O PESSIMISMO DE SCHOPENHAUER:

By Acervo Filosófico

Por: Juliana Vannucchi

“VIVER É SOFRER”:

Partindo da premissa de que o ser humano é essencialmente Vontade (princípio metafísico da natureza que tange a existência e desencadeia uma série de desejos no homem) e de que o mundo que o cerca consiste mera e unicamente em representação desta Vontade não deliberada, não passando assim, de ilusão, o pensamento de Schopenhauer toma um viés que é considerado pessimista. O filósofo estava ciente de que sua obra seria vista sob esta perspectiva e fez uma curiosa previsão em As Dores do Mundo: “Certamente ainda terei de ouvir que minha filosofia carece de consolação”. (SCHOPENHAUER, 2014, p. 28). Contudo, Schopenhauer se justificava afirmando que através de seu pensamento, estava apenas dizendo a verdade, e esta verdade não era o que a maior parte das pessoas gostaria de saber, por isso, alguns indivíduos optam por disfarçar a dor através de diversificadas distrações físicas e mentais. Porém, esse disfarce não dura muito tempo, e o sofrimento retorna independentemente das atitudes que o sujeito busque como forma de distração. Ocorre que estas pessoas que optam por desconhecer ou não encarar o pessimismo (que, conforme esclarecido, consiste numa faceta verdadeira da realidade que tende a ser ocultada), lançam-se numa série de afazeres e otimismos para que possam esconder-se da natural tragicidade existencial, e encobrir seus sofrimentos naturais com maquiagens, tais como o instinto sexual, o amor, a inveja, o rancor, os ciúmes, a ambição, a avareza, o temor, a enfermidade e outros tipos de ações ou sentimentos. Esse conjunto de fatores faz com que a vida seja um dever penoso que somos forçados a encarar, “mas a desgraça é a regra geral” (SCHOPENHAUER, 2014, p. 25).

“É assim que vive na Terra, abandonado a si próprio, incerto de tudo o que não seja a miséria e a necessidade que o oprime”. (SCHOPENHAUER, 2014, p. 35).

Do outro lado, também carregando uma vida marcada pela dor, encontram-se os que estão conscientes dos males da existência e que o assumem. Estes, naturalmente costumam voltar-se para o estudo da filosofia, para exercícios intelectuais e obtenção de novos conhecimentos. Neste sentido, a filosofia é um caminho para conscientização da Vontade e da representação. Logo, estas pessoas que se preocupam com o desenvolvimento mental, colocando-o em primeiro plano, acima da obtenção de prazeres físicos e realizações materiais, são as que despertarão para a percepção de sua essência metafísica, sendo que esta, em si, engloba o sofrimento como característica.

O pessimismo mundano que atormenta toda a humanidade é encontrado, primeiramente, na própria história, que é encarada como sendo composta por uma série de guerras, desavenças, tormentos, confrontos e misérias, que são interpretas como uma irrevogável evidência da situação desfavorável em que todos os homens encontram-se. Historicamente, os momentos de paz seriam raros e mínimos se comparados aos de atos de conflito e de dor, que são sempre predominantes. Além dos aspectos de cunho histórico, e aliando-se a tal fato no que diz respeito à infelicidade da existência, o ser humano também é compreendido como um ser que está sempre lutando e disputando tudo entre si, e que, por meio de tais atitudes, transforma sua vida em campos de batalha com seus próprios semelhantes. Esse conjunto de situações descritas traduz-se numa fórmula escrita por Schopenhauer (2014, p. 39): “Querer sem motivo, sofrer sempre, lutar sempre, depois morrer e assim suscetivelmente, pelos séculos dos séculos, até que nosso planeta se faça em bocados.”

Nestas circunstâncias, toda vida, de todo homem, irá essencialmente tornar-se profundamente angustiante e infeliz, sendo marcada por constantes e contínuas sensações de dores e de sofrimentos. Conforme citado anteriormente, a natureza humana é caracterizada por impulsos cegos que direcionam e condicionam toda e qualquer ação e pensamento. Este fato, consequentemente, acaba por acorrentar o homem, uma vez que o vitimiza, tornando-o impotente diante da força inconsciente e imperial com que atua essa Vontade. Para se manter viva, ela faz com que o indivíduo esteja sempre se lançando em busca de realizações que saciem uma série de desejos e necessidades inquietos e inesgotáveis dela oriundos. Como resultado, o homem é o mais necessitado de todos os seres: não tem em si mais do que Vontade, desejos encarnados, um composto de mil necessidades: “É assim que vive na Terra, abandonado a si próprio, incerto de tudo o que não seja a miséria e a necessidade que o oprime”. (SCHOPENHAUER, 2014, p. 35).

