OBSERVAÇÕES: KANT E A RAZÃO PRÁTICA (parte 2):

By Acervo Filosófico

Por Casagrande

Um sistema de razão pura, inclusive da razão especulativa e todos os demais conceitos (os de Deus e da imortalidade) que, enquanto simples ideias, permanecem na razão especulativa sem apoio, conectam-se com esse conceito, e adquirem com ele e por meio dele, consistências e realidades objetivas: A sua possibilidade é demonstrada pelo fato de ser liberdade efetiva uma vez que tal ideia se manifeste por meio da lei moral. Sem a lei moral ter sido pensada anteriormente na razão não há sentido em admitir alguma coisa como liberdade (ainda quando esta não implique contradição). Mas, se não houvesse qualquer liberdade de forma alguma poderia se encontrar em nós a lei moral; Coisas como Deus/imortalidade não são condições da moral, mas sim, do objeto necessário de uma vontade determinada por essa lei, em outras palavras são apenas ferramentas da lei moral (como ferramentas, condições de objeto). Para existir a relação prática das ferramentas com a moral basta que elas (ferramentas) não possuam nenhuma contradição interna.

“E assim o uso prático da razão encontra a sua união com os elementos de uso teórico (…) Mas, uma vez que eles, na realidade, não se disporiam a isso, provavelmente porque não podem, devemos tornar a tomar as armas em nossas mãos, para buscar o uso moral da razão e nele fundar os conceitos de Deus, de liberdade e imortalidade, para os quais não encontra aquela especulação suficiente garantia de sua possibilidade” (p. 13).

“Viver é o poder que possuímos em ser de agir segundo as leis da faculdade de desejar” (p. 17)

Segundo Kant, a faculdade de desejar é o poder que ela tem de ser, por meio de suas representações, causa da realidade do objeto dessas representações, sempre ligada a uma noção de prazer. Prazer este que é a representação da concordância do objeto ou da ação nas condições subjetivas da vida, ou seja, com o poder da causalidade de uma representação relativamente a realidade de seu objeto (ou em relação a determinação nas forças do sujeito para a ação de produzi-lo). A crítica da razão prática trata das categorias que não contém nada de empírico, a ideia do todo considerada na razão pura nada mais é que uma derivação do conceito do todo, para isso deve-se ter um conhecimento mais íntimo do sistema pois caso contrário não é possível a compreensão. As quinze categorias são: a essência, que age como um substantivo, a quantificação que trabalha com numerais, a qualificação que remete adjetivos, a relação que trabalha com o comparativo, o espaço que refere-se ao lugar, a posição que trata do modo, a posse/hábito que é um complemento indicativo, o tempo que age como um advérbio, a ação que por sua vez é um verbo propriamente dito, o efeito/paixão que é uma participação passiva, o gênero que é o que é, a espécie relacionada a forma, a diferença que trata da alteridade, o próprio (não expressa a essência mas a ela pertence), e por fim, o acidente que aparece/desaparece sem destruir a essência.

“Entendo por conceito da razão pura prática a representação de um objeto como um efeito capaz de ser produzido pela liberdade” (p. 67).

O prazer é a causa do belo, com isso conclui-se que a beleza não é propriedade dos objetos, mas sim a recepção que pode ocorrer de um observador do mesmo, mesmo que baseado numa subjetividade representativa (lógica e/ou estética) com isso, afirma-se que a experiência de belo, assim como o prazer é próprio de cada indivíduo. Vale-se destacar que existe uma diferenciação considerável entre o agradável e o belo, o primeiro não reivindica universalidade ou seja, sua existência não é universalmente igual mesmo que seja universalmente ocorrente, já o segundo é efetivamente universalizante ou seja promove algo independente da consciência, é algo prévio do sujeito cognoscente.

A universalidade sem conceitos possui representação em dois aspectos:

Estético: trata de uma quantidade subjetiva do juízo, remetendo-se a uma validade comum e por fim a uma validade da referencia ao sentimento de prazer/desprazer;

Lógico: trata-se de uma quantidade objetiva do juízo, remetendo-se também a uma validade comum porém com a diferenciação de por fim existir uma validade de referencia a faculdade do conhecimento.

É importante destacar a diferenciação para Kant entre a validade universal lógica que é objetiva e universal (a lógica no âmbito subjetivo faz com que cada sujeito que utilize o conceito representará o mesmo objeto, sempre de forma externa. O juízo de gosto não é universal.) e a validade universal subjetiva (é universal sem o conceito, ou seja não possui um padrão, não remete ao objeto e é uma extensão do predicado da beleza, a todos os que julgam).

