O PRAZER NA FILOSOFIA DE EPICURO:

By Acervo Filosófico

Por: Juliana Vannucchi

O pensamento de Epicuro de Samos:

EPICURO E A QUESTÃO DO PRAZER: Epicuro de Samos foi um pensador grego do período helenístico (cujo início deu-se no final do século IV a.C.) que nasceu em 341 a.C., na Ilha de Samos. Foi fundador e principal expoente da filosofia epicurista. As bases de seu pensamento costumavam ser transmitidas num jardim situado nas proximidades de Atenas, e  comprado pelo próprio Epicuro, aos seus 35 anos. O local, rodeado por árvores e flores, tornou-se uma verdadeira escola na qual sua filosofia era propagada e praticada pelos frequentadores. O Jardim recebia tanto homens quanto mulheres, e aceitava também a participação de prostitutas e escravos. Conta-se, que na entrada, havia a seguinte inscrição: “Estranho, aqui será bom você se demorar; aqui nosso maior bem é o prazer. O cuidador desta morada, um anfitrião bondoso, estará à sua disposição. Ele o acolherá com pão e lhe servirá água também em abundância, com estas palavras: “vocês não se divertiram? Este jardim não aguça o seu apetite; ele o extingue“.

De maneira geral, podemos compreender que o epicurismo visa a felicidade humana, sendo que este estado pode ser atingido por intermédio do prazer. Mas para sentir a verdadeira felicidade é necessário que o homem se liberte de suas angústias, sendo que para Epicuro, os maiores tormentos que afligem um indivíduo, são o medo da morte e dos deuses. Assim sendo, se estas inseguranças foram superadas, é possível concentrar-se na busca pelo prazer moderado para se atingir a felicidade almejada, que proporcionará a tranquilidade da alma (ou seja, a ataraxia).

O prazer como bem supremo:

Para Epicuro, o sentido da vida é o prazer e a finalidade do ser humano é atingir a felicidade (eudaimonia). Para isto, a Filosofia surge como instrumento prático cujo papel é assegurar a tranquilidade de alma (ataraxia) e a ausência da dor corporal (aponía), além de libertar o homem de seus maiores medos. Dessa forma, no epicurismo, a felicidade encontra-se dentro do próprio homem, e sua aquisição depende apenas dele. Esse estado de alma pode ser alcançado através de condutas específicas que Epicuro postulou e transmitiu aos seus alunos.

O prazer é visto como um bem supremo e último para o qual devem estar direcionadas todas as ações de um indivíduo. Assim, este fim consiste numa forma de livrar a alma humana da dor e dos sofrimentos, por isso, deve ser mediado, e jamais descontrolado ou em excesso. Conforme Botelho menciona (2015, p. 128): “Epicuro, de fato, afirmava que o prazer é a fonte de todo bem; mas acrescentava que a busca de prazeres excessivos geralmente leva ao sofrimento. Sua doutrina pregava o auto-domínio humano e a apreciação máxima das pequenas alegrias da vida”.

Busto de mármore de Epicuro (cópia romana do original grego – III-II a.C.). British Museum, London.

O filósofo dividiu o prazer em duas modalidades, sendo que uma é o prazer em movimento e a outra, o prazer em repouso. A primeira possui manifestação carnal, podendo proporcionar malefícios e causar sofrimento, além de de relacionar-se com a aponía. A segunda é a forma de prazer que o filósofo considera como sendo ideal, pois consiste numa forma de equilíbrio que proporcionará benefícios tanto corporais quanto psicológicos. Um aspecto que deve ficar claro, é que esse prazer ao qual Epicuro se refere, diz respeito à uma sensação prazerosa específica que, no caso, consiste no prazer atingido através das atividades e experiências mais simples do cotidiano, contrapondo-se aos prazeres devassos e excessivos.

