O SER E O NÃO-SER DE PARMÊNIDES EM DK 28 B 6 1-2:

By Acervo Filosófico

Por Pedro Braccia

Parmênides foi um filósofo grego de Eleia (colônia grega do sul da Itália), que viveu de 530 a.C. a 460 a.C. Sua única obra conhecida, o poema “Da Natureza”, preservou-se por cópias de restauração realizadas ao longo do tempo, que chegaram até o presente na forma de fragmentos; e por isso não se sabe que porcentagem do poema original possuímos hoje. A primeira edição crítica do poema de Parmênides foi feita por H. Diels em 1897. Depois, ele trabalhou em associação com W. Kranz, e passou para a publicação dos fragmentos conhecida pela sigla “DK28”.

São dezenove fragmentos em 160 versos, ordenados segundo H. Diels. O poema demonstra uma estrutura em três partes: o prólogo (fragmento 1) descreve a viagem de um jovem através do cosmo, ao longo da noite, por um carro conduzido pelas “filhas do sol”, até a morada da Deusa. Ela anunciará ao jovem os dois únicos caminhos de investigação possíveis: o caminho da verdade (alétheia) (do início do fragmento 2 até o final do fragmento 8) e o caminho da opinião (dóxa), em que não há certeza (do final do fragmento 8 ao término do poema). Esta última parte inclui a exposição de uma teoria cosmológica.

O tema que vamos apresentar neste artigo diz respeito a uma questão trazida pelo poema, que vem sendo debatida desde a antiguidade grega, e que pode ser expressa pela pergunta: “Pode o ‘Não-Ser’ ser pensado”? Parmênides afirma que se pode pensar e dizer sobre o Ser; porém para o Não-Ser ele pede cautela, conforme aparece nos dois primeiros versos do fragmento 6, em que se lê:

“É necessário que o ser, o dizer e o pensar sejam, pois podem ser; enquanto o nada não é: nisto te indico que reflitas.”

PARMÊNIDES (DK28 B 6 1-2).

A Deusa começa seu discurso proclamando a existência de dois caminhos para o conhecimento da realidade: ‘o que é’ e ‘o que não é’. Sobre o primeiro, ela afirma que é o caminho da confiança, pois acompanha a realidade. A verdade sobre qualquer coisa é a própria coisa, e esta tem de coincidir com a realidade – portanto ‘Verdade’ e ‘Realidade’ são a mesma coisa. Entre tantas coisas no mundo é possível saber sobre um cavalo, por exemplo. É possível apontar para um cavalo e dizer “isto é um cavalo”. É nesse sentido que podemos ‘pensar’ sobre um ser qualquer, seja ele o cavalo ou uma pedra.

De outro modo, quanto ao caminho de ‘o que não é’, o argumento de Parmênides transcorre na seguinte maneira: a afirmação diz ‘é’, e o que ‘é’ se mostra; a negação nega, mas o que ela nega? Como se mostra o que ela nega? Logo se observa que não se está falando de nada. Parmênides, em DR28 B 2, já esclarece: “o outro que não é, que tem de não ser, este indico ser o caminho em tudo ignoto, pois não poderás conhecer o não-ser; não é possível nem indicá-lo […]”. Usando o mesmo exemplo anterior do cavalo – o que seria um não-cavalo? Pode ser tudo, pode ser uma pedra, um livro… Neste sentido, o ‘ser’ é uma afirmação – acompanha a realidade e resulta numa identidade entre o pensamento e o ‘ser’; já o não-ser é irreferenciável, não tem existência – não poderá ser pensado. Sobre essa questão, em “Interpretação do poema de Parmênides”, J. T. Santos cita:

“Ora, é precisamente essa indefinição que nos impede de conhecer um ‘não-cavalo’. Porque, se um cavalo é uma coisa definida, um não cavalo (qualquer ‘não-x’) pode ser tantas que, por isso mesmo, não é coisa nenhuma.” (PARMÊNIDES, 2003 p. 63)

Parmênides é considerado o fundador da Escola Eleática, que defende duas espécies de conhecimento – uma que vem dos sentidos e que resulta em ilusão, e a outra que provém do raciocínio, sendo esta verdadeira e coincidente com a realidade. A partir desta oposição sobre as bases que formam o conhecimento, vê-se o indício do que seria um dos temas mais fundamentais e discutidos em filosofia, que posteriormente se convencionou denominar “empirismo e racionalismo”.

REFERÊNCIAS

PARMÊNIDES. Da Natureza. 3.ª ed. São Paulo: Loyola, 2013. 120 p. (Leituras Filosóficas). Tradução, notas e comentários de José Trindade Santos.

NIETZSCHE, Friedrich. A Filosofia na idade trágica dos gregos. Lisboa: Edições 70, 1995. 109 p. (Textos Filosóficos). Tradução de Maria Inês Madeira de Andrade.

 

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