O ‘DEVIR’ EM PARMÊNIDES NO DK 28 B 8 19-20 – PARTE II:

By Acervo Filosófico

Por Pedro Bracciali

Há em Parmênides dois modos de conhecimento: aquele que pensa o ‘Ser’ como ele ‘é’, sendo esta a via da verdade e que acompanha a realidade; e o outro, o do ‘Não-ser’, que resulta no ignoto, no irreferenciável. A palavra grega Alethéia expressa o sentido de verdade, realidade. A partícula ‘A’ indica a negação em ‘A-lethéia’; e esta, por sua vez, significa ‘oculto’, ‘ignorado’, ‘despercebido’, ‘velado’; portanto uma dupla negação. Para um grego antigo, a presença de algo se faz pela negação da sua ausência. Heidegger prefere traduzir o sentido de Alethéia para o substantivo ‘desvelamento’. Neste contexto de realidade/verdade, cabe a pergunta: “O que é o ‘Ser’? ”

O ‘Ser’ de Parmênides está definido no próprio fragmento do poema (DK28 B 6,1) que diz: “É necessário que o Ser, o dizer, e o pensar sejam…” O ‘Ser’ se mostra positivo de realidade, pleno; o ‘Não-Ser’ é incognoscível e não representa o contrário do ‘Ser’, nem seu complemento. Não há existência para o Não-ser; o universo racional parmenídico é formado unicamente pelo ‘Ser’: não há vazio, não há ‘Não-ser’.

É na via dos mortais, que nada sabem, que vagueiam com duas cabeças, que se acredita que o ‘Ser’ e o ‘Não-Ser’ sejam o mesmo, argumenta Parmênides. Neste sentido, é pelo corpo, através do sensível, pelo efeito da passagem do tempo que surge o ‘Não-ser’; pois se o ‘Ser’ era de um modo e agora o é de um outro, então ele estava numa condição no passado que já não é a mesma no presente. No devir, o ‘Ser’ de antes pode ser o ‘Não-Ser’ do presente; ou no sentido inverso, o ‘Ser’ de agora é o ‘Não-Ser’ de antes. A alteração de estado exige a passagem do tempo.

Partindo da definição fundamental, “O ‘Ser’ é e não pode não ser”, o poema estabelece para o ‘Ser’ um eterno presente, sem passado nem futuro. Admitir a mutabilidade seria admitir o ‘Não-ser’. As consequências desse pensamento desdobram-se, pois não havendo mutabilidade não há geração nem destruição. O fragmento DK28 B 8 1-6, descreve o ‘Ser’ pelo caminho que ele sempre ‘é’:

Sobre esse são muitos os sinais / de que é ingênito e indestrutível, / pois é compacto, inabalável e sem fim: / não foi nem será, pois é agora um todo homogêneo, / uno contínuo.

Parmênides oferece-nos ainda uma imagem de como poderia parecer o ‘Ser’: uma esfera, por sua forma de regularidade, perfeição e inteireza – coincidência consigo mesmo. O fragmento DK28 B 8 43-46 descreve-o assim: “Visto que um limite externo, é completo / por todos os lados, semelhante à massa de uma esfera bem rotunda, / em equilíbrio do centro a toda a parte; pois nem maior, / nem menor, aqui ou ali, é forçoso que seja”. A esfera permite que um ponto qualquer em sua superfície seja ao mesmo tempo início e fim da circunferência.

 

REFERÊNCIAS

PARMÊNIDES. “Da Natureza“. 3.ed. São Paulo: Loyola, 2013. 120 p. (Leituras Filosóficas). Tradução, Notas e Comentários José Trindade Santos.

NIETZSCHE, Friedrich. A Filosofia na idade trágica dos gregos. Lisboa: Edições 70, 1995. 109 p. (Textos Filosóficos). Tradução: Maria Inês Madeira de Andrade.

PLATÃO. Sofista. In: Os Pensadores: Platão. 5. Ed. São Paulo: Nova Cultural, 1991. P. 205-330. Tradução e Notas de Jorge Paleikat e João Cruz Costa.

 

 

Related articles

Leave a Reply