QUATRO IDEIAS DE VOLTAIRE PRESENTES NO TEXTO “O FILÓSOFO IGNORANTE”:

By Acervo Filosófico

Por: Juliana Vannucchi

Voltaire foi um dos mais célebres filósofos de todos os tempos. Seu senso humor aliado ás suas ideias brilhantes, contradiziam muitas tradições de sua época e isso lhe rendeu duas passagens pela Bastilha e um exílio. Mas essas experiências não o abalaram, apenas o inspiraram ainda mais para que continuasse escrevendo de uma maneira ácida e encantadora, que ousava questionar e criticar a superstição, a igreja, a burguesia e outros aspectos. O livro “O Filósofo Ignorante” foi escrito na última década de sua vida e é uma de suas produções literárias mais aclamada através da qual, utilizando uma linguagem atraente e acessível, Voltaire convida os leitores a meditarem sobre diversas questões grandiosas que há muito tempo assolam a humanidade, enchendo-a de dúvidas e incertezas. Ele próprio se coloca no papel do “filósofo ignorante”, ou seja, na condição de um indivíduo que, por mais perguntas que faça, perceberá que lhe carecem respostas, ainda que a ignorância seja uma espécie de motor intelectual que alimenta espírito em buscas contínuas. Aliás, antes de prosseguir, acho válido citar que Voltaire abre seu texto com uma série de perguntas curtas e arrebatadores para as quais, ainda nos vemos sem respostas definitivas. São elas: “Quem és? De onde vens? Que fazes? Que será de ti?”. Enfim, de maneira geral, é uma obra provocativo e instigante, do qual selecionei quatro tópicos para compartilhar com os leitores.

O Filósofo Ignorante foi publicado em 1766.

Vida Fora da Terra:

Voltaire, em mais de um momento considera a possibilidade da existência de vida inteligente em outros planetas. Em certa parte do livro, ele comenta sobre como tais seres podem, em vários aspectos, ter uma natureza distinta da que tem o ser humano. Ele, em certo momento, indaga sobre a possibilidade da existência de seres em outro globo: “Haverá inteligências superiores, mestras de todas as suas ideias, que pensam e que sentem tudo que elas querem?” (2013, p. 32).

Além disso, logo no começo do livro, em suas reflexões iniciais, o pensador francês diz ter razões para acreditar que os planetas em torno dos sóis são habitáveis por seres pensantes e sensíveis. 

A Experiência:

Voltaire sustenta que é através da experiência que formamos nosso conhecimento. O filósofo tem claramente uma inclinação empirista e diz que as ideias inatas não existem. A experiência, acompanhada da reflexão, nos faz ter alguma ideia sobre certos aspectos da existência, porém, a substância mesma das coisas (o em-si, aquilo é essencial) permanece desconhecida para nós – interagimos apenas com as propriedades dessa substância. Dessa forma, o filósofo escreve que: “(…) por mais que descubramos algo de sua aparência, restará sempre esse por baixo para descobrir”. (2013, p.27). É interessante notar que quando foi exilado, Voltaire viveu na Inglaterra durante alguns anos, e nesse período conheceu a obra de John Locke, um dos grandes empiristas britânicos que certamente influenciou as ideias do francês.

Artífice Supremo:

Há uma inteligência superioras certamente é eterna. Voltaire acredita que toda obra indica a existência de um obreiro e, assim, olhando para si, para sua situação enquanto ser humano presente neste mundo, reconhece que deva haver um ser superior a ele: “É impossível que eu possa conhecer algo do primeiro princípio que me faz agir e pensar”. (2013, p.31). O que indica a existência desse artífice é a própria natureza, através de sua ordem e de suas leis, que tendem, quando examinandas, a espantar-nos e nos levar a supor que há uma causa primeira. O próprio corpo, com sua notável engenhosidade moldada por meios e fins, seria um indício da existência desse Ser que é: “… o eterno fabricante que anima o verme da terra e faz girar o sol sobre seu eixo”. (2013, p.43).

Moral:

Há, em mais de um momento do livro, meditações e indagações a respeito da moral. Os homens, apesar das diferenças de costumes, leis e cultura, carregam consigo o mesmo pano de fundo moral, que é a noção de justiça e injustiça. Logo que a tração se desenvolve, tais conceitos se tornam conhecidos: “Em que idade aprendemos o justo e o injusto? Na mesma idade em que aprendemos que dois e dois são quatro”. (2013, p.85). Voltaire também afirma que a moral lhe parece ter sido devida e universalmente calculada pelo Ser que formou os homens. Um aspecto curioso é que em relação à questão moral, em certa parte do texto, Voltaire cita das fábulas de Esopo que nos ensinam o que é justiça. Aliás, aqui é válido citar que ao longo do livro, ele menciona também alguns filósofos e correntes de pensamento, sendo bastante crítico com alguns – até mesmo Zoroastro é mencionado.

Por fim, podemos dizer que ao longo de todo o texto, Voltaire apresenta uma série de meditações sobre os mais variados assuntos. Talvez a experiência da leitura seja tão intensa que, acredito, possa conduzir o próprio leitor a se considerar um “ignorante” diante do cenário de uma existência tão repleta de incertezas e tão misteriosa em sua totalidade, que logo percebe-se que se torna deveras desafiador (se não impossível) conhecê-la em sua plenitude (talvez a maior parte dos mistérios seja, de fato, indecifrável para nós).

Referência Bibliográfica:

VOLTAIRE. O Filósofo Ignorante. Porto Alegre: L&PM Pocket, 2013.

 

 

 

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