Dentro de tal contexto, surge o tetrapharmakon, termo que se refere a um quádruplo remédio baseado no sistema filosófico de Epicuro, e que visa curar a alma humana. Estes graus são respectivamente: não temer aos Deuses; não temer a morte; é possível suportar a dor e, por fim, o bem pode ser atingido.

a) Não temer aos Deuses:

Embora as divindades existam, elas não possuem nenhuma relação direta ou preocupação com a humanidade, e tampouco interferem em nosso mundo. Dessa forma, seria inútil servi-los, temê-los ou se preocupar com tais desuses, já que estes não fazem parte de nosso cotidiano: “Segundo ele (Epicuro), os deuses são seres materiais, como nós, mas dotados de poderes e virtudes perfeitas. Habitam regiões inacessíveis do Universo, onde desfrutam de existências absolutamente serenas e racionais, sem quaisquer preocupações”. (BOTELHO, 2015, p. 129).

b) Não temer a morte:

O medo da morte é um sentimento que deve ser superado, pois para Epicuro, o homem não é capaz de vivenciar a experiência da morte, porque, segundo o filósofo: “Enquanto somos, ela não existe, e quando ela chegar, nós nada mais seremos”. Isto é: Enquanto estamos vivos, não é possível que encontremos a morte, e no momento em que ela chegar, já não estaremos conscientes dela, portanto, este também é um temor que se torna meramente vão.

Para melhor compreensão deste aspecto, deve-se entender a importância do atomismo na base da filosofia epicurista. O atomismo foi uma doutrina filosófica surgida no período Pré-socrático, cujos principais representantes foram Leucipo de Mileto e seu aluno Demócrito. De acordo com esses pensadores, as únicas coisas que existem são o átomo e o vazio. Esses são os principais componentes que arquitetam o universo, e o mundo que conhecemos é resultado de colisões entre ambos. Epicuro foi influenciado pelo atomismo, acreditando que a alma era composta por átomos e, por isso, é reconhecido como um filósofo materialista

The Triumph of Pan” (1636), de Nicolas Poussin (The National Gallery, London).

Assim, segundo a doutrina epicurista, o espírito é tão material quanto o corpo: “A alma humana, responsável por nossas sensações, é formada por partículas invisíveis, semelhantes aos átomos do vento; quando o corpo morre, o espírito se dispersa e já não pode sentir coisa alguma”. (BOTELHO, 2015, p. 128)

A partir de tal influência, o filósofo acreditava que, pelo fato de o ser humano ser composto por átomos, dois dos maiores temores da humanidade, que são a morte e a existência dos deuses não deveriam mais assustar o homem, pois pelo fato de os átomos serem eternos e indivisíveis, morrer fisicamente não poderia representar um fim e, como estes dois temores eram obstáculos para a felicidade, o atomismo serviu como um dos pilares explicativos para que o ser humano pudesse se desprender de tais medos, e pudesse buscar a felicidade. O trecho a seguir pode ajudar na compreensão desta menção: “Como o homem é composto de uma alma e composto de um corpo, a morte não é se não a dissolução desses compostos, na qual os átomos se espraiam por toda parte, a consciência e a sensibilidade cessam totalmente e, assim, só restam do homem ruínas que se dispersam, isto é, nada”. (REALE; ANTISERI, 1990. p. 270).

c) É possível suportar a dor:

Tanto a dor psicológica quanto física, podem ser combatidas através de uma técnica específica, que é o uso da imaginação: “À dor presente, ensina Epicuro, pode-se escapar por meio da lembrança dos prazeres passados ou pela expectativa dos prazeres futuros”. (PENSADORES, p. 12).

d) É possível alcançar o bem:

O bem supremo, que é a obtenção do prazer moderado, encontra-se disponível para qualquer indivíduo. É possível encontrá-lo no cotidiano através dos atos e objetos mais simples, e então, consequentemente, pode-se conquistar a felicidade, uma vez que o prazer é o caminho para ela.

