OBSERVAÇÕES: KANT E A RAZÃO PRÁTICA (parte 1):

By Acervo Filosófico

Por Casagrande

Primeiramente gostaria de deixar claro que o texto a seguir e os próximos dois textos que serão postados foram divididos para que a compreensão para quem não estude filosofia Kantiana se dê mais facilmente. É importante ressaltar que os assuntos não se separam jamais e a divisão foi feita tendo em vista o motivo já anteriormente citado. Os textos, a partir deste, tratarão respectivamente da razão, moral e ética.

“Se como razão pura, ela é realmente prática, isso demonstra a sua realidade e a dos seus conceitos por esse mesmo fato, sendo vã toda disputa contra a possibilidade de ser ela prática” (pg 11).

Existem maneiras de se negar a realidade objetiva, de um modo inconsequente do pensar, encara-se a realidade concedida em relação aos objetos da razão prática, porém para adquirir um modo consequente deve-se postular que as categorias estão contidas na necessária determinação a priori da vontade, ou seja, as categorias estão ligadas inseparavelmente ao seu objeto.

“Conceito de liberdade, sob o qual se deve notar, com surpresa, que muitos se jactam de compreendê-lo inteiramente e de poder explicar a sua possibilidade, considerando unicamente do ponto de vista psicológico, enquanto, se a tivessem antes examinado com exatidão, no ponto de vista transcendental, teriam de reconhecer tanto a sua indispensabilidade, que está, enquanto conceito problemático, no uso completo da razão especulativa, como também a sua total incompreensibilidade e se, depois, passassem o uso prático de tal conceito teriam de chegar por si mesmos a determinação dele em relação aos seus princípios, segundo essa mesma determinação a qual tantas dificuldades apresentam. O conceito de liberdade é rochedo de todos os empiristas, mas é também a chave dos princípios práticos mais sublimes para os moralistas críticos, que compreendem com isso que devem necessariamente proceder de um modo racional” (pg 15, 16).

Quanto aos objetos faz-se necessário que utilizemos uma diferenciação entre os mesmos, para Kant, o objeto (objekt) é aquele que possui uma finalidade, ele possui uma existência metafísica, porém, isso não exclui o fato dele ser fisicamente possível pois ele é suposto pela vontade de desejar a partir do uso livre da força, ele é um objeto em si, pode ser constituído pelo bem (gut) e mal (böse), enquanto que, o objeto (gegenstand) refere-se aos objetos que se apresentam necessariamente  de forma empírica, é um objeto de conhecimento prático. Porém, se a lei pode considerar-se a priori como princípio determinante da ação (determinada pela razão pura prática), o juízo de se algo é ou não um objeto (G) independe inteiramente da comparação para com o poder físico do observador e o objeto (G) é constituído pelo bem (wohl) e mal (weh ou übel) que tratam da relação com o nosso estado de satisfação ou desagrado.

É permitido querer uma ação que tenha como finalidade um objeto (O), supondo o poderio (posse) do objeto (O) o que se deve preceder é a possibilidade moral da ação, pois o objeto (G), não é o princípio determinante mas sim, a lei da vontade, (p. 67).

“Se o conceito de bem não se origina de uma lei prática que lhe preceda, mas, antes deve servir de fundamento a essa, só pode então ser o conceito de algo cuja existência de prazer” (pg 68).

Sobre a fundamentação da metafísica dos costumes, Kant afirma que só é aplicada enquanto trava um conhecimento provisório, indica uma forma, justificando-a. Dar de um modo completo os princípios de sua possibilidade, extensão e limites, sem referência particular a razão humana desse modo abre-se mão da ideia de que o princípio supremo da filosofia prática necessariamente resulta no fator empírico?

A causalidade do sujeito em sua capacidade de desejar é movida pelo prazer, porém é impossível discernir a priori qual a representação que será acompanhada de prazer (e desprazer), caberia a empiria esta ação, pois depende de uma dedução, não deve-se haver uma quantificação; O juízo moral, sempre será diferente do juízo lógico. (p. 68).

“Nihil appetimus nisi sub ratione boni; nihil aversamur, nisi sub ratione male”

“Nada desejamos por indicação da razão, se não o que tenhamos por bom ou mau” (pg 69)

O bem ou o mal independem de suas representações sensíveis/subjetivas, sempre possuem relação com a vontade, sendo esta nunca determinada pelo objeto em sua representação, mas é a faculdade de fazer de uma regra da razão a causa motora de uma ação. No livro, Kant cita o exemplo do Estóico, que em meio a dores artríticas, exclamava: “Dor, podes me atormentar ainda mais, porém jamais reconhecerei que sejas algo de mau”.

A dor era algo mau. De forma alguma diminuiria o valor da pessoa em si, mas sim de seu estado. Apenas a razão pura, sem interesses sensíveis, pode julgar o que é bom (gut) ou mau (böse), lembrando sempre da faculdade de desejar determinante para isso.

