nossa mente, pois a memória está sempre escondida, esperando ser retirada desse esconderijo. Ou seja, a memória traz imagens e ideias de objetos que podem ser pensados, ainda que estejam ausentes ou que a realidade dos mesmos esteja distante no espaço-tempo. Agostinho ressalta que algumas lembranças possuem origem empírica, embora outras sejam inatas, sendo que estas últimas teriam sido colocadas por Deus em nosso espírito. Como exemplo desta última categoria de memória, menciona a matemática, que não pode ser experimentada através das sensações: “Não foram os sentidos quem nos gravou estas ideias, porque estas não têm cor, nem som, nem cheiro, nem gosto, nem são táteis”. (AGOSTINHO, 1973, p. 204).

Agostinho ressalta que algumas lembranças possuem origem empírica, embora outras sejam inatas.

MEMÓRIA E AFETO: 

Uma abordagem interessante feita por Agostinho é a relação entre memória e afeto: é possível recordar-nos de uma vivência infeliz, mas sem sentir tal infelicidade, portanto, “reviver” mentalmente um acontecimento, sem que haja presente o envolvimento afetivo que caracterizou tal acontecimento em sua ocorrência: “Encerro também na memória os afetos da minha alma, não da maneira como os sente a própria alma, quando os experimenta, mas de outra muito diferente, segundo o exige a força da memória “. (AGOSTINHO, 1973, p. 205). 

Nesse contexto, Agostinho questiona como pode ser possível que a memória conserve um determinado tipo de afeto, enquanto o espírito conserva outro. O filósofo então cita aquilo que considera que sejam as quatro maiores perturbações da alma, a saber: o desejo, a alegria, o medo e a tristeza, e reflete sobre como somos capazes de lembrar especificamente de tais tipos de perturbações, tendo noção do que elas significam em si mesmas, mas sem que sejamos assolados por elas: “Quem nos falaria voluntariamente da tristeza e do temor, se fôssemos obrigados a entristecer-nos e a temer, sempre que falamos de tristeza ou temor?”. (AGOSTINHO, 1973, p. 205). Ou seja, se cada vez que uma determinada lembrança resgatasse memórias envolvendo tais perturbações, seus significados fossem igualmente resgatados, ninguém iria mencionar tais perturbações, afim de evitar sentir o que elas expressam. Justamente por isso há uma diferença entre o espírito e a memória: é possível lembrar-se com alegria uma memória triste – ou ao contrário.

FELICIDADE:

A memória parece carregar em si o significado da felicidade e isso indica que em algum momento já fomos felizes (afinal, somos capazes de trazer à tona tal sentimento). Entretanto, isso indica também que tal sensação é uma sensação proveniente do estado da alma e não dos sentidos, já que não vemos, nem cheiramos, apalpamos ou usamos qualquer sentido corporal para experimentar a felicidade: “Nunca vi, nem ouvi, nem cheirei, nem gostei, nem apalpei a alegria com os sentidos corporais. Simplesmente a experimentei na alma quando me alegrei”. (AGOSTINHO, 1973, p. 210). Ressalte-se como nota complementar que a “felicidade”, para Agostinho, consiste na busca pela verdade, sendo que a verdade, por sua vez, significa encontrar Deus.

O ESQUECIMENTO:

Este tópico é o que parece intrigar mais o filósofo, que reflete bastante a respeito do esquecimento e levanta bastante perguntas e algumas hipóteses – talvez, inclusive, mais perguntas do que hipóteses.  O esquecimento é definido como uma privação da memória, ainda que seja objeto da mesma. Ele, portanto, se apresenta não enquanto tal, mas somente enquanto imagem, pois se fôssemos pensar no próprio esquecimento, isto é, se ele próprio fosse se fazer presente, seria algo logicamente contraditório e não nos lembraríamos dele. Porém, este trecho é encerrado pelo filósofo com a seguinte indagação: “Como pôde o esquecimento, quando estava presente, gravar sua imagem na memória, se ele, com a sua presença, apaga tudo o que lá encontra impresso?”. (AGOSTINHO, 1973 p. 207).

No final das reflexões acerca da memória, Agostinho, cada vez mais, suplica a Deus para o ajude a compreender o que é a memória. Menciona, inclusive, a própria memória de Deus como algo que transcende a experiência dos sentidos, que está além das paixões (alegria, tristeza, e outras), que não é imagem corpórea, e que coloca o ser humano num patamar diferente do de outros animais. Pouco depois destas e outras observações sobre Deus, Agostinho afasta-se do tema aqui exposto e insere em sua obra outros objetos de reflexão. 

Esperamos que o texto tenha sido proveitoso aos leitores, e capaz de despertar o interesse pela leitura do Livro X e de outros aspectos da filosofia de Santo Agostinho.

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA:

AGOSTINHO, Santo. Confissões. São Paulo: Abril Cultural, 1973.

 

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