O QUARTO DE MARY – FILOSOFIA DA MENTE:

By Acervo Filosófico

Por: Juliana Vannucchi

Colaboração: Eduardo Faria

“Mary’s Room” ou “O Quarto de Mary” é um pensamento filosófico escrito por Frank Jackson em 1982, em seu artigo “Epiphenomenal Qualia”. Abaixo você confere uma adaptação sobre tal reflexão, seguida de complementos, meditações e algumas observações sobre o assunto. 

Mary é uma cientista brilhante, que passou toda a sua vida dentro de um quarto no qual tudo que existia era preto e branco. Todos os livros que lia e tudo o mais que compunha sua experiência exista apenas em tais tonalidades. Nesse ambiente, a brilhante cientista se especializou em Neurofisiologia da Visão e realizou estudos e investigações aprofundados sobre as cores e sobre a visão, compreendendo detalhadamente os processos pelos quais as cores se apresentam ao cérebro e como são por ele interpretadas. Assim, por mais que nunca tivesse visto nenhuma cor, carregava com ela todos os conhecimentos possíveis a respeito desse assunto. 

Certa vez, por alguma razão surgiu no quarto uma rosa vermelha, que foi vista nesse estado por Mary pela primeira vez. Contudo, lembremos que a brilhante cientista já possuía todas as informações possíveis a respeito dessa cor. Assim sendo, será que houve algo novo nessa experiência? Será que esse primeiro contato com as cores proporcionou alguma aprendizagem diferente, além das que ela já possuía? 

O que esse pensamento filosófico acima exposto propõe, é que os conhecimentos obtidos sobre os fatos físicos, embora garantam informações seguras, parecem não substituir uma experiência subjetiva e tampouco explicar um determinado estado mental experimentado por um indivíduo qualquer. Em outras palavras, saber como operam as estruturas cerebrais humanas, não garante o conhecimento de como uma pessoa percebe o mundo e interage mentalmente com ele. Nesse sentido, surge um termo de extrema relevância na Filosofia da Mente, que é o “qualia”, uma qualidade subjetiva, isto é, aquilo que é singular numa experiência mental e que não pertence ao qualitativo, ao mensurável. 

Dentro de tal contexto, é importante mencionar que essa proposta reflexiva feita por Jackson, se opõe ao Fisicalismo, linha teórica que sustenta que a atividade mental se explica como fenômeno do mundo físico, afirmando que ao se conhecer os fatos físicos, se conhece tudo o que é possível conhecer, uma vez que são estes que traduzem a realidade mental – ou seja, a mente é reduzida ao próprio cérebro. Portanto, agora novamente pensando na experiência de Mary com a rosa colorida, podemos concluir que: “Se você acha que ela ficaria surpresa (isto é, ao ver a flor), talvez você ache que o fisicalismo é incorreto, porque embora ela soubesse todos os fatos físicos sobre a visão, você acha que ela ainda aprendeu algo quando viu o vermelho pela primeira vez”. (GARVEY; STANGROOM,  2013, p. 367). 

Consultoria e revisão de Eduardo Faria:

Eduardo Faria é pesquisador bolsista ativo do CNPQ em Filosofia da Mente, com viés histórico-crítico. Possui o autor americano Thomas Nagel como foco de estudo, e atualmente está desenvolvendo a pesquisa “Relações entre fenômenos mentais e ação em Thomas Nagel”. Possui interesse nas áreas de Ontologia, Filosofia da Ação, Ética, entre outras.

REFERÊNCIAS:

GARVEY, James, STANGROOM, Jeremy. A História da Filosofia. São Paulo: Editora Octavo, 2013. Tradução de Cristina Cupertino.

Como é ser um morcego? Tradução de Paulo Abrantes e Juliana Orione (Unicamp).

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