A razão não deve ser utilizada para misticismos. Todo conhecimento sobre a realidade sensível provem de uma experiência cujos dados se estruturam graças as intuições da sensibilidade determinada empiricamente. Logo após as representações proporcionadas pela sensibilidade se ordenam segundo as categorias do entendimento ou formas a priori da razão que funcionam como ordenações lógicas das experiências singulares (únicas nos quesitos de: espaço, tempo, matéria, existência) das quais tratam os conceitos empíricos. Não existe para o homem as coisas em si, mas sim fenômenos, que por sua vez, são coisas da maneira como são percebidas e elaboras pelo entendimento humano. O conhecimento é um processo de síntese onde o intelecto é a forma e a experiência o conteúdo. O nexo entre ambas as partes é a faculdade criadora do homem.

Deve-se começar pela possibilidade de princípios práticos a priori para só a partir daí passar aos conceitos dos objetos de uma razão prática (aos conceitos do bem e do mal enquanto tais). A relação da razão pura prática com a sensibilidade se dá através da influência exercida pelo sentimento moral, a sensibilidade não é intuição é apenas sentimento. Como a razão pura é considerada em seu uso prático, partindo de princípios a priori e não determinação empírica, a divisão da analítica da razão pura prática terá de assemelhar-se a de um silogismo (indo do geral na maior [princípio moral] por meio de uma subsunção de ações possíveis [boas e más] estabelecida na menor, para uma conclusão, ou seja, a determinação subjetiva da vontade [um interesse pelo bem prático possível e na máxima nele fundada]). A faculdade de um conhecimento puro da razão pode ser demonstrada a priori através de exemplos tirados das ciências (metodismo empírico).

“A razão pura prática tem de começar necessariamente por princípios que devem ser postos como fundamento de toda ciência, como dados primeiros, e não podem dela originar-se (…) Todo elemento empírico que, como principio de determinação da vontade pudesse ser introduzido em nossas máximas dá-se a conhecer imediatamente por meio do sentimento prazer (ou desprazer) que, necessariamente, a ele se une, enquanto excita os desejos, opondo-se porém, aquela razão pura prática a admitir esse sentimento como condição em seu princípio.” (p. 101)

Sobre a antinomia da razão pratica, no sumo bem, considerando-o como pratico (isto é, realizado mediante a vontade), a virtude e a felicidade são concebidas como necessariamente ligadas. Essa ligação é analítica ou sintética. Como sintética, a ligação da causa ao efeito, já que concerne a um bem prático, isto é, a um bem possível pelas ações possui duas subdivisões: O desejo de felicidade como causa motriz da máxima da virtude e a máxima da virtude como causa eficiente da felicidade. A primeira divisão é impossível, como foi acabado de ser mostrado, pois assim como a  analítica, as máximas que põem o princípio de determinação da vontade no desejo de sua felicidade, não são morais e não podem servir de nenhum fundamento a nenhuma virtude. A segunda divisão também é absolutamente impossível porque toda conexão prática das causas com os efeitos no mundo, como consequência da determinação da vontade, não se regula pelas intenções morais da vontade, mas pelo conhecimento das leis naturais e pelo poder físico de usá-las para seus desígnios; E não se pode esperar no mundo uma conexão necessária e suficiente para o sumo bem da felicidade com a virtude, mediante a mais exata observância das leis morais. Porém, como o fomento do sumo bem que contém em seu conceito esta conexão, é um objeto a priori necessário da vontade, sempre conectado com a lei moral, a impossibilidade de tal fomento é a prova da falsidade desta lei. Portanto, se o sumo bemé impossível segundo leis práticas, logo, a lei moral também é impossível e dirigida a um fim vazio e imaginário e, portanto, ser falsa em si mesma.

No que diz respeito à solução crítica da antinomia da razão prática deve-se lembrar que a razão pura especulativa apresenta um conflito análogo entre necessidade natural e liberdade, na causalidade de eventos no mundo, sendo este resolvido pela própria demonstração de que não era um conflito verdadeiro quando se consideram os eventos e o próprio mundo em que eles ocorrem apenas como fenômenos. Uma vez que um só, portanto único, ser agente é dado como fenômeno, tem sempre uma causalidade no mundo sensível que é sempre conforme ao mecanismo natural, mas, enquanto se considera o agente ao mesmo tempo como número (ou seja, como inteligência pura, não determinada no tempo), pode conter um princípio de determinação dessa causalidade seguindo leis naturais que é, por si mesmo, independente de toda lei natural. É exatamente o mesmo que ocorre com a antinomia razão pura prática. Ou ela é inteiramente falsa pois a busca da felicidade vem a produzir um princípio de intenção virtuosa, e será explicado mais adiante porque isso é impossível, ou ela não é absolutamente falsa, estando apenas em uma qualificação de condicionavelmente falsa, tendo em vista que a intenção virtuosa produz necessariamente a felicidade. Esta só é falsa enquanto considerada como forma da causalidade no mundo sensível. Se é admitido a existência no mundo sensível como único modo da existência do ser racional, não é portanto inteiramente falsa, mas como já dito anteriormente, condicionalmente falsa pois tem a conexão com a felicidade. A moralidade da intenção jamais pode se dar se não acidentalmente, e não pode, portanto, ser suficiente para o sumo bem.

