O ESTRANGEIRO – ALBERT CAMUS:

By Acervo Filosófico

Por: Juliana Vannucchi

O Estrangeiro é um romance filosófico responsável por render grande reconhecimento ao escritor e pensador argelino, Albert Camus. Foi publicado pela primeira vez em 1942 e traduzido em mais de 40 idiomas. Essa obra merece especial atenção por sua profundidade filosófica e, de preferência, antes de lê-la, é válido ter contato com “O Mito de Sísifo”, ensaio filosófico escrito pelo Camus, cujo conteúdo central é a filosofia do absurdo que, de certa forma, é um dos panos de fundo de “O Estrangeiro”. Não é necessário fazer isso, mas certamente, conhecer o conteúdo abordado em “O Mito de Sísifo” ajuda na hora de “mergulhar” nas reflexões presentes no livro em questão.          

Albert Camus, autor do aclamado livro “O Estrangeiro”

 

Inicialmente, é válido dizer que em “O Estrangeiro”, o leitor não encontra um herói arquétipo protagonizando a história, e sim um personagem emblemático (Meursault) que encara a vida como se ela fosse uma mera sucessão de fatos absurdos, incertos e estranhos em seu devir (e será que a vida, realmente não é isso?). Dessa forma, a insignificância existencial e a crise humana desencadeada por ela, surgem como chaves que sustentam a narrativa, tornando os detalhes da vida cotidiana do personagem totalmente apáticos e ocos. Esse traço do romance pode ser percebido logo na primeira página, numa passagem clássica e que se imortalizou na literatura, quando Meursault, o personagem central do livro, é informado sobre a morte de sua mãe:

“Hoje mamãe morreu. Ou talvez ontem, não sei. Recebi um telegrama do asilo: Mãe morta. Enterro amanhã. Sinceros sentimentos.” Isso não quer dizer nada. Talvez tenha sido ontem”.

Meursault demonstra indiferença em relação ao falecimento da mãe. Ele até, digamos, se aborrece com essa situação, mas a sua “tristeza” é passageira, tal como tudo na vida também é. Justamente por isso, vemos ao longo da história, a icônica frase “a gente se acostuma com tudo no mundo” – inclusive à tão devastadora morte que sempre nos assola.

 Um dos maiores clássicos da banda britânica  The Cure, foi baseado na obra de Camus ( link da música: https://www.youtube.com/watch?v=SdbLqOXmJ04).

Meursault parece não encontrar sentido na vida, e tampouco uma satisfação duradoura em seu dia-a-dia, embora vivencie prazeres regulares, ainda que passageiros. Talvez até haja certo esforço por parte dele para encontrar algo a mais, porém, o mundo ao seu redor, sempre parece estar carente de significado e tudo é inconstante diante de seus olhos. Por isso, desde o início do livro, Camus faz transparecer a apatia do personagem, a sua indiferença em relação às decisões e suas consequências, no momento em que Meursault assassina uma pessoa.

Camus, por muito tempo, foi amigo do filósofo Jean Paul Sartre. Contudo, os dois se distanciaram algumas por divergências ideológicas. Apesar disso, grande parte dos estudiosos e leitores de “O Estrangeiro”, asseguram que há influência do existencialismo Sartriano no contexto do romance. Camus negou. Para mim, particularmente, é evidente e não há como não perceber alguns respaldos do Existencialismo na composição da narrativa, especialmente no que tange certas ações do personagem central, suas consequências e as angústias que elas acarretam. É preciso mencionar que esse livro, devido à sua grandeza e atemporalidade, é digno de ser apreciado por qualquer leitor, não apenas pelos amantes e estudantes da Filosofia, afinal, se trata de um renomado e importantíssimo clássico da literatura mundial.

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