REVOLUÇÃO INDUSTRIAL 4,0 – REFLEXÕES:

By Acervo Filosófico

Por: Paulo Pedroso

Ao longo da história, vários fatores causaram a mudança de uma era para a outra, e quase sempre esses fatores se entrelaçaram de alguma maneira. Dentre tais causas, podemos considerar as novas tecnologias que surgem, as alterações no meio de produção, as descobertas científicas, guerras, revoluções, modelos e formas de governo… Nesse âmbito, se é difícil identificar o primeiro “gatilho” que coloca a revolução industrial em movimento, as suas consequências, no entanto, sempre foram evidentes. Os livros de História, Geografia, Filosofia e outras Ciências Humanas coincidem em relatar fatos do mesmo período histórico, os abordando sob diferentes perspectivas. Mas independentemente da perspectiva, é possível enxergar a diferença entre o fim de uma era a o começo da seguinte pela forma que a sociedade toma. e a maneira com a qual esta se entrelaça com a filosofia.

Historicamente, os livros e campos de estudo sobre o assunto, demarcam três revoluções industriais que mudaram a sociedade e a sua forma de pensar: na primeira, ocorrida no final do século XVIII e começo do XIX, a produção manual se tornou mecanizada e a força motriz passou a provir das máquinas a vapor. Tal processo se espalhou da Inglaterra para o resto da Europa e posteriormente atingiu a América e a Ásia, delimitando a primeira revolução industrial. Na última metade do século XIX e entrando no século XX, a segunda revolução industrial surgiu e teve como força motriz a eletricidade. Note-se que seus efeitos vão além das indústrias e suas linhas de montagens e bens de consumo domésticos passam a ser produzidos em massa, mudando a realidade da humanidade e sua forma de consumir. A sociedade, sua forma de comunicação e de pensamento são diretamente afetados com os meios de comunicação eletrônicos que possibilitam a cultura de massa e o início da indústria cultural. Durante a segunda Guerra Mundial, a energia atômica e os meios de comunicação eletrônicos (que mais tarde se tornariam computadores) despontavam para ser alavanca da terceira revolução industrial, mas não atingiram esse patamar, e somente na década de sessenta o advento da informática rompeu as barreiras da Guerra Fria e transformou a maneira de pensar da humanidade. Nesse momento, começou a surgir o mundo digital.

(…) as máquinas agora podem, de certa forma, “pensar” por si mesmas.

Na década de 90, os computadores passam por uma popularização e tem sua potência transformadora imensamente amplificada pela internet, e o mundo digital começa, ainda que aos poucos, a fazer parte e até mesmo substituir o mundo físico.

O começo do século XXI mostra o fim da terceira revolução industrial. Nesse momento, os conteúdos já estão digitalizados, as máquinas parecem encontrar seus limites físicos e tecnológicos, a sociedade já se habituou ao mundo digital e a revolução 4.0 começa a virtualizar tanto o físico quanto o digital: a velocidade, a profundidade e o impacto das mudanças geradas pela revolução 4.0 superam exponencialmente os feitos da terceira revolução.

Se na primeira revolução, as máquinas surgiram e o vapor pela primeira vez substituiu a força braçal humana, na segunda a eletricidade multiplicou essa força, na terceira a realidade dessa força passou a ser feita por um computador e seu meio digital e, finalmente, na quarta, o mundo físico simplesmente inexiste e a força virtual “despreza” o mundo digital e até mesmo a mentalidade humana, visto que as máquinas agora podem, de certa forma, “pensar” por si mesmas. Nesse âmbito, a força (maquinofatura) trazida na primeira revolução, a abrangência da segunda revolução e imaterialidade da terceira revolução são todas mescladas e absorvidas na quarta revolução e as mudanças por ela desencadeadas são capazes de colocar fim a certos padrões de comportamento que já possuem séculos de existência.