“O sumo bem é o fim supremo e necessário de uma vontade moralmente determinada, constituindo um verdadeiro objeto (objekt) dessa razão prática; porque ele é praticamente possível, e as máximas da vontade, no que tal objeto se refere a sua matéria, tem realidade objetiva; tal realidade inicialmente estava comprometida pela antinomia existente na conexão da moralidade com a felicidade, segundo uma lei universal, mas isso não passou de um mal entendido, visto que se considerava a relação entre fenômenos como relação das coisas em si com esses fenômenos.” (p. 126)

Toda faculdade de espírito possui (pode ser atribuído) um interesse. Esse interesse por sua vez, é o princípio que encerra a condição sob a qual é favorecido somente seu exercício. Na faculdade dos princípios temos a razão que não somente determina o seu próprio interesse (enquanto se coloca como fundamento, como patologicamente condicionada, ou seja, administrando o interesse das inclinações, sob o princípio sensível da felicidade, não seria lícito fazer essa exigência da razão especulativa) como também o de todas as forças de espírito. Em uso especulativo como razão pura, seu interesse consiste no conhecimento do objeto até chegar aos mais elevados princípios a priori, enquanto que, em seu uso prático, consiste na determinação da vontade, em relação ao fim último e mais completo. É necessário que seus princípios e afirmações não se contradigam entre si. Somente a extensão da razão, e não o simples acordo consigo mesma, será tomado como seu interesse, o uso prático não se opõe de forma alguma ao seu interesse, consiste na limitação da temeridade especulativa, como se fosse uma extensão propriamente dita da mesma.

“Dessa forma, na união da razão especulativa com a razão pura prática em vista de um conhecimento, o primado pertence a esta última, sempre pressupondo, porém, que a referida união não seja contingente e arbitrária, mas, fundada a priori na própria razão e, consequentemente, necessária. Com efeito, sem esta subordinação, surgiria um conflito da razão consigo mesma, porque se elas estivessem simplesmente associadas uma com a outra (coordenadas), a primeira ficaria estreitamente encerrada nos seus limites, sem admitir em sua esfera nada da segunda, enquanto essa última estenderia sua jurisdição sobre todas as outras coisas, onde a sua necessidade o exigisse, procuraria incluir em seus limites todos os demais. Entretanto, não se pode pretender da razão prática que se subordina a razão especulativa, invertendo, assim, a ordem, porque, em última análise, todo interesse é prático, e mesmo o interesse da razão especulativa só é condicionado e completo no seu uso prático.” (p.132)

Para pensar um objeto na razão pura, deve-se pensa-lo pelas categorias, pois essas podem ser feitas sem a necessidade de intuição, seja essa sensível ou supra sensível, porque as categorias indicam apenas um objeto em geral, seja qual for o modo que ele venha a se apresentar.

No que diz respeito ao assentimento resultante de uma exigência da razão pura é importante primeiramente mostrar as diferenças mais perceptíveis entre os dois tipos de razão: a razão pura especulativa não dá realidade objetiva há um derivado, mas, tem sua finalidade da satisfação inteira na razão investigadora do derivado e, portanto, não assegura uma realidade, apenas a explica enquanto que a razão pratica conduz a postulados, postulados esses, fundados em um dever de tornar algo (o sumo bem) objeto de determinada vontade, para fomenta-lo com todas as suas forças.

“A conduta do homem, enquanto, sua natureza permanece como é hoje, resultaria em mero mecanismo (…) como somos constituídos de um modo bem distinto desse (referindo-se a marionetes coordenadas), só podemos, mesmo diante de todos os esforços de nossa razão, ter uma perspectiva obscura e equivoca acerca do futuro”. (p. 157).

A metodologia da razão pura prática, não pode confundir-se com metodologia em sentido científico, visa  formar o modo para tornar subjetivamente pratica a razão objetivamente pura “… se a lei da moralidade e a imagem da santidade e da virtude deve exercer alguma influencia em nossa alma, não poderá fazê-lo senão enquanto se apresente com um mobil puro e despido de toda a consideração de interesse pessoal, porque é sobretudo na desgraça que mostra sua dignidade (…) Todo misto de mobiles que resultam da própria felicidade é um obstáculo a influencia da lei moral sobre o coração humano.” (p. 166).

 

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