OS CONCEITOS DE TEMPO E ESPAÇO NA FILOSOFIA DE KANT:

By Acervo Filosófico

Por: Gustavo Henrique Garrote

  INTRODUÇÃO: 

   Imannuel Kant (1724-1804) foi um pensador prussiano cujo legado é de imensa relevância para a história da Filosofia e também da Ciência. Escreveu vários livros, dentre os quais se destacam especialmente “Crítica da Razão Pura” (1781), “Crítica da Razão Prática” (1788) e “Crítica da Faculdade de Juízo” (1970). Para este presente estudo, o primeiro livro mencionado é a principal referência, pois é nele que Kant inicia o desenvolvimento de sua teoria epistemológica, chamada Idealismo Transcendental, que, resumidamente, podemos dizer que, conforme Russell (p.311, 2017) consiste numa superação tanto do racionalismo quanto do empirismo, e que é caracterizada por investigações acerca do conhecimento humano, da qual fazem parte o conceito de espaço e de tempo, que serão especialmente explorados neste presente texto.  

OS CONCEITOS DE ESPAÇO E DE TEMPO NA FILOSOFIA DE IMANNUEL KANT: 

  Para Kant, em suma, o mundo é composto por um plano fenomênico e cognoscível e por uma face que lhe é oposta e suprasensível, que consiste na coisa-em-si ou númeno, sendo esta incognoscível, se encontrando para além dos sentidos e igualmente estando além dos princípios de espaço e de tempo. Nesse âmbito, as coisas mundanas que aparecem à consciência são somente aparências, ou seja, são inteiramente fenomênicas e não constituem a coisa-em-si, uma vez que esta é exterior às intuições da mente e desconhecida para ela.

  Mediante o contexto acima apresentado, o espaço e o tempo podem ser definidos como intuições apriorísticas puras (ou seja, que não depende da experiência), subjetivas (ou seja, percebidas por um sujeito particular) e que se encontram presentes no espírito humano, permitindo ao homem formular conhecimentos acerca do mundo sensível (ressalte-se, apenas do mundo do sensível, sem atingir o númeno). Assim sendo, como princípio intrínseco ao intelecto, irão, portanto, ordenar e possibilitar a ocorrência da experiência no mundo dos fenômenos, uma vez que tais noções intuitivas apriorísticas são necessárias para que a experiência ocorra.

  Kant, portanto, compreende que o homem pensa e se percebe pensante no mundo através daquilo que é puro, e nele é inferido a priori que seriam o tempo e o espaço, chamados pelo filósofo de “predicados” do mundo fenomênico. Abaixo vamos apresentar as principais características destes dois últimos princípios apriorísticos.

  O espaço proporciona à mente humana a capacidade de compreender um determinado momento, sendo que quando se pensa em espaço, só é possível que haja tal pensamento pelo fato de que o espaço permite que haja o pensamento dentro dele mesmo e dentro do tempo. É nele que se encontram presentes os objetos externos e materiais que estão fora do sujeito.

O espaço e o tempo podem ser definidos como intuições apriorísticas puras (ou seja, que não dependem da experiência) e que se encontram presentes no espírito humano, permitindo ao homem formular conhecimentos acerca do mundo sensível (ressalte-se, apenas do mundo do sensível, sem atingir o númeno).

  Através do pensamento é possível perceber o espaço possibilitando que a mente crie, molde ou apague imagens, por exemplo: pode-se projetar mentalmente uma cadeira ocupando um determinado espaço e, para tal, basta fechar os olhos e imaginar essa cena. Feito isso, é completamente perceptível que o espaço e a cadeira estão projetados em sua mente e, se a cadeira for retirada de seu lugar, o espaço dela, por sua vez, continuará sendo passivo de percepção. Entretanto, nós não somos capazes de retirar o espaço e deixar somente a cadeira nesta representação imaginária e, sendo assim, ainda que o espaço seja retirado e deixemos somente a cadeira projetada na mente, esse objeto só é compreendido mentalmente pelo fato de ocupar certo espaço, ao passo que para que somente a cadeira esteja projetada na mente, é necessário que antes exista um determinado espaço que viabilize a mente a pensar em uma cadeira que se manifeste no pensamento.

  Ao lado do espaço, conforme acima citado, encontra-se o tempo como outra condição a priori da intuição e que também é responsável por estruturar a percepção humana para que esta possa formular qualquer tipo de conhecimento referente ao mundo fenomênico. O tempo é uma experiência intuitiva através da qual o ser humano percebe alterações na natureza; mudanças de estado dos objetos mundanos. A consciência faz uma leitura da realidade através do tempo, de maneira a relacioná-los (realidade e tempo) constantemente para formular qualquer tipo de conhecimento – o homem situa e fundamenta o mundo no tempo. Ressalte-se que para Kant, o tempo é sempre sentido de maneira indireta, pois conforme já escrito acima, são os objetos do plano fenomênico que sofrem determinadas modificações pelas quais percebe-se a constante passagem temporal.

  Tempo e espaço são assim, puros e universais, são libertos da experiência, uma vez que são justamente eles que permitem que tudo, inclusive que a própria experiência venha a acontecer. Tais faculdades cognitivas são, portanto, duas constantes universais que proporcionam ao mundo e ao ser humano um sentido de compreensão fenomênica. É importante mencionar que além do espaço e do tempo como condições necessárias que permitem experienciar todas as coisas que tangem o mundo fenomênico, Kant também identificou outras doze categorias que formulam a experiência sensorial, mas neste texto, não vamos adentrar em tal tópico.

  A Crítica da Razão Pura se tornou um dos pilares da Teoria do Conhecimento e permanece sendo uma das principais referências dessa área da Filosofia e, certamente, também da própria ciência.

 REFERÊNCIAS:

GARVEY, James, STANGROOM, Jeremy. A História da Filosofia. São Paulo: Editora Octavo, 2013. Tradução de Cristina Cupertino.

KANT, Imannuel. Crítica da Razão Pura. Editora Acrópole.

RUSSELL, Bertrand. História do Pensamento Ocidental. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 2017.

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