OS CANIBAIS – MONTAIGNE:

By Acervo Filosófico

Por: Juliana Vannucchi

Michel de Montaigne foi um dos mais célebres pensadores franceses. Sua obra magna chama-se “Ensaios” e foi publicada pela primeira vez em 1580, na cidade de Bordeaux. Nela, através de uma linguagem especialmente agradável, o filósofo medita sobre diversos temas, como, por exemplo, a morte, o medo, a solidão, a consciência, a idade e várias outras abordagens. E dentre tantas reflexões, uma das mais interessantes feitas por Montaigne ao longo dessa preciosa e vasta obra é a respeito dos canibais, que são os índios brasileiros da tribo Tupinambá. Na época desse escrito, a Europa vivia o deslumbre e as diversas consequências das descoberta e colonização dos novos continentes, dentre os quais se encontrava a França Antártida, que corresponde ao Brasil. Montaigne teve contato com um viajante que viveu no “novo mundo” durante cerca de dez ou doze anos, e em 1562, o próprio filósofo, por sua vez, também teve contato com índios brasileiros.

Eles não sabem o que é fuga e pavor“. (2017, p.149)

O filósofo, em certos momentos, parece denunciar a hipocrisia dos europeus ao notar que a civilização europeia é, na realidade, menos “civilizada” e mais “selvagem” do que os indígenas, oferecendo um olhar comparativo entre os “selvagens” e a civilização. É interessante quando ele menciona que os maiores esforços feitos por parte do homem civilizado não chegam perto das proezas e belezas que surgem da natureza. Também analisa com certa cautela as divergências culturais existentes entre seus europeus e os canibais, fazendo o seguinte comentário em relação à questão da barbárie, que foi uma dos traços indígenas que mais chocou os contemporâneos: “Cada um chama de barbárie o que não é seu costume”. A esse respeito, Montaigne também ressalta que o povo dessa nova nação descoberta é chamado de selvagem no sentido de serem tal como “os frutos que a natureza produziu por si mesma e por seu avanço habitual; quando na verdade os que alteramos por nossa técnica e desviamos da ordem comum é que deveríamos chamar de selvagens”. (2017, p.145). 

Com base em relatos que chegaram até ele, comenta alguns aspectos descritivos de enorme valor histórico em relação aos índios: “Estão instalados ao longo do mar e cercados do lado da terra por grandes e altas montanhas, tendo entre os dois uma extensão de cerca de cem léguas de largura”. (2017, p147). Montaigne diz também que tomam uma bebida feita de raiz, fala que dançam durante todo o dia, que sustentam a crença de que a alma é eterna e têm vários deuses. No “novo mundo”, a poligamia, (isto é, ter mais de uma esposa) é uma prática normal e quanto mais bravura possui um homem, mais mulheres tende a ter, portanto, a quantidade de companheiras está intimamente relacionada com a virtude. Montaigen também comenta que a base moral dos índios é especialmente pautada na valentia, que deve ser prezada e mantida durante a guerra e também na amizade que os homens nutrem por suas mulheres. A guerra, aliás, tem enorme importância para os índios que se mostram sempre preparados para enfrentá-la com bravura: “Eles não sabem o que é fuga e pavor”. (2017, p.149). Outro ponto do livro que é muito curioso, é quando o filósofo conta que os que prisioneiros de guerra são assados e comidos e alguns pedaços são enviados para as pessoas que estão ausentes. Mas nesse ponto, ele ressalta que os métodos de tortura praticados pelos descobridores desse novo mundo é bem pior, mais doloroso e cruel e diz que: “… podemos muito bem chamá-los de bárbaros com relação às regras da razão, mas não com relação a nós, que os ultrapassamos em toda espécie de barbárie”. (2017, p.151). Embora esse aspecto cultural possa causar reprovação, de maneira sagaz, o filósofo comenta: “Não fico triste por observar o horror barbaresco que há em tal ato, mas sim por, ao julgarmos corretamente os erros deles, sermos tão cegos para os nossos”. (2017, p. 150).

Esse ensaio carrega em si um valor histórico de imensa relevância. Mas ele consiste em muito mais do que apenas descrições de cunho histórico, apresentando reflexões profundas e questionamentos diversos sobre a cultura, sobre as categorizações precipitadas que fazemos a ela, e também sobre o comportamento humano. Além disso, através do texto, Montaigne ataca com brilhantismo a hipocrisia e a ignorância de seus contemporâneos. 

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA:

MONTAIGNE, Michel de. Os Ensaios. São Paulo: Companhia das Letras, 2017.

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