QUIETUDE E SILÊNCIO: GEORG TRAKL:

By Acervo Filosófico

Por: Pedro Bracciali

Poesia é também confissão (1)

georg_trakl

     Georg Trakl por volta de 1910

Pré-expressionismo alemão. Georg Trakl, 3/2/1887 Salzburgo, Áustria – 3/11/1914 Cracóvia, Polónia.

Diz-se do uso que fazia de ópio, clorofórmio, veronal (2) e cocaína. Diz-se da relação incestuosa com a irmã, quatro anos e meio mais nova, Margarethe (Grete). Sua poesia é considerada de difícil compreensão, difícil tradução. Referem-se a ela os filósofos Heidegger e Wittgenstein – este, amigo do poeta. Também se refere a ela, Rainer Maria Rilke. Seus poemas são carregados de simbolismo e metáforas (influência de Arthur Rimbaud?), acentuadamente, recorrente: crepúsculo, noite, outono, lago, florestas, melro, veado azul. As cores, interpretam alguns comentadores de sua obra, são simbólicas: o branco e o negro a morte; o azul, a pureza.

Da orla do bosque vem silencioso

Um cervo azul;

Na colina termina manso o vento do fim de tarde.

Emudece o lamento do melro,

As flautas suaves do outono

Calam-se no junco.

Em nuvens negras

Navegas embriagado de papoula

Pelo lago noturno,

Pelo céu estrelado.

Soa sempre a voz lunar da irmã

Através da noite espiritual.

[Entardecer espiritual]

Suicidou-se quando estava internado num hospital em Cracóvia, por uma dose violenta de cocaína, sofrendo uma parada cardíaca por consequência. Tinha apenas 27 anos. Três anos depois, suicidou-se também, a irmã, aos 25 anos. A relação incestuosa foi uma tortura extrema para ambos, mas quem poderia atirar a primeira pedra? Quem saberia explicar o que é uma paixão humana? Em imagens, a irmã surge, vagueia, povoa os seus poemas.

Assim como na pintura, a arte libertou-se de imitar a natureza, foi transformando-se em “impressões”, nas letras, por seus próprios movimentos, a poesia evoluiu por “expressar” a realidade distorcida para acomodar uma percepção também subjetiva. Trakl inovou também pela técnica do Reihungsstil: ajuntamento de frases, imagens e metáforas em que, na maioria dos casos, não existe uma ligação sintática nem lógica entre as mesmas.

Quietude e Silêncio, neste poema, tudo converge para à escuridão. É de brevíssima narrativa feita de movimentos, de aparecimentos: um anoitecer, imagem de seu próprio interior. Escrito no impessoal, sugere uma supressão do tempo para a simples passagem dos eventos. Não há relação de causa entre uma imagem e outra, apenas uma descrição, uma captura do momento: esse preciso momento em seus versos. É pela forma vaga e sujeito indeterminado que o poeta se faz presente no poema. Recorrentes paisagens migram de um poema para outro, formando um mosaico visual da realidade percebida pelo poeta. O anoitecer é, assim, sempre triste.

Pastores enterraram o sol na floresta nua.

Um pescador puxou a lua

Do lago gelado em rede de crina.

No cristal azul

Mora o homem pálido, o rosto apoiado em suas estrelas;

Ou inclina a cabeça em sono purpúreo.

Mas sempre toca o voo negro dos pássaros

Ao observador, o sagrado das flores azuis,

O silêncio próximo pensa coisas esquecidas, anjos extintos.

De novo anoitece a fronte em pedra lunar;

Um jovem irradiante,

Surge a irmã em outono e negra podridão.

[Quietude e Silêncio – 1913]

A escolha de certas palavras, em Trakl, carrega a sutileza que os radicais ortográficos sugerem para sentidos distintos, somente percebidos na língua alemã em que os poemas foram escritos. Rimas e assonâncias são sempre um problema na tradução de poemas, então resta apenas a versão dos conteúdos. Pena.

Se os poemas, por um lado, discorrem no modo impessoal ou na forma pronominal indeterminada, o poeta está sempre presente em alta subjetividade. É sempre o seu mundo em desfile, é sempre a sua contemplação melancólica. Apenas os poemas dos últimos meses de vida de Trakl alteram-se para um tom universal, referindo-se ao clima apocalíptico da guerra.

