O CONCEITO DE VONTADE NAS FILOSOFIAS DE A. SCHOPENHAUER E F. NIETZSCHE:

By Acervo Filosófico

   Por: Alessandro Olivieri e Juliana Vannucchi

Este texto busca apresentar as bases conceituais da Vontade, termo de imensa relevância nos contextos filosóficos de dois grandes pensadores: Arthur Schopenhauer (1788 -1860) e Friedrich Nietzsche (1844-1900). Para tal, são feitas algumas analogias que exploram tanto diferenças, quanto semelhanças entre os significados da Vontade.  O primeiro esclarecimento que merece ser feito, é que este conceito que será explorado como foco do texto, é em um dos principais pilares para aproximação e até mesmo compreensão, tanto do pensamento de Arthur Schopenhauer, quanto do de Friedrich Nietzsche, pois grande parte de suas respectivas obras, irá se concentrar e/ou se relacionar com a Vontade.  

Inicialmente, iremos expor o que esse termo exprime na obra de Arthur Schopenhauer. Em sua filosofia, a Vontade é definida como sendo o princípio último do mundo, e consiste numa força cega, eterna, irracional, indestrutível e insaciável, presente e atuante em todos os elementos que compõe a natureza, tanto nos orgânicos, quanto nos inorgânicos, mostrando-se de maneira diferente nesses tais elementos, embora sendo sempre responsável pela funcionalidade de todos os organismos naturais. Nesse contexto, a Vontade é entendida como sendo a própria coisa-em-si que se encontra por trás dos fenômenos (mundo aparente, representação), ou seja, ela é o númeno que para Immanuel Kant (1724 —1804) não poderia ser alcançado. Essa Vontade busca sempre fazer-se mais forte e expandir-se de alguma maneira. Assim sendo, para atingir o objetivo de suas buscas, irá influenciar desde um minério até o ser humano, pois se encontra presente como componente essencial de tudo aquilo que faz parte da natureza.

No ser humano, por exemplo, a Vontade expressa-se através de todos os movimentos corporais e se reflete no homem de maneira inconsciente, evidenciando-se por meio de uma série de necessidades infindáveis, sempre presentes e que fazem com que o indivíduo se torne constantemente desejante. Como consequência dessa manifestação da Vontade, a existência passe a ser um verdadeiro campo de instabilidades e lutas em no qual atua o ser humano, cuja vida é explicada pelo querer incessante e perturbador. Para Schopenhauer, as consequências deste cenário são negativas, e é neste sentido que sua filosofia toma um rumo pessimista: “A vida dos homens oscila, como um pêndulo, entre a dor e o tédio, tais são na realidade os seus dois últimos elementos”. (SCHOPENHAUER, 2014, p. 33). Escreve também “A vida do corpo é a morte suspensa, uma morte adiada, e a atividade de nosso espírito, um tédio sempre combativo”. (SCHOPENHAUER, 2014, p. 35).

(…) Dessa forma, referindo-se a uma “força de vida”, Nietzsche compreende que o homem não busca apenas conservar-se, ele quer expandir-se, dominar, criar valores, dar sentido próprio à sua existência, e se efetivar no encontro com outras forças.

Nietzsche, durante determinado período de sua vida, foi fortemente influenciado por Schopenhauer, que muito o inspirou. Apropriou-se do termo “Vontade”, porém, atribuiu a esta palavra, outro significado, e adaptou-a ao contexto de sua própria filosofia, chamando-a de “Vontade de Potência” ou “Vontade de Poder”. Para ele, esse termo expressa forças que se fazem presentes na natureza, que compõe a essência do mundo e impulsionam a humanidade, mas que não são encaradas de maneira negativa ou pessimista conforme a Vontade que faz parte da filosofia schopenhaueriana (e eis, portanto aqui, uma primeira diferença bastante relevante entre os dois pensadores).

Escreve Viviane Mosé (2005, p. 95): “Pensar a vida como Vontade de Potência é, portanto, considerar o campo de batalha onde a vida se dá, é entender a complexidade do processo que se dá como uma luta. Todo acontecimento, mesmo na vida orgânica e inorgânico, é resultado de um jogo de forças e é resultante deste jogo de forças que se constitui como afirmação e negação”.

Conforme mencionado, tudo no mundo é Vontade, e o homem faz parte do mundo, logo, a essência humana é a própria Vontade. Dessa forma, referindo-se a uma “força de vida”, Nietzsche compreende que o homem não busca apenas conservar-se, ele quer expandir-se, dominar, criar valores, dar sentido próprio à sua existência, e se efetivar no encontro com outras forças. Em consequência disso, o mundo não possui uma ordem, mas é um conjunto de forças, de luta e de movimentos sem nenhuma direção. Isto significa que o mundo não possui um fim específico e que as forças também não possuem uma finalidade particular, sendo que estão constantemente alternando sua direção inédita.

Assim, ao perceber o mundo como Vontade, Nietzsche constata também que a luta é inevitável à convivência humana e por mais que o homem tente escondê-la, é inevitável que uma parte dos indivíduos irá vencer e a outra perder. Dessa maneira, cada uma das partes irá se expressar de uma maneira diferente. A vencedora se expressa de maneira afirmativa, afirmando seu poder no mundo, e isto se mostra no comportamento e no modo de vida dos indivíduos nobres e ativos. Por outro lado, encontra-se o rebanho, composto pelos perdedores que, ao contrário dos que estabelecem a afirmação de vida, não conquistam as partes da realidade e não são capazes de impor sua vontade no mundo, mas apenas impedem que os outros (isto é, os nobres, os fortes) exerçam sua Vontade de Poder.

Tendo feito tais esclarecimentos, chegamos aqui num ponto importante, no qual Nietzsche expõe (com base na Vontade de Poder) a maior parte de sua filosofia, baseada nos contrastes entre ativo e reativo, niilistas e senhores, nobres e escravos. Estes tópicos serão assuntos para um próximo texto, no qual será abordada especificamente a questão da moral dos senhores e da moral dos escravos.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

SCHOPENHAUER, Arthur. As Dores do Mundo. Editora: Edipro, 2014.

MOSÉ, Viviane. Nietzsche e a Grande Política da Linguagem. Editora: Civilização Brasileira, 2005.

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