Hierarquia dos desejos:

Além das quatro verdades mencionadas acima, para obter paz interior, também é preciso que o indivíduo tenha sabedoria para discernir os tipos de desejos que lhe surgem como motivações pela busca do prazer. Há os mais relevantes, os que menos importam, e os que são inúteis. Essa classificação pode ser melhor compreendida através da tríade epicurista:

1. Desejos naturais e necessários:

São os mais importantes, fundamentais e válidos, pois representam os prazeres que são realmente necessários para conservação da vida: “Estes seriam os únicos verdadeiramente válidos, porque subtraem a dor do corpo, como, por exemplo, comer quando se tem fome, beber quando se tem sede, repousar quando se está cansado, e assim por diante”. (REALE; ANTISERI, 1990. p. 270)

Como esta categoria encontra-se ligada com a própria sobrevivência e bem-estar, deve ser constantemente mantida e saciada e, caso contrário, pode proporcionar desconfortos e até mesmo causar dores ao homem. Como exemplo deste tipo de prazer, pensemos na água que sacia a sede ou numa brisa do vento que é capaz de refrescar o homem durante um dia de calor intenso. Entretanto, lembremos que o excesso de água ou de exposição ao vento, podem prejudicar o corpo e, portanto, os prazeres naturais e necessários precisam ser adquiridos de maneira equilibrada.

2. Desejos naturais e não necessários:

Estes são os que possuem uma ligação com os prazeres naturais e necessários, mas que são supérfluos. Assim, se beber é necessário para sobrevivência, e portanto, torna-se um ato pertencente à primeira categoria, ingerir bebidas refinadas, é desnecessário, pois está além do que é básico e essencial para conservação da vida. Nesta categoria, encontra-se, por exemplo, a prática da atividade sexual, cujo prazer proporcionado, não alivia nenhum tipo de dor e também não serve para a sobrevivência humana.

3. Desejos não naturais e não necessários:

São aqueles que possuem relações com poder, honra e riqueza, portanto, são os desejos dos excessos e daquilo que é desnecessário e dispensável. Esta última categoria de prazer, não é nunca saciável e pode facilmente se tornar nociva, devendo ser sempre evitada.

Portanto, o estado alcançado pela moderação do prazer é a finalidade dos epicuristas e, somente neste ponto, é que o indivíduo atingirá a ataraxia e a aponía e, dessa forma, consequentemente atingirá o bem supremo. Para isso, é preciso ter sabedoria e paciência, pois é necessário que se saiba optar especialmente pelos prazeres oriundos das necessidades naturais, sem nunca se deixar conduzir por vias de excessos, pois estes podem somente acarretar em dor e sofrimento. O caminho correto resultará na extinção dos temores e naturalmente, em um estado de felicidade.

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REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

BOTELHO, José Francisco. A Odisséia da Filosofia. Porto Alegre: Editora Abril, 2015.

PIMENTA, Eduardo Salles. Sobre a Ataraxia: A Tranquilidade da Alma. São Paulo: Letras Jurídicas. Série Filosofia, 2007.

GOMES, Táuria. A Ética de Epicuro: Um Estudo da Carta a Meneceu. Revista Eletrônica UFSJ, 2003.

Epicuro, Lucrécio, Cícero, Sêneca, Marco Aurélio. Coleção: Os Pensadores. São Paulo: Abril, 1980.

REALE, Giovanni. ANTISERI, Dario.História da Filosofia: Filosofia Pagã Antiga. Volume 1. São Paulo: Paulus, 2004.

 

 

 

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2 Comments

  1. Reply

    Parabéns! Texto didatico e explicado de uma forma simples . Amei!:)

    1. Acervo Filosófico
      Reply

      Oi, Gabrielle! Tudo bem? Obrigada pelo elogio, que bom que você gostou, fico muito feliz em saber. Seja sempre muito bem-vindo ao Acervo Filosófico. Caso interesse, acompanhe nossas postagens através das redes sociais, você pode nos encontrar no Facebook, Instagram, Twitter e YouTube. Abraços!!

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