A análise dos elementos estruturais e da temática na obra de Trakl levou Heidegger a afirmar, através de um ensaio polêmico, que “Todo grande poeta faz poesia a partir de um único poema… Esse poema de um poeta fica por dizer. Nenhuma das poesias isoladas, nem o seu conjunto, diz tudo. Sendo assim, cada poema fala do todo desse poema único e diz sempre o mesmo. ” Heidegger (1953, p. 226, apud SCHEIDL, 1985 p. 155)

No verão de 1914, Ludwig Wittgenstein fez uma doação de suas finanças para artistas austríacos, e elegeu Ludwig von Ficker (3) para fazer a distribuição. Coube a Trakl o montante de 20 mil coroas. Ao tentar sacar uma parte desse valor num banco em Innsbruck, ele sofreu um ataque de pânico e fugiu. Pouco depois, foi alocado como farmacêutico de um hospital militar de campanha na Polônia (Primeira Guerra Mundial), e nunca recebeu o dinheiro. Seis dias antes de sua morte, Trakl escreveu para Ficker, deixando todos os seus bens para sua irmã Grete. Trakl ainda lhe solicitou para que pudesse ver Wittgenstein, que se encontrava perto de Cracóvia; mas quando este chegou ao hospital, Trakl já havia se suicidado há três dias.

trakl_bucheinband

Manuscrito Grodek – 1914

– Não suportou mais a guerra; não superou o horror da batalha de Grodek, quando noventa flagelados foram largados aos seus cuidados em um celeiro (do lado de fora, desertores eram enforcados, e outros ainda procuravam um fim por seus próprios meios). Houve aí uma primeira tentativa de suicídio, e por isso foi encaminhado para um hospital psiquiátrico em Cracóvia, para sua surpresa, não como paramédico, mas como um paciente.

Na tarde ressoam as florestas de Outono

De armas mortais, as planíces douradas

E lagos azuis, e por cima, o sol

Sombrio rola;

A noite envolve

Guerreiros em agonia, o lamento selvagem

Das suas bocas despedaçadas.

[…]

Todos os caminhos vão dar em negra putrefação.

Sob ramos dourados da noite e sob estrelas

Vem vacilante a sombra da irmã pelo silencioso bosque

Para saudar os espíritos dos heróis,

As cabeças ensanguentadas.”

[Grodek – o último de seus poemas, juntamente com “No Leste” – 1914]

Grete_Trakl_1916

A irmã Margareth (Grete)

– Não encontrou perdão para a paixão devastadora pela irmã, mui cara. Os versos seguintes carregam o tom confessional de uma relação culposa:

A noite ameaçava o leito de nossos beijos

Ouve-se murmurar: quem tira de vós a culpa?

Ainda trementes da infame e doce volúpia

Oremos: Maria, na tua graça, perdoa-nos!” (4)

[Blutschuld I, 249]

– Não se permitiu perdoar a si mesmo, por seus tormentos íntimos. Os tóxicos não foram eficientes para a cura do seu absurdo. Seus versos fazem duvidar se a melancolia transforma o mundo ao redor, ou se ela apenas faz aparecer a realidade concreta dele:

Sempre voltas, melancolia,

Mansidão da alma solitária.

[…]

A cabeça mais baixa a cada ano.”

[Olhando um velho álbum – 1912]

NOTAS

(1) Bilhete de Trakl deixado para Ludwig von Ficker pouco antes de subir para o comboio com destino à frente de batalha na Polônia (1914) – destino de morte.

(2) Veronal é o nome comercial do primeiro sedativo e sonífero do grupo dos barbitúricos. Tem propriedades hipnóticas e, se aplicado por tempo prolongado, produz dependência. Uma overdose pode, facilmente, provocar a morte.

(3) Ludwig von Ficker, escritor e editor, fundou a revista literário-filosófica Der Brenner, através da qual os poemas de Trakl foram divulgados.

(4) Trakl era de confissão protestante.

Os fragmentos dos poemas, para fins ilustrativos, apresentados neste texto são traduções trabalhadas por C. Cavalcanti, P. Quintela, J. Barrento, e outros ainda foram traduções de texto em Inglês. Todos esses poemas são, terrivelmente, tristes:

Oh a proximidade da morte. Vamos rezar.

Nesta noite em travesseiros mornos

E amarelados de incenso soltam-se os membros débeis dos amantes. ”

[Proximidade da morte – 2ª versão]

REFERÊNCIAS

CARONE, Modesto. Georg Trakl: Declínio e utopia. Remate de Males, São Paulo, 1984. Semestral. V. 3. Disponível em: <http://revistas.iel.unicamp.br/index.php/remate/article/view/2773>. Acesso em: 27 jul. 2016.

SCHEIDL, Ludwig. O Pré-Expressionismo na Literatura Alemã. Coimbra: Biblioteca da Universidade de Coimbra, 1985. 576 p.

SELIGMANN-SILVA, Marcio. Poemas nascidos entre as sombras. O Estadão. São Paulo, 05 fev. 2011. Caderno: Cultura. Disponível em: <http://cultura.estadao.com.br/noticias/geral,poemas-nascidos-entre-as-sombras-imp-,675486>. Acesso em: 27 jul. 2016.

TRAKL, Georg. De Profundis: e outros poemas. São Paulo: Iluminuras, 1994. 113 p. Tradução de Claudia Cavalcanti.

______. Georg Trakl poemas. Porto: O Oiro do Dia, 1981. 15 v. (Coleção as mãos e os frutos). Antologia, versão portuguesa e introdução de Paulo Quintela.

WERSCH; DOSS, Jim. Wersch’s Website. 2005. Disponível em: <http://www.literaturnische.de/Trakl/english/index-trakl-e.htm>. Acesso em: 27 jul.

Leave a Reply