REALIDADE VIRTUAL:

By Acervo Filosófico

Por Juliana Vannucchi

Recentemente tive a oportunidade de experimentar óculos de realidade virtual. Ocorreu numa ilha de shopping, especializada em oferecer tal interatividade aos visitantes do local. Já faz certo tempo que escuto comentários a respeito disso, e com certa frequência deparo-me com discussões e informações a esse respeito. Posso assegurar que, apesar de ter vivenciado essa realidade alternativa por poucos minutos, fiquei simplesmente impressionada.

Sentei-me em frente a um dispositivo. O funcionário ali responsável pediu que eu colocasse os óculos e um fone de ouvido. Eu o fiz e, de repente, toda a realidade que eu conhecia desapareceu. Não havia mais nenhum som externo, pois eles foram substituídos pelos ruídos daquela nova existência. Além disso, a paisagem do shopping também desapareceu e em seu lugar surgiu um ambiente totalmente diferenciado. O que me chamou a atenção foi o fato de que meu corpo fora substituído pelo corpo de um avatar, e essa interação foi tão intensa que havia uma certa e mínima dificuldade em tentar mover meus próprios braços e pernas. Na verdade, nem sei se, de fato, consegui movimentá-los, pois meu corpo durante a experiência não era mais este com o qual, no momento, redijo este texto, era outro. Era um corpo novo, de uma mulher que desconheço, com sapatilhas (bem bonitinhas) que não eram o meu coturno, e com uma blusa branca que não era a que eu vestia antes de colocar meus óculos. Além disso, eu podia mexer a cabeça em 360 graus observando tudo o que estava ao meu redor.

Essa experiência lembrou-me do filme Matrix, pois sua narrativa apresenta situação similar: consciências individuais tecnologicamente implantadas em avatares que, por sua vez, encontram-se situados em um planeta que lhes parece natural, e no qual constroem e vivem suas vidas, sem saber (exceto alguns) que na verdade encontram-se em outro lugar, e que o planeta no qual vivem, a história que escrevem, aquilo que sentem e apreendem, e tudo o que faz parte de suas vidas, não passa de mera ilusão. O protagonista do filme (Neo) desperta e percebe o jogo de realidade alternativa que está por trás do que ele pensava ser a realidade concreta, fato esse, que desencadeará o desfecho do roteiro. Mas não vou adentrar  nos aspectos fílmicos. No longa-metragem Avatar, algo semelhante acontece, pois os personagens assumem outros corpos com suas consciências individuais, embora o mundo que eles frequentem por intermédio de avatares seja um mundo real.  

Estes dois filmes, por sua vez, lembram-me do pensador René Descartes que em sua obra Meditações Metafísicas propõe a possível existência de um gênio maligno que seria capaz de iludir qualquer ser humano, fazendo com que acreditássemos que a realidade fora de nós existe, quando na verdade ela é somente uma projeção de nossa mente. Descartes propõe que o céu, a terra, as figuras, sons cores, e até nosso próprio corpo podem ser ilusão, e que talvez, apenas acreditemos que tudo isso seja real. Todo o universo pode estar nas mãos deste gênio que nos leva a pensar que está é a realidade objetiva, quando, de fato, não o é. Tudo seria apenas imaginação, produto de nossa mente. Mas o curioso é que essa dúvida aplicada pelo pensador irá levá-lo a uma certeza sólida e incontestável: a de que, se ele pode duvidar, então é porque ele é alguma coisa (eis aqui, o “penso, logo sou/existo”). Aqui surge, portanto, uma diferença entre a matéria e a mente. Neste caso, a natureza captada pelo mundo sensorial, não passa de uma ilusão e o que tomamos como existente e real, pode não passar de simulação.

Tanto em Avatar quanto em Matrix, havia a presença de uma consciência, de um “eu pensante” que se prendia em corpos fictícios que não eram, necessariamente verdadeiros, ou então, que não eram a realidade plena, apenas uma parte de um sistema complexo. Conforme já mencionado anteriormente, no primeiro filme, o protagonista estava, desde o início, ciente de tal fato; em Matrix, inicialmente Neo não sabia que vivia inserido numa miragem, mas depois descobre tal verdade.

Em março de 2016, um célebre cientista e pensador faleceu. Chama-se Hilary Putnan. Ele foi responsável pela teoria chamada “cérebro em uma cuba”. Supõe-se que um cérebro seja colocado num líquido, estando ambos em um suporte que, por sua vez, liga-se a um computador (de alta potência e capacitação). A máquina interage com a terminação nervosa do cérebro e, por intermédio de programações, condiciona-o a assimilar que existe uma realidade composta por sensações que parecem ser imensamente verdadeiras. Cada movimento corporal é sentido de maneira vívida, tal como é cada dor e cada prazer. O sol arde na pele, o frio congela o corpo todo. Porém, é apenas um cérebro numa cuba. Se você se perguntar se isso é possível, posso responder que tudo indica que sim. Até porque Punan é um pensador de imenso reconhecimento na comunidade acadêmica mundial e seus pensamentos são bastante valorizados. Além disso, muitos cientistas da NASA tem afirmado, teorizado e compactuado com a ideia de estejamos vivendo numa realidade simulada. Em 2015, Richard Terrile, diretor do centro de computação evolutiva e design automatizado do centro tecnológico da Nasa, declarou: “Quando você vai ao cinema e assiste aos filmes por meio de simuladores de realidade virtual, por exemplo, acaba tentando se desvencilhar de objetos virtuais por achar que eles são reais. É isso que fazemos diariamente. E é um tipo de realidade completamente diferente que queremos oferecer no futuro”.

Embora minha consciência não tenha sido transferida para outro corpo durante os minutos que passei com os óculos, impressionou-me a sensação de estar na pele de um outro ser (quase) humano, em outro local, cujo visual diferia do meu e cujos sons também eram distintos daqueles que tocavam meus ouvidos antes de eu colocar os óculos. Para se ter uma ideia do grau de envolvimento que a realidade virtual possibilita, esclareço que, quando optei por experimentar aquela novidade, ofereceram-me três opções (três histórias) divergentes. Escolhi a trajetória da montanha russa. Durante o passeio, em curvas mais inclinadas ou descidas íngremes, podia sentir um friozinho na barriga, embora meu corpo estivesse totalmente inerte na “realidade externa”.

O ser humano encontra-se numa interação cada vez maior com a tecnologia e com as plataformas virtuais. Isto não é segredo e tampouco novidade, mas podem ser indícios de que a proporção desse elo está apta a aumentar cada vez mais, e talvez, em breve, os óculos de realidade virtual tornem-se um objeto acessível. Os óculos de realidade virtual já fazem parte do sistema educacional de algumas escolas e, portanto, do cotidiano de muitas pessoas. No Vale do Sisílio, por exemplo, muitos estudantes já usam-no  frequentemente em sala de aula. O aparelho permite que os alunos possam visitar através de imagens gráficas, locais distantes que tenham relações com as disciplinas ensinadas em classe. Neste caso, é possível especular que haverá, por certo, muitas pessoas desligando-se desta realidade (se é que ela existe) para a vivência de mundos alternativos que tais objetos oferecem. Talvez o ser humano torne-se um personagem fictício. Isso se já não o for.

 Category: FILOSOFEI

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