A personalidade em Kant é dada pelo homem e sua submissão a si pelos sentidos junto com o aspecto de sua existência empiricamente determinável, ou seja, sempre estará atrelado a um espaço-tempo. A personalidade é a liberdade e independência de um mecanismo de toda a natureza, é a faculdade de um ser que está submetido a leis particulares (a saber a leis puras práticas dadas pela sua própria razão). Como o ser está preso a um mundo sensível, está sujeito a sua própria personalidade ao mesmo tempo em que também pertence a um mundo inteligível, com isso fundam-se várias expressões que indicam o valor dos objetos segundo ideias morais. “A lei moral é santa (inviolável). É verdade que o homem não é muito santo, mas ele deve ter como santa a humanidade em sua pessoa. Tudo o que existe na criação, tudo o que se quiser e sob o que se tenha algum poder, podendo utilizar como um simples meio: somente o homem e, com ele, toda criatura racional é um fim em si.” (p. 97)

Consequentemente o homem é o sujeito da lei moral que é santa graças a autonomia de sua liberdade; Qualquer vontade portanto, é dirigida a si mesmo. Vontade esta, limitada a condição de um acordo com a autonomia do ser racional (não submissão a qualquer objetivo que não seja possível segundo uma lei que possa provir da vontade do sujeito passivo), o sujeito não é então um simples meio mas também um fim ao mesmo tempo.

“Impomos essa condição até mesmo a vontade divina relativamente. Aos seres racionais no mundo, enquanto criaturas suas, porque ela se funda sob sua personalidade, graças a qual unicamente constituem fins em si mesmos.” (p. 97).

O contentamento de si mesmo (selbstzufriedenheit) é o termo que designa uma satisfação na sua existência, um análogo a felicidade que tem de acompanhar necessariamente a consciência de virtude. Designa sempre apenas uma satisfação negativa em sua existência, na qual se está consciente de nada precisar. Nos princípios práticos da antinomia da razão pura prática dá para deduzir que uma relação natural e necessária entre a consciência de moralidade e a sua esperança de uma felicidade como consequência daquela, pode ser pensada como possível; pelo contrário, os princípios da procura da felicidade não podem produzir moralidade, com isso o bem mais elevado (como condição primeira do sumo bem) constitui a moralidade, e a felicidade forma seu segundo elemento de modo que é a consequência moralmente condicionada, não necessária à primeira. Apenas nessa subordinação o sumo bem é o objeto total da razão pura prática, que se representa como possível, pois é um mandamento dela mesma contribuir de todo modo possível para a sua realização.

As ideias de Deus, de um mundo inteligível (considerado por Kant como reino de Deus) e da imortalidade, são determinadas por predicados deduzidos na nossa própria natureza, portanto, é errado considerar essa determinação como representação sensível daquelas ideias racionais puras (antropomorfismo), assim como também é errado, considerá-las como conhecimento transcendente de objetos supra sensíveis (pelo simples fato de que tais predicados, não são outra coisa senão o entendimento e a vontade enquanto deles fizermos um uso pratico puro). Em suma, ao observarmos empiricamente as vontades pelo exercício, constatamos, que o entendimento do homem é discursivo e, portanto, as suas representações são pensamentos e não intuições, ocorrem no tempo, sua vontade tem sempre a satisfação dependente da existência de seu objeto, etc; ou seja, coisas que não se aplicam ao Ser supremo, e, como consequências não puras e sempre determinadas empiricamente a partir de uma personalidade. Cabe então, não o estudo dos seres supra sensíveis como tais, mas sim, o seu uso exclusivo ao exercício da lei moral.

É possível, então, conceber uma extensão da razão pura em sentido pratico, sem ao mesmo tempo distender o seu conhecimento do ponto de vista especulativo. Deve ser dado um alvo a priori (um fim) enquanto [Objekt] que, independente de todo o principio teórico, seja representado como praticamente necessário por um imperativo que determine imediatamente a vontade, o que vem a ser o sumo bem. Mediante a lei pratica (que exige a existência do sumo bem possível em um mundo), é postulada a possibilidade daqueles objetos (Objekte), porque a razão pratica necessitava inevitavelmente da existência deles, para a possibilidade de seu objeto, o sumo bem, que no plano pratico é absolutamente necessário, e porque a razão teórica é autorizada pressupô-los (lembrando sempre que: o objeto da prática unido a pura, não é para fazer dela [da pura] um uso positivo em sentido teórico).

 

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