PARMÊNIDES DE ELEIA:

By Acervo Filosófico

Por Pedro Bracciali

Parmênides foi um filósofo grego de Eleia, antiga colônia grega estabelecida na costa mediterrânea da Itália, cujas ruínas encontram-se ao sul de Salerno. Estima-se que ele tenha vivido por volta dos anos 515 a 445 a. C. se for correta a descrição ficcional de Platão (1), no diálogo ‘Parmênides’, de que ele tinha cerca 65 anos ao visitar Atenas, juntamente com Zenon, quando se encontrou com o jovem Sócrates, no festival da Grande Panateneia (2).

Quando se discute a Teoria do Ser, muitos filósofos associam Parmênides a uma ontologia, embora Karl Popper (2014, p. 137-8) lhe atribua o título de cosmólogo, e não o de ontólogo, como normalmente acontece. Ele argumenta que o filósofo de Eleia não estava preocupado com um argumento acerca do Ser, mas com o problema da ‘mudança’; e o problema da mudança é um problema cosmológico – de saber se o mundo é um universo em mudança ou um universo do tipo ‘imóvel’. E esse não é um problema do Ser ou da palavra ‘ser’, e nem tampouco da cópula ‘é’, mas um problema referente ao carácter do mundo, do cosmo. Em seus ensaios, Popper menciona importantes descobertas astronômicas creditadas a Parmênides, e são esses princípios astronômicos que originam e sustentam a teoria parmenídica sobre o Ser e o Não-ser. (3)

O pensamento de Parmênides, ainda segundo Karl Popper, desenvolve-se em uma linha na qual o racionalismo é a única via da verdade, e prova ser impossível o movimento no mundo real (mundo material). Essa prova, completamente a priori, e, portanto, sem nenhuma suposição empírica, pode ser assim apresentada (POPPER, 2014, p. 102):

Só o que é, é;

O nada não pode ser;

Não há espaço vazio;

O mundo é cheio;

Uma vez que o mundo é cheio, não há espaço para o movimento e, portanto, nem para a mudança (que é um tipo de movimento);

O movimento e a mudança são impossíveis.

A respeito de influências, Platão e Aristóteles veem em Xenófanes um precursor de Parmênides por seus ensinamentos cosmológicos sobre um universo esférico indivisível – Uno. Há dois conjuntos de relatos acerca da sua cosmologia. O primeiro conjunto é composto de relatos que atribuem implicitamente a Xenófanes a doutrina de que tanto o seu único Deus quanto o universo são finitos, esféricos e constituem uma unidade. É isso que faz com que digam que Xenófanes é um percursor de Parmênides.

O poema ‘Da Natureza’

A teoria de Parmênides elevou o patamar da filosofia da natureza, antes constituída, em boa parte, com teorias ingênuas a respeito do mundo e sua interação com outros corpos celestes. Sua única obra conhecida, o poema ‘Da Natureza’, preservou-se por cópias de restauração realizadas ao longo do tempo, que chegaram até o presente na forma de fragmentos; e por isso não se sabe que porcentagem do poema original possuímos hoje.

A primeira edição crítica do Poema de Parmênides foi feita por H. Diels em 1897. Depois, seus trabalhos em associação com W. Kranz passaram a ser identificados pela sigla DK28. A edição consta de dezenove fragmentos em 160 versos ordenados conforme a concepção de Diels. Segundo os comentadores, a estrutura do poema divide-se em três partes: o Proêmio (fragmento 1), seguido de duas partes; a Via da Verdade (fragmentos 2 a 8); e a Via da Opinião (do final do fragmento 8 ao término do poema). Esta última parte inclui a exposição de uma teoria cosmológica.

O Proêmio descreve a viagem no carro solar ao longo de uma noite, e ao seu destino, o encontro do jovem viajante com a Deusa (4). Nos versos finais desse fragmento de abertura, com poucas palavras de resumo, é anunciada a iminente revelação:

“Ó jovem, acompanhante de aurigas imortais, / tu, que chegas até nós transportado pelos corcéis, / Salve! Não foi um mau destino que te induziu a viajar / por este caminho – tão fora do trilho dos homens –, /mas o Direito e a Justiça. Terás, pois, de tudo aprender: / o coração inabalável da realidade fidedigna / e as crenças dos mortais, em que não há confiança genuína. / Mas também isso aprenderás: como as aparências / têm de aparentemente ser, passando todas através de tudo. ” (PARMÊNIDES, 2013, p. 14).