O excesso e sucessão contínua provindos de tais desejos causarão consequentemente, dor e sofrimento, uma vez que tais desejos, simplesmente, não podem jamais serem satisfeitos ou totalmente preenchidos. A essência deste querer que nunca para, é vista como o sofrimento, e a vida, por intermédio e interferência da Vontade, resume-se em querer sempre, sendo que assim, consequentemente, a vida é, torna-se, em si, essencialmente sofrimento.

Considerando este contexto, o homem encontra-se inserido num inferno mundano, no qual Schopenhauer (2014, p. 28) divide a humanidade, em ‘almas atormentadas e em diabos atormentadores’, e neste ambiente, aqueles que possuem os espíritos mais elevados, são os que terão maior consciência desta dor existencial. Por espíritos mais elevados, podemos compreender os indivíduos que possuem a percepção e que admitem suas servidões involuntárias à Vontade, e que também se encontram cientes da constante ilusão mundana na qual se insere a ‘representação’. São estes os indivíduos que terão concepção da infelicidade de suas vidas, pois não é possível que se viva pacífica e positivamente diante do conhecimento da Vontade e da representação e, dessa forma, a própria essência da humanidade é a garantia de sua catastrófica existência. O homem tenta suprimir a dor, mas nunca consegue, ela sempre se refaz de alguma maneira.

Portanto, toda vida humana é compreendida sob um aspecto angustiante, no qual, de maneira inconsciente, ou seja, sem percepção ou qualquer forma de escolha, o ser humano é impulsionado e forçado por sua própria essência, a querer qualquer coisa e, após preencher este querer, logo presencia abrirem-se portas para formulação de um novo querer que o faz projetar-se em outros movimentos, impulsionando-o para uma nova ação e, assim sucessivamente e para sempre, de modo que este ciclo jamais possa ser destruído ou evitado, pois ele é parte metafísica e necessária do homem e, consequentemente, sempre irá apenas repetir-se, gerando sofrimentos intermináveis. Quando um indivíduo consegue finalmente satisfazer um desejo que surge por intermédio de expressão da Vontade, consequentemente, se enclausura inevitavelmente em momentos tediosos, pois no instante ou nos períodos em que a vontade está momentaneamente satisfeita, a sensação de tédio é que se faz presente, já que não há motivações, impulsos ou necessidades para se suprir.

Nota-se, dessa forma, que quando presente, a Vontade é prejudicial e proporcionará tormentos, e quando em escassez, surgirá o tédio como sensação negativa e que, por sua vez, dominará a existência e também aprisionará o indivíduo, ocasionando-lhe sofrimento. Sendo assim, no momento em que se afasta da dor causada pelas necessidades, o indivíduo encontra o tédio, e essa dicotomia oscilante tange vida humana de maneira negativa, pois a luta contra a necessidade (oriunda da Vontade) é uma luta contra a própria dor, e quando livram-se da dor, o tédio surge causando um vazio interior que não pode ser preenchido. Esse tédio geralmente conduz o indivíduo a uma série de exercícios e atividades que visam superá-lo, fazendo com que as pessoas procurem prazeres e externos como festas, reuniões, luxo e riqueza, apenas para fazer com que o tempo passe. Entretanto, toda essa tentativa de superação do tédio é fracassada, pois o vazio que ele causa não pode jamais ser totalmente suprimido. Na tentativa de combater o tédio, o homem volta-se às coisas materiais, vendo nestas ações, uma forma de fugir da dor. Entretanto, ainda assim, estará agindo em vão, pois o sofrimento vencido pelo tédio, abre espaço para aparição da Vontade que irá se refazer com suas existências imperativas. Sentimos a dor, mas não a ausência da dor, sentimos a inquietação, mas não a ausência da inquietação, sentimos o temor, mas não a segurança. (SCHOPENHAUER, 2014, p. 35).

“Trabalho, tormento, desgosto e miséria, tal é sem dúvida durante a vida inteira o quinhão de quase todos os homens.” (SCHOPENHAUER, 2014, p. 26).

