O IMATERIALISMO DE BERKELEY:

By Acervo Filosófico

Por: Juliana Vannucchi

Basta observar seus próprios pensamentos e experimentar se você consegue conceber que seja possível para um som, uma figura, um movimento ou uma cor existirem sem a mente ou sem serem percebidos“.

Este texto pretende introduzir o leitor ao conceito de imaterialismo sustentado na filosofia de George Berkeley, um dos principais expoentes do empirismo britânico. A base usada para este estudo é a obra Princípios Do Conhecimento Humano (Editora: Escala, 2006). 

Pensemos num objeto qualquer e consideremos que o mesmo seja apresentado aos nossos sentidos por suas qualidades primárias (por exemplo: extensão, consistência, etc) e secundárias (aromas, sons, cores, etc). Para Berkeley, nada resta a um objeto quando as referidas qualidades lhe são retiradas. O filósofo entende que a totalidade das qualidades presentes em um determinado objeto se dá apenas para os sentidos de um sujeito observador, não possuindo assim nenhuma natureza externa, e assumindo caráter imaterial. A única ideia que existe é aquela que se encontra impressa nos sentidos, não existindo fora deles.

Seguindo o raciocínio proposto acima, Berkeley compreende, portanto, que o homem somente conhece sensações e ideias (que existem apenas na mente e provém dos sentidos), ambos através da experiência, mas sem jamais poder conceber o que se encontra para além disso. Tais ideias formulam-se através das relações da linguagem e são concebidas pela consciência como sendo aquilo que existe (mas não externamente, apenas como impressão mental).

“Ser é ser percebido”. Ou seja, para que um objeto exista, é necessário que haja uma mente que o perceba. (Obra de Maurits Escher).

Portanto, o filósofo não acredita que seja possível um corpo existir fora da mente, e defende esta afirmação com um pensamento que dispõe e considera como uma prova da inexistência da matéria: Berkeley crê que, se por acaso existisse um objeto fora da mente, este seria um objeto sem utilidade alguma. Tendo em vista que Berkeley era cristão, afirmava, portanto que Deus não criaria objetos sem propósito e que os objetos existem para que sejam assimilados, isto é, percebidos por um indivíduo, não havendo nenhuma lógica em que existam por si, sem que sejam assimilados por uma mente. Além disso, o pensador argumenta que se caso houvesse corpos existentes fora da percepção, seria impossível ao homem certificar-se disso, pois nem as sensações e nem a razão (que são faculdades capazes de levar o homem ao conhecimento), possuem capacidade de fornecer este fato. Neste ponto, os sentidos falham porque, conforme já mencionado acima, apenas nos levam ao conhecimento de sensações ou ideias, mas isto não significa que a matéria exista fora da mente. A razão, por sua vez, também não pode fornecer respostas, pois, ao longo da história, nem mesmo, seus próprios defensores afirmaram que haja, necessariamente, uma conexão entre corpos e nossas ideias.

Berkeley exemplifica seu imaterialismo através de alguns fatos que podem ser comumente notados no cotidiano. Pensemos, por exemplo, na doçura: esta, não encontra-se realmente naquilo que se saboreia, pois ela pode ser alterada e percebida como algo amargo (é, por exemplo, o caso de uma pessoa em estado febril). Partindo do relativismo de tal demonstração, conclui-se que figuras, extensões, cores, sabores, movimento e outras qualidades existem apenas numa mente que as recebe.  Por isso, nega a existência da ideia abstrata, pois não há como supor um corpo sem que este esteja acompanhado de uma qualidade sensível, e não há assim, como simplesmente supor que tais corpos existam externamente. Mas, Berkeley menciona um fato interessante: por que não parece haver subjetivismo quando, por exemplo, coloca-se a mão no fogo? Se todos sentem dor, tal fenômeno seria objetivo? A resposta é que o calor não se encontra presente no objeto (no caso deste exemplo, o fogo) mas sim na mente daquele que o toca: o fogo me queima porque tenho formulada em minha mente uma ideia de calor e de dor que esta temperatura proporciona conforme me aproximo do fogo. Berkeley nega assim, possibilidade da existência da ideia abstrata, isto é, não há como supor um corpo sem que este esteja acompanhado de uma qualidade sensível. Além disso, para que exista uma ideia, é necessário que exista também um observador.Um trecho escrito pelo próprio filósofo pode ajudar a esclarecer estes exemplos: “Desejo que qualquer pessoa reflita e verifique se pode, por qualquer abstração do pensamento, conceber a extensão e o movimento de um corpo desacompanhados de toda as outras qualidades sensíveis. De minha parte, vejo claramente que não está em meu poder formar a ideia de um corpo extenso e em movimento a não ser que lhe atribua, além disso, alguma cor ou outra qualidade sensível que se admite existir apenas na mente”.

Chegamos então, em um ponto importante da teoria do conhecimento da qual estamos tratando, que resume- numa simples e importante frase escrita por Berkeley: “ser é ser percebido”. Ou seja, para que um objeto exista, é necessário que haja uma mente que o perceba. Conforme Russell (p.101) comenta: (…) à parte as mentes e as suas ideias, nada há no mundo, nem é possível que qualquer outra coisa possa alguma vez ser conhecida, uma vez que o que é conhecido é necessariamente uma ideia”. Pensemos nos seguintes exemplos: seria possível que um som existisse sem que houvesse alguém que pudesse escutá-lo? Ou poderia um cheiro existir se não houvesse uma mente para captá-lo através do olfato?  Consideremos que, a partir do momento em que se pensa em algo, este algo já está existindo. Para que exista um objeto, é, portanto, necessário que exista também um observador. O filósofo fundamenta seu pensamento especulando que mesmo que não haja ninguém diante de um determinado objeto, ainda assim, este tal objeto continuará existindo porque sempre haverá outro observador que, no caso, seria Deus, sendo este também o criador das ideias e das regras e leis fixas da natureza. Logo, sempre há uma mente que percebe (lembremos: ser é ser percebido). Este Deus é também o responsável por imprimir na mente as percepções que formulados acerca de qualquer substância.

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA:

RUSSELL, Bertrand. Os Problemas da Filosofia. Lisboa: Edições 70.

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