parmenides

A questão central trazida pelo poema, que vem sendo debatida desde a antiguidade grega, pode ser expressa pela seguinte pergunta: Pode o ‘Não-Ser’ ser pensado? Parmênides afirma que se pode pensar e dizer sobre o Ser; porém para o Não-Ser ele pede cautela, conforme aparece nos dois primeiros versos do fragmento 6, em que se lê: “É necessário que o ser, o dizer e o pensar sejam, pois podem ser; enquanto o nada não é: nisto te indico que reflitas. ” PARMÊNIDES (DK28 B 6 1-2). A Deusa começa seu discurso proclamando a existência de dois caminhos para o conhecimento da realidade: ‘o que é’ e ‘o que não é’. Sobre o primeiro, ela afirma que é o caminho da confiança, pois acompanha a realidade. A verdade sobre qualquer coisa é a própria coisa, e esta tem de coincidir com a realidade – portanto ‘Verdade’ e ‘Realidade’ são a mesma coisa. Entre tantas coisas no mundo é possível saber sobre um cavalo, por exemplo. É possível apontar para um cavalo e dizer ‘isto é um cavalo’. É nesse sentido que podemos ‘pensar’ sobre um ser qualquer, seja ele o cavalo ou uma pedra.

De outro modo, quanto ao caminho de ‘o que não é’, o argumento de Parmênides transcorre da seguinte maneira: a afirmação diz ‘é’, e o que ‘é’ se mostra; a negação nega, mas o que ela nega? Como se mostra o que ela nega? Logo se observa que não se está falando de nada. Parmênides, em DR28 B 2, já esclarece: “o outro que não é, que tem de não ser, este indico ser o caminho em tudo ignoto, pois não poderás conhecer o não-ser; não é possível nem o indicar […]”. Usando o mesmo exemplo anterior do cavalo – o que seria um não-cavalo? Pode ser tudo, pode ser uma pedra, um livro… Neste sentido, o ‘ser’ é uma afirmação – acompanha a realidade e resulta numa identidade entre o pensamento e o ‘ser’; já o não-ser é irreferenciável, não tem existência – não poderá ser pensado. Sobre essa questão, em ‘Interpretação do poema de Parmênides’, J. T. Santos cita:

“Ora, é precisamente essa indefinição que nos impede de conhecer um ‘não-cavalo’. Porque, se um cavalo é uma coisa definida, um não cavalo (qualquer ‘não-x’) pode ser tantas que, por isso mesmo, não é coisa nenhuma. ” (PARMÊNIDES, 2003, p. 63)

A palavra grega ‘Alethéia’ expressa o sentido de ‘verdade’, ‘realidade’. A partícula ‘A-’ indica a negação; e ‘lethéia’, por sua vez, significa ‘oculto’, ‘ignorado’, ‘despercebido’, ‘velado’ – portanto trata-se de uma dupla negação. Para um grego antigo, a presença de algo se faz pela negação de sua ausência. Heidegger

prefere traduzir o sentido de ‘Alethéia’ para o substantivo ‘desvelamento’. Nesse contexto de realidade/verdade, cabe a pergunta: ‘O que é o ‘Ser’? ‘.

O ‘Ser’ de Parmênides está definido no próprio fragmento do poema (DK28 B 6,1), que diz: “É necessário que o Ser, o dizer, e o pensar sejam…” O ‘Ser’ se mostra positivo de realidade, pleno; o ‘Não-Ser’ é incognoscível e não representa o contrário do ‘Ser’, nem seu complemento. Não há existência para o Não-Ser; o universo racional parmenídico é formado unicamente pelo ‘Ser’: não há vazio, não há ‘Não-Ser’.

É na via dos mortais, que nada sabem, que vagueiam com duas cabeças, que se acredita que o ‘Ser’ e o ‘Não-Ser’ sejam o mesmo – argumenta Parmênides. Neste sentido, é pelo corpo, através do ‘sensível’, pelo efeito da passagem do tempo que surge o ‘Não-Ser’; pois se o ‘Ser’ era de um modo e agora o é de um outro, então ele estava numa condição no passado que já não é a mesma no presente. No devir, o ‘Ser’ de antes pode ser o ‘Não-Ser’ do presente; ou no sentido inverso, o ‘Ser’ de agora é o ‘Não-Ser’ de antes. A alteração de estado exige a passagem do tempo.