Se antes, por exemplo, uma fábrica necessitava de cinco mil funcionários, após a primeira revolução, seriam necessários quatro mil funcionários, após a segunda, dois mil funcionários, após a terceira bastariam quinhentos funcionários, e no contexto da quarta revolução, esse número pode diminuir para menos de uma dezena ou até mesmo extinguir a necessidade de tal indústria. Se economicamente essa nova indústria, tem potencial tanto para animar, quanto para alarmar, socialmente ela traz a ameaça do aumento vertiginoso da desigualdade social, na qual o sistema geopolítico pode tomar uma configuração nunca antes vista e o capitalismo teria de se reinventar ou seria extinto. A extinção de funções braçais, mecânicas, repetitivas, geraria um abismo entre os que têm condição financeira de se manter atualizado e capacitado, afetando o mercado e o potencial consumidor das classes mais baixas que são vitais ao capitalismo.

Tecnologicamente, a revolução industrial 4.0 ainda é desconhecida de muitos e termos como “machine learning”, “big data”, “biologia sintética”, “blockchain”, “nanotecnologia”, “iot” (internet das coisas), “realidade aumentada”, “engenharia genética”, “neurotecnologia”, dentre tantos outros ainda soam estranhos e mesmo a inteligência artificial, já prevista e cogitada desde a metade do século XX, para alguns ainda parece coisa de ficção científica – muito embora, definitivamente ela não seja.

A transição de uma era não causa a extinção da filosofia, a menos que venha a se extinguir a humanidade e toda forma de pensamento crítico.

E agora, após as constatações acima feitas, convido os leitores para uma reflexão: quais seriam os impactos da revolução industrial 4.0 na Filosofia? Podemos considerar,a partir do contexto do presente conteúdo, que da terceira revolução em diante, a Filosofia passou a conviver com certos ramos da Ciência, tal como a Psicologia, a Antropologia, a Sociologia, a Astrologia e várias outras formas de conhecimento. Além disso, é fato que nos últimos tempos, há quem pense que já nem existem mais filósofos em nossos tempos e há quem discorde disso. Independentemente do que se pense e dos rumos do mundo e da tecnologia, há um fato interessante que devemos destacar: a Filosofia e suas reflexões continuam existindo. Mas quais são as novas perguntas que cada vez mais serão feitas e necessitaram de reflexões filosóficas inéditas? No mundo das artes e da estética em seu viés filosófico, as criações que partiram de um algoritmo e da inteligência artificial podem ser consideradas arte? O quanto a fusão entre a mentalidade humana e a inteligência artificial transforma o pensamento filosófico? Em relação a ética, qual base ética servirá para ciborgues e robôs, e será ela diferente da ética “humana”? Os direitos humanos serão restringidos, expandidos ou flexibilizados a ciborgues e robôs? Se um carro autônomo conseguir prever um acidente inevitável, deve ele optar em salvar o motorista, sozinho em seu veículo ou as três crianças prestes a serem atingidas? Quanto à política, quem poderá concorrer aos cargos políticos? Que tipos de representatividade terão os “não humanos”? Como se dará a relação social virtual? Com o mercado de trabalho diminuto e as poucas vagas sendo preenchidas pelos poucos que tiveram condição financeira para se qualificar para tal, como serão as relações demográficas e socioeconômicas? Qual será a relação do ser humano com o trabalho? Com a fartura de conhecimento e excesso de informação disponível, qual será o papel da educação formal para as novas gerações? A aquisição de conhecimento sem a necessidade do estudo e da prática criará qual mentalidade? Podemos também indagar, por exemplo, como Marx veria essa nova realidade do trabalho e das lutas de classes, ou então, podemos nos perguntar: como Kant descreveria a imaterialidade das relações virtuais? O que diria Piaget sobre as novas práticas pedagógicas que independem do local físico e da socialização? Como adaptar o “vigiar e punir” numa sociedade sob total exposição? Mannheim consideraria a sociedade mais próxima de uma utopia ou dentro de uma simples ideologia temporal? O Darwinismo tecnológico frenou a evolução da humanidade que deixou de se adaptar devido a facilidade criada por suas novas ferramentas?

A Filosofia sempre estará entrelaçada ao modus operandi da sociedade, mesmo que este suponha a supressão da mesma. A transição de uma era não causa a extinção da filosofia, a menos que venha a se extinguir a humanidade e toda forma de pensamento crítico.

REFERÊNCIAS:

SCHWAB, Klaus. A Quarta Revolução Industrial. São Paulo: Edipro, 2016.

RASQUILHA, Luis. A 4ª Revolução Industrial – Os 23 Shifts de Mudança. Editora: Inova Consulting, 2017.

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