O homem, assim, encontra-se destinado a uma existência agonizante marcada por desejos incontroláveis que sempre irão, de alguma maneira, proporcionar sentimentos dolorosos. Somado a tais aspectos, há o fato de que a vida culminará na morte, que também é uma ocorrência que encontra-se aquém do controle de qualquer ser. Assim sendo, a tragédia não termina no habitual sofrimento cotidiano que todo homem enfrenta neste inferno mundano, pois seu destino final é angustiante, já que este fim é a morte, e esta encontra-se fora de controle. A morte se vive momentaneamente, de maneira gradual, a cada segundo que se passa, sendo assim, estar vivo significa estar morrendo. Por isso, o filósofo observa: Ao tormento da existência vem ainda juntar-se a rapidez do tempo, que nos inquieta, que não nos deixa respirar, e se conserva atrás de cada um de nós como uma vigia forçando-nos de chicote em punho. Poupa apenas aqueles que entregaram ao aborrecimento. (SCHOPENHAUER, 2014, p. 26).

Além disso, nem mesmo a própria morte, fim individual de cada ser, é capaz de extinguir a fonte das tragédias humanas, que é a indestrutível Vontade, pois esta, como essência fundamental da própria espécie humana, continua eternamente viva, sem jamais se desfazer. Sempre estamos enfrentando desilusões, sendo dominados por anseios e desafetos, esforços inúteis, e toda essa tragédia existe e faz-se presente, para terminar num inevitável fim, que é a morte. Sendo este o final inevitável, e não havendo possibilidade de escapar deste contexto, é certo que, quando imerso em reflexões que induzem à percepção de tal situação, o homem tende a sentir-se desamparado e afetado por angústias existenciais.

O pessimismo schopenhaueriano surge no momento em que o homem percebe que sua vida não lhe pertence por completo, pois todo e qualquer indivíduo está apenas acorrentado e submerso em uma Vontade impiedosa que o controlará independentemente de sua escolha, e é esse o aspecto que compõe cada ínfimo detalhe de toda existência e de todos os seres vivos. Desde as menores partículas que se encontram na natureza, até o próprio conhecimento racional do homem, tudo está à mercê da Vontade. Enquanto no íntimo, o ser humano é vontade, em seu exterior, tudo com o que pode deparar-se é mera ilusão, e sua habitual interpretação de mundo não passa de uma aparição causada e arquitetada pela maior inimiga da humanidade, a vontade. Essa agonia que é estar vivo, sendo parte necessária do homem, reflete-se e pode ser sentida em qualquer atividade cotidiana. O tormento é um sentimento que sempre se faz notável, sendo que para alguns, surge ainda na juventude, para outros, no final da vida, mas independentemente da idade, a percepção dessa sensação, em algum momento, tornara-se evidente, será perceptível que no ciclo cotidiano de qualquer homem, inevitavelmente, reina o sofrimento: “Trabalho, tormento, desgosto e miséria, tal é sem dúvida durante a vida inteira o quinhão de quase todos os homens.” (SCHOPENHAUER, 2014, p. 26).

Este contexto sempre dirigirá a vida de todos os homens e os levará para a morte, um final no qual também não há escapatória. Logo, enquanto estiver vivo, o homem sempre estará condenado a sofrer de alguma maneira, seja pela dor, seja pelo tédio ou pela morte que é seu destino inevitável e, dessa maneira, viver já é estar condenado ao desespero de uma existência miserável que culminará e acarretará em uma vida deplorável. Sobre a morte, como fim inevitável e como a certeza única de uma vida para ela direcionada, o filosófico afirmou: “A vida do homem não é mais do que uma luta pela existência com a certeza de ser vencida” (SCHOPENHAUER, 2014, p. 39).

*Nosso site dispõe de uma coluna específica com textos sobre a filosofia de Arthur Schopenhauer >> “Especiais“>> “Série: Arthur Schopenhauer“.

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA:

SCHOPENHAUER, Arthur.  O Mundo Como Vontade e Representação (III parte):  in:  Schopenhauer.  São Paulo:  NOVA CULTURAL, 2005. p.07-88. (Os Pensadores).  Tradução de: Wolfgang Leo Maar, Maria Lúcia Mello e Oliveira Cacciola.

SCHOPENHAUER, Arthur. As Dores do Mundo.  São Paulo:  EDIPRO, 2014. 136 p. Tradução de: José Souza de Oliveira.

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