Partindo da definição fundamental – O ‘Ser’ é e não pode não ser – o poema estabelece para o ‘Ser’ um eterno presente, sem passado nem futuro. Admitir a mutabilidade seria admitir o ‘Não-Ser’. As consequências desse pensamento desdobram-se, pois não havendo mutabilidade não há geração nem destruição. O fragmento DK28 B 8 1-6, descreve o ‘Ser’ pelo caminho que ele sempre ‘é’:

“Sobre esse são muitos os sinais / de que é ingênito e indestrutível, / pois é compacto, inabalável e sem fim: / não foi nem será, pois é agora um todo homogêneo, / uno contínuo. ”

Parmênides oferece-nos ainda uma imagem de como poderia parecer o ‘Ser’: uma esfera, por sua forma de regularidade, perfeição e inteireza – coincidência consigo mesmo. O fragmento DK28 B 8 43-46 descreve-o assim: “Visto que um limite externo é completo / por todos os lados, semelhante à massa de uma esfera bem rotunda, / em equilíbrio do centro a toda a parte; pois nem maior, / nem menor, aqui ou ali, é forçoso que seja”. A esfera permite que um ponto qualquer em sua superfície seja ao mesmo tempo início e fim da circunferência.

_____________________

Notas:

(1) Presume-se que Sócrates tivesse cerca de vinte anos na ocasião do festival. Considerando que ele foi executado em Atenas em 399 a.C. aos setenta anos, infere-se da descrição de Platão que Parmênides nasceu por volta do ano 515 a.C. (PALMER, 2012)

(2) A Grande Panateneia era celebrada de quatro em quatro anos, do 25.° ao 28.° dia do mês de Julho. A Pequena Panateneia tinha caráter restrito e era realizada anualmente, nesse mesmo mês.

(3) Nietzsche também avalia a importância da cosmologia de Parmênides quando sugere, analisando o poema ‘Da Natureza’, que os fragmentos referentes à descrição cosmológica, colocados por H. Diels no final do poema, sejam transferidos, precedendo o conteúdo da tese, pois o que a sustenta é justamente o entendimento cosmológico.

(4) A Deusa anônima, segundo Popper (2014, p. 80), parece indubitavelmente ser Dikê (a Justiça).

REFERÊNCIA

NIETZSCHE, Friedrich. A filosofia na era trágica dos gregos. Porto Alegre: LP&M, 2015. 137 p. (Coleção L± Pocket Vol.959). Tradução de Gabriel Valladão Silva.

NIETZSCHE, Friedrich. A Filosofia na idade trágica dos gregos. Lisboa: Edições 70, 1995. 109 p. (Textos Filosóficos). Tradução: Maria Inês Madeira de Andrade.

PALMER, John. Parmenides: The Stanford Encyclopedia of Philosophy (Summer 2012 Edition). Edward N. Zalta (ed.): 2012. Disponível em: <http://plato.stanford.edu/archives/sum2012/entries/parmenides>. Acesso em: 23 maio 2016.

PARMÊNIDES. Da Natureza .3. ed .São Paulo: Loyola, 2013 .120 p .(Leituras Filosóficas) .Tradução, Notas e Comentários José Trindade Santos.

PLATÃO. Sofista. 1. ed. Lisboa: Calouste Gulbenkian, 2011. 265 p. Prefácio, Introdução e Apêndice de: Santos, Jose Trindade; Tradução de: Murachco, Henrique; Maia Jr., Juvino e Santos, Jose Trindade.

PLATÃO. Sofista: in: Platão Diálogos. São Paulo: Victor Civita, 1972. 269 p. (Os Pensadores). Tradução de: Jorge Paleikat e João Cruz Costa.

POPPER, Karl. O mundo de Parmênides: Ensaios sobre o iluminismo pré-socrático. São Paulo: Unesp, 2014. 403 p. Org. Ane F.Petersen, Jorge Mejer. Tradução de Roberto Leal Ferreira.

SEDLEY, David. Parmênides e Melisso: in: LONG, A.A. org. Primórdios da Filosofia Grega. São Paulo: Ideias & Letras, 2008. p.167 a p.189. Tradução de: Paulo Ferreira.

Related articles

Leave a Reply