OS CONCEITOS DE GÊNIO E IDEIA NA FILOSOFIA DE SCHOPENHAUER:

By Acervo Filosófico
Por: Juliana Vannucchi
Este texto pretende transmitir aos leitores os significados de dois conceitos presentes no sistema filosófico de Arthur Schopenhauer, que são: “Gênio” e “Ideia”. Para maior aprofundamento na compreensão e estudo de tais tópicos, sugerimos a leitura das seguintes obras: O Mundo Como Vontade e Representação e A Metafísica do Belo.

Ilustração que representa um dos habituais passeios de Arthur Schopenhauer com seus poodle.

O termo “Ideia” foi herdado e influenciado diretamente pelo platonismo (ressalte-se que, ao lado de Kant, Platão foi a principal influência filosófica de Schopenhauer). No contexto filosófico do pensador alemão, as Ideias terão basicamente o mesmo significado que tinham para Platão, embora operem no mundo de uma maneira diferente da qual o pensador grego sugeria que operassem. Para Schopenhauer, as Ideias podem ser definidas como uma objetividade imediata da Vontade (raiz metafísica, eterna e irracional do mundo) em um determinado grau, consistindo, portanto uma representação, mas que não se encontra submetida ao princípio da razão, cujas formas a priori do conhecimento intuitivo são o espaço, o tempo e a causalidade. Elas conservam formas essenciais, arquétipas, permanentes e universais: “A Ideia é a Vontade assim que esta se tornou objeto, contudo, ainda não entrou no espaço, no tempo e na causalidade. Espaço, tempo e causalidade não concernem à Ideia, tampouco à Vontade”. (SCHOPENHAUER,  2001, p.34).

O gênio, por sua vez, é aquele que possui a capacidade de captar as Ideias através de seus olhos cósmicos, e inseri-las de maneira pura em suas obras, permitindo, dessa forma, que o espectador, através dos olhos do artista, participe da contemplação destas tais Ideias, fato este, que irá levá-lo a se desprender momentaneamente dos desejos oriundos da Vontade e, consequentemente, aniquilará seu habitual sofrimento, embora isso aconteça apenas de maneira momentânea. Neste ponto, é importante mencionar que o conceito de gênio não faz parte exclusivamente do artista, mas encontra-se presente em diferentes graus na natureza de todo e qualquer ser humano, uma vez que qualquer indivíduo é capaz de captar e reconhecer o Belo (seja na arte ou na natureza). Conforme comenta Jair Barboza (1997, p.63): “O gênio é a faculdade de intuir Ideias. Todos a possuem, em maior ou menor grau. Alguns são mais, outros são menos geniais”. Contudo, o artista é quem possui o grau máximo de genialidade, que consiste num afastamento do estado de conhecimento regido e orientado a serviço da Vontade, e que o levará a um momentâneo abandono esquecimento de si, de distanciamento das relações de mundo e de sua personalidade, sendo que é justamente esse aspecto que o permite atuar intuitivamente, retratando as formas eternas, permanentes, arquétipas e universais do mundo (que não encontram-se na roupagem dos princípios da razão) em suas produções. De maneira simplificada e resumida, podemos dizer que o modo de conhecimento racional é orientado pelo PR (princípio da razão), enquanto o genial é independente do PR. O primeiro possibilita que se conheçam coisas isoladas, enquanto o segundo, por sua vez, que se conheçam as Ideias das coisas isoladas. Neste sentido, cada tipo de expressão artística irá reproduzir as Ideias de uma maneira diferente, sendo que a música, por sua vez, se destacará das demais por ser uma linguagem universal que se sobressai porque, ao invés de expor as Ideias (conforme fazem as demais artes), copia diretamente a própria Vontade em si mesma, colocando o homem, portanto, em contato com o númeno (isto é, a coisa-em-si, aquilo que se encontra por trás dos fenômenos).

Os conceitos de “gênio” e de “Ideia” e a relação que há entre ambos, são pilares fundamentais para uma compreensão sólida da (encantadora) metafísica do belo se Schopenhauer. Este texto buscou explorar tais conceitos de uma maneira simples, introdutória e esclarecedora. Mas recomendamos aos leitores que se dediquem a um estudo mais aprofundado dos livros que constam abaixo, nas referências utilizadas para formulação deste texto, além, é claro, da leitura da obra magna do filósofo.

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA:

BARBOZA, Jair. Schopenhauer e a Decifração do Enigma do Mundo. São Paulo: Moderna, 1997.

SCHOPENHAUER, Arthur. A Metafísica do Belo. São Paulo: UNESP, 2001.

SCHOPENHAUER, Arthur. O Mundo Como Vontade Como e Representação. São Paulo: UNESP, 2015. Tradução, apresentação notas e índices de Jair Barboza.

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